Política econômica não é racialmente neutra, diz economista preto

Em live do Portal Vermelho, Giliad de Souza Silva falou sobre racismo estrutural e o caráter excludente de determinadas políticas econômicas

Economista Giliad de Souza Silva concede entrevista ao Portal Vermelho - Reprodução

A política econômica não é racialmente neutra, segundo o economista Giliad de Souza Silva, membro da Rede de Economistas Pretas e Pretos (Repp) e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). Em live do Portal Vermelho nesta quinta-feira (15), o economista comentou temas como racismo estrutural e a forma como determinadas políticas econômicas ajudam a perpetuar a exclusão da população preta dos espaços de poder e processos decisórios.

“O racismo é criativo. No nosso cotidiano, no dia a dia, você tem sempre a piada com a questão do cabelo, da tonalidade da pele. Tem o racismo jurídico, e a gente consegue vislumbrar isso pela quantidade de pessoas que estão presas. Isso também se evidencia institucionalmente, pela parca participação de pessoas pretas nos espaços de poder, quer seja nas instituições de Estado ou empresas. No Estado, em termos de participação de deputados federais a gente é extremamente subrepresentado”, comentou.

De acordo com o economista, essas questões resultam de um processo histórico e político de centenas de anos. “A gente tem esses percalços, que por vezes se normalizam, que são apenas a superfície de uma estrutura que é muito mais rígida. Seria ingenuidade nós termos quase 400 anos de escravidão, em que se construíram diversos valores, diversas normas, diversas formas de lidar com o outro, aí ter menos de 200 anos de superação institucional e acreditar que a gente vai superar todos os vínculos racistas de uma hora para outra”, afirmou.

Segundo ele, o impacto das diferentes formas de violência sobre homens e mulheres pretas é devastador. “Isso se demarca nas pessoas negras de forma muito forte. É muito comum que as pessoas negras se reconheçam e se identifiquem como pessoas inferiorizadas. Não por causa de uma questão psicológica, necessariamente, mas porque a estrutura social empurra para isso, empurra para sempre acreditar que aquele emprego não é para você, aquela vaga de concurso não é para você, aquele curso de graduação ou de pós-graduação não é para você”, ressaltou.

Giliad citou o próprio exemplo, lembrando que foi o único negro durante o mestrado e o doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). De acordo com o economista, a Repp surgiu com a proposta de ser um espaço de acolhimento para pessoas que, como ele, se sentiam sós.

“Nós, pretos e pretas, precisamos de um tipo de acolhimento que as pessoas brancas não têm como mensurar. Você não imagina o quanto é constrangedor sair para qualquer espaço e as pessoas acharem que você vai furtar alguma coisa. Você é sempre sinônimo de ameaça, de violência. Tem espaços em que eu odeio estar porque aquele espaço é desenhado institucionalmente para que os pretos não entrem”, relatou.

Ele também falou sobre como o racismo se manifesta em sua área de atuação, a economia. Além de serem, em sua maioria, homens brancos os que são chamados a comentar e analisar temas econômicos, a fala de economistas pretas e pretos fica relegada a determinados temas.

“Normalmente, quando chamam pessoas pretas para comentar sobre economia é sobre temas específicos, racismo, desigualdade. Você tem economistas pretas e pretos muito bem formados que falam sobre todos os temas da economia. O pessoal fala ‘Ah, eu não encontro’. Não encontra porque não procura”, afirmou.

Giliad pesquisa sobre indústria da mineração, usa como referência as teorias econômicas marxistas e tem orientação política à esquerda. Segundo ele, seu perfil não constitui maioria entre os membros da Repp, que reúne economistas pretas e pretos de todos os pontos do espectro ideológico.

Ele comentou a política econômica dos últimos anos, marcados por reformas estruturais como o teto de gastos, as reformas trabalhista e da Previdência e com previsão de continuidade da tendência, com a discussão de uma reforma administrativa destinada a enxugar gastos com o serviço público. Embora tenham sido implementadas sob a égide da necessidade técnica de equilibrar as contas públicas, Giliad afirma que elas resultam de uma política econômica que não é racialmente neutra.

“Quando a gente está falando, por exemplo, sobre teto de gastos, não é teto de gastos para tudo. É para algumas coisas. Quais são as coisas que estão sob o teto de gastos? Você vai perceber que são basicamente serviços públicos. Quem é o público-alvo desses serviços? Pessoas pretas, em sua maioria. Sobretudo mulheres pretas. Quando você estabelece um teto para serviços que são demandados por esse tipo de pessoas, você não está punindo só o serviço, mas as pessoas que o demandam”, afirmou.

Confira o bate-papo completo:

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