Militares já discutem limite da obediência a Bolsonaro, diz jornalista

Segundo William Waack, “as elites militares estão divididas” – mas é crescente o número de “oficiais superiores descontentes” com Bolsonaro e “seu comportamento desequilibrado”

Blindados da Marinha no desfile na Esplanada dos Ministérios nesta terça-feira (10) (Foto: Pedro França/Agência Senado)

O fiasco do desfile militar golpista em Brasília abalou as relações entre as Forças Armadas e o presidente Jair Bolsonaro. Segundo o jornalista William Waack, “também as elites militares estão divididas e sem um claro curso de ação” – mas é crescente o número de “oficiais superiores descontentes” com Bolsonaro e “seu comportamento desequilibrado”.

“Depois do espetáculo deprimente do ‘desfile’ militar de terça-feira (10), ganhou corpo nos altos escalões das Forças Armadas a discussão sobre os limites de obediência ao Napoleão que transformou o Planalto num hospício”, informa Waack no Estadão. Para muitos oficiais, Bolsonaro se tornou “a expressão de olhos revirados e vociferante do Brasil tosco, bruto, retrógrado – um motivo de constrangimento e vergonha internacional”.

Em sua coluna desta quinta-feira (12) no jornal paulista, ele afirma que esses oficiais passaram a evocar o “princípio consolidado na ‘Führungsakademie’ do Exército alemão, que equivale à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército brasileiro. É o da ‘Innere Führung’ – traduzido livremente como ‘conduta moral’ – desenvolvido como premissa do rearmamento da então Alemanha Ocidental nos anos 50 e da educação de todos seus líderes militares”.

O que pressupõe esse princípio? Segundo Waack, que “o militar é tão-somente um ‘cidadão em uniforme’, e que deve se orientar por valores éticos e morais pertinentes a um estado democrático e de direito, e não pela obediência cega a ordens superiores”. Como o desfile – na opinião desses militares – desmoralizou as Forças Armadas e revelou um presidente “incontrolável”, cabe uma reflexão das tropas.

Assim, “na cabeça desses oficiais superiores”, o que uma possibilidade em Bolsonaro – “uma ordem tresloucada dele” – se tornou uma “probabilidade”, dada a escalada golpista. “Com tendência crescente à medida que o isolamento político e as consequentes derrotas do presidente se acumulam e a crença mística que Bolsonaro possui de si mesmo o faz pensar que está ganhando força quando o que ocorre no mundo real da política é o contrário”.

“Resta enfrentar a desmoralização das instituições incessantemente perseguida por Bolsonaro num ambiente político polarizado, deteriorado e próximo do que os militares chamam de ‘bomba social’, que é o desemprego, a miséria e a inflação intoleráveis para os mais pobres”, escreve Waack. “Sem que se identifique neste governo qualquer projeto ou plano de ação para realmente fazer o País crescer além de dar dinheiro para ganhar eleições, fuzila um importante oficial superior.”

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