O que pensam os eleitores de Bolsonaro em 2018 e por que repetiriam o voto

Uma pesquisa indica o que levaria eleitores de Bolsonaro em 2018 a repetir o voto, ou não

Bolsonaristas mais radicais afinam-se com as ideias autoritárias

Família, armas, corrupção, luta contra a pandemia. Os brasileiros que votaram em Jair Bolsonaro em 2018, em grande medida, continuam defendendo suas ideias, muitas vezes polêmicas, e suas posições às vezes inflamadas. Mas outros, desencantados após quase três anos no cargo, agora soltam sua mão e se recusam terminantemente a elegê-lo novamente em 2022.

Uma pesquisa qualitativa realizada em maio deste ano pelo Instituto para a Reforma das Relações entre o Estado e as Empresas (IREE) e o Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública da Universidade do Rio de Janeiro (LEMEP) em diferentes cidades do Brasil e divulgada pelo jornal argentino El Clarín, nesta sexta-feira (24), busca desvendar o que pensam os atuais “bolsonaristas” e aqueles que se arrependem de ter ajudado Bolsonaro a chegar à presidência do Brasil.

A pesquisa procurou contemplar uma série de questões que estão em debate no país, que em outubro de 2022 voltará às urnas para eleger o próximo presidente. Jair Bolsonaro tem chance de vencer novamente? Ou, melhor ainda, os motivos dos que votaram nele em 2018 ainda são válidos? Qual é a sua base de apoio mais forte?

A pesquisa mostra que “os mais ferrenhos defensores do Bolsonaro são em geral muito conservadores, em grande parte evangélicos que se consideram moralmente isolados do resto da população, ou militaristas autoritários convictos”. O discurso anticorrupção de Bolsonaro também tem forte aprovação entre seus seguidores, mas apenas em casos raros é o principal motivo de seu apoio.

“Há um grande grupo que apoia o Bolsonaro mas com críticas, seja por questões específicas de sua agenda – como a homofobia, a flexibilidade do uso de armas ou a posição contra Covid – ou sua atitude não presidencialista”, diz o relatório.

Rejeição a Lula e ao PT

Um forte elemento de apoio a Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018 foi a rejeição ao PT, que muitos então vinculavam à corrupção e, principalmente, ao ex-presidente Lula.

Aqueles que se arrependem de ter votado no ex-capitão do Exército agora expressam um forte repúdio ao presidente, disse a pesquisa. E muitos expressam vergonha por tê-lo escolhido e pelo comportamento e posições de Bolsonaro. “Praticamente todos eles apontam que votaram no Bolsonaro em 2018 porque estavam cansados ​​da corrupção do PT ou porque queriam uma renovação na política”, diz o relatório.

Pandemia e economia

A pesquisa capturou percepções sobre a vida atual e o contexto da pandemia de Covid-19 no Brasil. “O sentimento dos entrevistados é de uma piora da situação financeira causada pela pandemia, seja ela relacionada à vida – desemprego ou queda de renda – seja de familiares e amigos”, diz o texto.

A inflação é um assunto que preocupa a todos, até os mais fiéis seguidores do presidente. No entanto, existem diferenças sobre quem eles acreditam ser o responsável pelo problema. A pesquisa identificou que os participantes do segmento evangélico tendem a culpar governadores, prefeitos e até empresários. De alguma forma, é uma tentativa de aliviar a responsabilidade de Bolsonaro.

No discurso dos mais radicais seguidores de Jair Bolsonaro aparece a ideia de que a crise econômica é resultado da “política de ficar em casa”, promovida especialmente por governadores e prefeitos, dada a recusa de Bolsonaro em decretar quarentenas. Já os “arrependidos” consideram o presidente diretamente responsável por impulsionar a crise de saúde e a incapacidade de administrar a economia.

Forte apoio evangélico

Em relação aos valores, a pesquisa explorou cinco temas centrais: família e questões de gênero; segurança (posse e porte de armas); corrupção; militares no governo e na política e a pandemia de coronavírus (vacinas, isolamento e tratamentos).

Os resultados mostraram que nem todos os seguidores do presidente pensam como ele em todas as questões, mas que ele mantém uma forte base de apoio entre os evangélicos. A defesa incondicional da família “tradicional” – formada por um homem e uma mulher – não é unânime. Apenas os bolsonaristas mais fortes, principalmente evangélicos e que não se arrependem de seu voto, concordam com essa posição.

De qualquer forma, quando o assunto é “ideologia de gênero”, o consenso é crescente. Por exemplo, muitos apontam que durante os governos do PT, a educação pública era orientada a “ensinar sexo” a meninos e naturalizar a homossexualidade, quando isso deveria ser assunto íntimo de cada família, segundo os consultados.

Vacinas e pandemia

Embora o presidente tenha sido, desde o início da pandemia, um forte adversário das quarentenas e vacinas, a maioria dos participantes da pesquisa disse que deseja ser vacinada. Em relação à demora na contratação e compra de imunizantes, os bolsonaristas mais leais afirmam que o presidente foi “cauteloso” diante das dúvidas científicas sobre a segurança das vacinas.

Entre os eleitores arrependidos há muita indignação com a posição de Bolsonaro sobre a pandemia. E este é precisamente um dos principais motivos pelos quais se recusam a votar nele novamente nas próximas eleições.

Fonte: El Clarín