2º turno no Recife. As razões para o apoio à Frente Popular

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João Campos faz caminhada tradicional - Foto: Rodolfo Loepert

Na disputa que se desenhou no segundo turno no Recife, estamos entre companheiros de um mesmo campo político. Um campo civilizatório e progressista. Portanto, devemos nos tratar bem nesta hora, pois, como exporei a seguir, deveríamos estar unidos contra um mal maior que atinge a todos nós. A direita e a extrema direita querem que nos matemos uns aos outros e que ao final aconteça uma vitória de Pirro. Querem que nós mesmos lhes entreguemos argumentos para nos desbancarem logo mais.

João Campos e Marília Arraes não são tão diferentes como suas torcidas organizadas tentam passar. Têm até muita semelhança, inclusive sanguínea e na aparência física. PSB e PT também não são tão diferentes como as respectivas torcidas também argumentam. Esses dois partidos estiveram e estão nos governos municipais há 20 anos e dividem o atual governo estadual. O Brasil, Pernambuco e Recife já experimentaram suas gestões, os seus acertos e desacertos, seus limites e potencialidades. São similares. Portanto, não cabe, num debate político sério, um ficar pixando o outro de direita, e muito menos fazendo desqualificações pessoais. Marília é um quadro importante de um partido do campo progressista. João é um importante quadro de um partido do campo progressista.

Esta eleição ocorre numa conjuntura estrutural bastante adversa. As inovações tecnológicas digitais trouxeram para o centro da política um senso comum que está bem abaixo dos níveis civilizatórios alcançados pelas sociedades modernas. A consciência social que se refletia na superestrutura política e jurídica da sociedade, até então, representava um extrato das camadas mais ilustradas da sociedade, aqueles segmentos que faziam um esforço para participar da política e suas discussões mais cotidianas de forma mais proativa. Com o advento das inovações e seus aplicativos de comunicação, a participação ativa deste senso comum deu um salto, para o bem e para o mal. Sem isso, Trump não teria sido eleito, nem Boris Johnson, nem Bolsonaro e nem vários outros que se conectaram diretamente com este senso comum que aceita ou tolera milícias, acha a democracia muito complexa e desnecessária, acha que a família deve ser afirmada com a mulher submissa e dentro de casa cuidando dos filhos, acha que os homossexuais devem voltar pro armário e sentem saudade de poder fazer piada racista sem serem repreendidos, ao mesmo tempo em que desprezam a ciência e a cultura. Em suma, Bolsonaro aqui é um dos sintomas desta grave situação política, que se situa no quadrante da extrema direita. Este é o pano de fundo desta conjuntura.

Trata-se de erro político achar que o Brasil saiu do primeiro turno derrotando este senso comum nas urnas. Os números falam outra coisa: as esquerdas perderam 33% das suas prefeituras. PSDB e MDB, partidos que capitulam à centro-direita, também diminuíram de tamanho. Quem deu um salto foi o DEM, que tudo indica está dando melhor organicidade a esta base social que dá a Bolsonaro resilientes 30% de apoio nas pesquisas de opinião. No Recife, os números mostram que todos os que reivindicaram de alguma forma o governo Bolsonaro reuniram 42,09% dos votos. Os bolsonaristas caricatos perderam espaço, mas a base social do “bolsonarismo”, tudo indica, migrou pra direita mais orgânica.

Este quadro descrito aqui não deve ofuscar importantes vitórias do campo progressista: Edmilson Rodrigues do PSOL está no segundo turno em Belém; Manuela Dávila do PCdoB em Porto Alegre; Boulos do PSOL no segundo turno em São Paulo é um fato por si só extraordinário. E a chegada de duas candidaturas do campo progressista no Recife faz parte dessas vitórias.

De onde vejo, o PCdoB, que reafirma seu compromisso com a Frente Popular encabeçada por João Campos neste segundo turno, vem compreendendo bem esta realidade e esta dinâmica e tem trabalhado fortemente pela máxima unidade política de um campo civilizatório. Até hoje, desde o advento do governo Bolsonaro, todas as derrotas que conseguimos impor à insanidade do Presidente e seu governo foram a partir de frentes amplas para isolá-lo. Foi assim com as questões da pandemia, com o auxílio emergencial e a Lei Aldir Blanc, na defesa do SUS e do Fundeb. Sem frentes amplas que isolem este fenômeno de extrema direita, podemos ter que conviver com ele por ainda mais tempo, e a cada dia que passa a tragédia aumenta, com a corrosão de direitos, da democracia, da ciência, com as queimadas, com o extermínio indígena e com a construção de uma cultura de extrema direita com viés fascista e miliciano.

A participação do PCdoB na Frente Popular encabeçada por João Campos e Isabella de Roldão já no primeiro turno atendia a esta análise da conjuntura. Era preciso construir uma frente robusta para desidratar o campo da direita e da extrema direita. O PSB, mesmo tendo cometido os gravíssimos erros de apoiar Aécio Neves no segundo turno de 2014, e de apoiar o impeachment / golpe sobre Dilma em 2016, se recompôs à esquerda e com o próprio PT. Na disputa de 2018 o palanque de Haddad, do PT, foi o mesmo de Paulo Câmara. Durante o governo Bolsonaro, nos enfrentamentos principais, o governador Paulo Câmara esteve nas trincheiras mais duras, ajudando a articular um consórcio para se opor às investidas bolsonaristas, por exemplo. O PSB, em todo o período deste governo, compôs na Câmara Federal um bloco de oposição mais à esquerda, unido com o PT, PCdoB, PSOL, PDT e Rede. E o deputado João Campos sempre esteve do lado certo nesses enfrentamentos. É sobre esta base que se justificou a integração do PCdoB à frente popular.

Agora no segundo turno, não se pode isolar a disputa de todos os elementos da conjuntura. E há um fator que pesa: onde se localizam na disputa as forças que organizam o que se convencionou chamar de bolsonarismo aqui no Estado, e que estão sob a orientação e orquestração do líder do governo Bolsonaro no Senado, o senador pernambucano Fernando Bezerra Coelho. Essas forças estão migrando para a candidatura de Marília e estão fazendo isso porque querem desorganizar e assim desconstruir a frente popular que impede que os protagonistas da direita no Estado montem uma coalizão hegemonizada por eles. É verdade que há setores instalados na frente popular que dialogam com a pauta obscurantista, mas estes não tem projeto protagônico e por estarem numa frente com viés de esquerda, perderam espaços para os obscurantistas mais radicais, que estavam em outras candidaturas, vide os resultados eleitorais. Esses mesmos segmentos da direita orgânica e articulada com o bolsonarismo obtiveram importantes vitórias em cidades importantes do Estado: Jaboatão, Olinda, Caruaru e Petrolina.

Então, paradoxalmente, uma vitória do campo progressista se tornou uma situação de bastante desconforto político. Como membro e dirigente do PCdoB, vou trabalhar para que a eleição transcorra dentro do aceitável entre forças aliadas que, momentaneamente, estão em disputa. E estou convicto que este é o espírito de nossos dirigentes e da nossa militância. Apoiar João Campos não será em nenhum momento, de nossa parte, desconstruir o PT e tão pouco a biografia e a imagem de Marília. E tenho certeza que os apoiadores de Marília, que compreendem a importância de após o dia 29/11 nós estarmos unidos contra o mal maior, farão o mesmo. Paz entre nós, guerra aos inimigos do povo e da democracia. Que a disputa seja leal.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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