A Cinemateca entre o caviar e a tempestade

A memória da cultura e do audiovisual brasileiro está em xeque.

Entre a tempestade e o caviar, parece que foi ontem que eu estive na inauguração da fachada da Cinemateca, em 1997. De lá para cá, muita coisa aconteceu. E, hoje, a Cinemateca Brasileira passa por grandes dificuldades.

Revirando meus livros sobre cinema, encontrei a Revista “Cadernos da Cinemateca 3”, de 1964. O editorial, escrito por Paulo Emilio Salles Gomes e Francisco Salles, diz: “Enquanto durou o preparo do caderno agravou-se a situação da Cinemateca. A crise não é fato novo na vida da instituição. É tema sempre presente e aflora em algumas das páginas desta publicação. Até agora, entretanto, as constantes dificuldades da Cinemateca para existir têm sido diagnosticadas como crise de nascimento. A que nos ameaça hoje, é de morte”.

Como estamos em 2020, sabemos que ela resistiu até os dias atuais. Foi muita gente comprometida para consolidar a Cinemateca como uma das instituições culturais mais importante do país.

Porém, nos últimos meses, o completo descaso do governo de Bolsonaro agravou a já delicada situação da Cinemateca. Já sabemos que o presidente não dá nenhuma importância para a Cultura. Qualquer ação dele para o setor é história da Carochinha.

O fato é que a Cinemateca está sem gestor e sem recursos há 4 meses. Sem receber salários, são os funcionários que ligam os equipamentos climatizados para proteger centenas de arquivos altamente inflamáveis. Sem eles, um incêndio poderá ocorrer a qualquer momento, como já aconteceu em 2016, em um de seus galpões. O desastre pode ser devastador como aconteceu no Museu Nacional no Rio de Janeiro.

A memória da cultura e do audiovisual brasileiro está em xeque.

Aliás, quem já passou pela Cinemateca guarda sempre uma boa lembrança daquele lugar, que já foi um matadouro até o início do século passado. Sua bela arquitetura levou o lugar ser tombado pelo Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural.

Eu mesmo me recordo daquele 20 de janeiro de 1997, dia da inauguração da fachada da Cinemateca. Eu e uma amiga atravessamos a cidade em seu fusquinha amarelo para chegar ao evento. Estava uma chuva torrencial. A inauguração aconteceu no interior do prédio ainda em construção.

É aí, que você descobre que nunca foi fácil para a Cinemateca.

Na inauguração seria exibido o filme Tristes Trópicos, de Arthur Omar. Ao fundo do salão, ainda inacabado, estava montado um telão para a projeção, mas não tinha muitas cadeiras, o negócio era assistir em pé. Havia uma mesa de quitutes, com algumas iguarias que eu jamais tinha comido na vida, além de frisantes e outras bebidas.

Um ato em homenagem à Cinemateca foi montado. Lembro que a escritora Lygia Fagundes Telles, viúva do incansável Paulo Emílio, fazia um discurso emocionado, com alguém lhe segurando um guarda chuva, pois o telhado ainda não estava finalizado e haviam brechas. Ou seja, chovia tanto fora como dentro.

Muita gente do cinema e da política estava reunida ali, naquele dia chuvoso. Eu não era nem uma coisa nem outra, muito menos minha amiga. Estava lá porque fui agraciado com dois convites, já que eu tinha a carteirinha dos Amigos da Cinemateca, que me dava o direito a ver filmes na sala da rua Fradique Coutinho (administrada pelos Amigos da Cinemateca, acho que era esse o nome).

Bem, ouvimos os discursos, experimentei alguns patês e depois umas mini bolinhas escuras.
— Hum, o que isso? Bom, hein?, disse para ela.
Ela com cara de estranhamento me respondeu:
– Caviar.

Naquele tempo não tinha bafômetro, então tomamos uma, duas, três ou mais taças de frisante. Eu me sentia uma autoridade, como um Ministro… Aliás, o ministro da Cultura da época, Francisco Weffort, estava lá, dando o seu apoio à Cinemateca. Também de guarda chuva.

De repente, a chuva apertou. Parecia que o telão ia levantar voo. Todas as coisas foram colocadas num canto, foi um corre corre e preferimos sair sem ver o filme restaurado de Omar.

São lembranças, são memórias.

E as memórias são importantes, elas nos acompanham a vida toda. E a Cinemateca é a memória cultural do nosso povo. Ela acompanha a história do Brasil. Mas, além de memória, ela é vida, porque seu acervo é matéria-prima para a produção de novos filmes, para pesquisas de obras e autores, nela são realizadas mostras e outros eventos. A Cinemateca pulsa.

Por isso, muitos se mobilizam em sua defesa. Seja a classe artística, a sociedade civil, parlamentares comprometidos com a cultura e a memória do país, todos estão empenhados em não deixar que o governo destrua este patrimônio.

Como dizia o final do editorial do “Cadernos da Cinemateca 3”:
“Resta-nos continuar no esforço de persuasão, apelo e alerta junto aos governos da Cidade, do Estado e da Nação, e junto às Universidades Brasileiras mais poderosas e vivas. Ainda não é irremediavelmente tarde para salvar a Fundação Cinemateca Brasileira”.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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