Azul da bandeira, chorai por nós!

Tenho chorado esses dias, um choro sem soluços nem ranger de dentes, silencioso, quase tranquilo, que brota dos olhos com a persistência de um olho d’água. Pergunto-me se não será esse o estado natural de qualquer pessoa em meio à pandemia do Covid-19.

O mar que acolhe muitos rios em São Luis

O frenesi para estar informada é um abalo sísmico que me acomete de tempos em tempos, até ser tomada pela exaustão e me apegar à fé. Não falo de Deus, dos Orixás ou Jesus Cristo; eu sou muito miúda nesse universo para que precisem da minha crença.

Falo da fé nas instituições. Tenho me apegado a elas, confiado que os bravos servidores públicos que as constituem, à frente do SUS e dos demais serviços essenciais, vão nos salvar. A fé no ser humano, palpável e falível, diante de um vírus invisível e letal, é o que me resta.

Fazia muito tempo que eu não chorava assim, então relembro o gosto salgado, o ardido preenchendo os olhos e a moleza que acalma, pouco a pouco, o peito. Um bálsamo de solução tão simples: água e sal. Um mar portátil dentro da gente.

O mar da minha cidade é turvo, tem sedimentos trazidos dos rios que abundantemente irrigam o estado, tem algas pardas, tem também a poluição do homem. Ainda assim, a gente teima em idealizar um mar de Ilhas Gregas, azul turquesa cintilante.

Então lembro do azul da bandeira, uma referência às águas do meu País, recentemente relido naquela imagem patética, o olho azul que chora. A bandeira que ganhou as ruas desde o último impeachment. Azul, verde e amarela, pareada às camisas da CBF.

Ironia: o olho nacionalista não chora pela natureza ou pelos povos tradicionais que a guardam.

O olho eurocêntrico, que reivindica a posse da Terra Brasilis, chora por coisas outras como um medo infantilizado de não mais encontrar yogurt no supermercado ou poder ir à Disney; chora por abstrações como a alta do dólar; chora pelo desejo de reificar, na relação mesquinha com os empregados domésticos, um fausto escravocrata de tempos idos.

Esse olho fantasmagórico continua a assombrar as ruas de todo o Brasil. Em um movimento bem mais tímido, é verdade, no corpo dos poucos templários que ainda ganham o asfalto. Mas quanto despudor na boca daqueles que esbravejam. Queremos voltar ao trabalho, eles dizem. É só uma gripezinha, reiteram.

Para eles, o número de mortos que avulta todos os dias nos boletins médicos e no noticiário é uma abstração descartável. A lição da peste é mostrar como todos nós somos feitos da mesma perecível carne, mas alguns bifes andam de liteira e têm empregados para servir-lhes na boca algumas uvas. E assim, a volta ao trabalho que tanto reivindicam, será apenas para aqueles que trabalham.

Somos todos mortais, mais alguns morrem mais do que outros, e as formas de morrer são muitas. Agora, mais do que nunca, a gente pode morrer por estar exposto ao atendimento ao público oito horas dia, por se alimentar mal e às pressas no intervalo do almoço, por voltar para casa de transporte público, por dormir num único cômodo com a família.

Quem se arvora de exigir, em plena pandemia, a volta da exploração do suor alheio não têm suor nem lágrimas. Ficaram estéreis pela ganância. Fingem que choram por todos nós, na imagem idealizada do olho azul, o azul da bandeira que usurparam.

Enquanto escondem suas gordas cifras na carteira, argumentam de forma vil que a escassez vai nos achar. Temem apenas pelo próprio lucro, triste e mortífera abstração.

Não é deles o azul do mar, o amarelo das riquezas minerais nem o verde da Amazônia. O Brasil é, e sempre será, daqueles que choram, dos que sabem chorar.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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