Bolsonaro em um mundo sem Trump

No Brasil, com certeza esta queda de Trump terá consequências. De certa forma, a sua eleição em 2016 contribuiu para a eleição de Bolsonaro em 2018.

Diante do imbróglio da eleição norte-americana, o que acontecerá até o dia 20 de janeiro, dia da posse de Baiden, é imprevisível.  Entretanto, dificilmente abalará o rígido regime presidencialista e o federalismo. Trump, a seu estilo escandaloso, muito provavelmente exercerá o seu direito ao jus esperneandi, vociferando que houve fraude, que não sairá da presidência ou que levará a eleição à Suprema Corte.

Sobre a possibilidade de judicialização, os argumentos da defesa de Trump são frágeis e dificilmente prosperarão, além de ser improvável que o poder judiciário estadunidense se preste a esse tipo de jogo. Não há nada que um norte-americano preserve mais do que o sistema federalista constituído na formação de seu estado nacional. A Suprema Corte dificilmente intervirá nas decisões dos executivos e do judiciário de cada estado.

Sobre não reconhecer o resultado e não abandonar a presidência, Trump pode ter o apoio de milícias, mas não o tem do exército e da guarda nacional e muito menos do Deep State. Estes últimos, podem ter até alguma simpatia por seu discurso direitista, mas não aceitarão qualquer situação que ofereça o mínimo risco de que o regime presidencialista construído há mais de dois séculos seja objeto de uma espécie de golpe de estado. Como afirmou o próprio Biden, nestas circunstâncias, o “Governo dos Estados Unidos é perfeitamente capaz de escoltar invasores para fora da Casa Branca”. Trump será escorraçado do poder se tentar levar à frente tal bravata.

A hipótese das milícias se levantarem para defendê-lo no poder, se existia tal intenção, ao que tudo indica foi pelo ralo. Poucas e esvaziadas foram as manifestações aderindo aos apelos de Trump e as iniciativas de reação armada foram de pronto bloqueadas pelo aparato de segurança. Trump, fora do poder, enfrentará um bombardeio de ações judiciais, que vão desde sonegação fiscal a outras questões criminosas, restando-lhe somente duas opções. A primeira, é afirmar que as ações judiciais constituem perseguição política e tentar mobilizar a base ideológica para defendê-lo. A segunda, é fugir do país para não ir para a cadeia. Aposto que o sistema será implacável, de forma que ou ele foge ou vai para o xilindró. O Partido Republicano e as hordas fanáticas o abandonarão.

Isto não significa que o movimento de extrema direita que levou Trump ao poder se extinga. A esquerda sofreu um duro golpe com a queda do bloco soviético e ainda procura se recompor. A socialdemocracia aderiu ao neoliberalismo e assiste ao seu total fracasso. O neoliberalismo se mostrou um desastre, que irá se aprofundar ainda mais com a crise pandêmica. Este contexto é um terreno fértil para a evolução de pensamentos de extrema direita, mas, definitivamente, Trump estará fora do páreo na liderança nos Estados Unidos e no cenário mundial. Trump está liquidado. Seu futuro é o exílio ou as grades.

O pano de fundo da radicalização desses segmentos sociais permanece e tende a se agravar. A crise pandêmica se arrasta e se encontra totalmente fora de controle. Com a pandemia, as crises social e econômica se aprofundam com índices de desemprego alarmantes. Neste cenário, ainda que derrotados eleitoralmente, esses grupos tendem a se radicalizar ainda mais.

Se alguma nova liderança surgirá e será capaz de unificar novamente estes movimentos, só o tempo dirá. O certo é que, de imediato, tanto tais movimentos quanto o Partido Republicano se fragmentarão e Trump será esquecido, ou talvez apenas lembrado como uma figura grotesca que um dia chegou à presidência dos Estados Unidos. Caso se livre dos processos judiciais, talvez volte a ser apresentador de reality shows de quinta categoria. Não só os Estados Unidos, mas também o mundo se livrou de uma de suas figuras mais asquerosas.

No Brasil, com certeza esta queda de Trump terá consequências. De certa forma, a sua eleição em 2016 contribuiu para a eleição de Bolsonaro em 2018. Nestes dois anos, promoveu um alinhamento automático e incondicional não aos Estados Unidos, mas ao governo Trump. Seguiu cegamente todos os passos e repetiu todas as asneiras pronunciadas por seu ídolo norte-americano. Com grande dificuldade, os ocupantes do Palácio do Planalto conseguiram mantê-lo calado para que não manifestasse apoio à candidatura de Trump. O resultado da eleição estadunidense coloca Bolsonaro em uma situação de isolamento internacional ainda maior.

Esse desfecho terá consequências também sobre a base ideológica de Bolsonaro. Se os fanáticos terraplanistas já estavam insatisfeitos com a guinada do Presidente se aliando com o Centrão, um reposicionamento na política internacional poderá representar um racha profundo nessa base. O fato é que com o novo cenário, a permanência de Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores se torna insustentável. Até o momento, não houve nenhum pronunciamento do Capitão, que deve estar se coçando para se alinhar ao discurso do derrotado Trump, reforçando a tese de que a eleição foi fraudada. O resultado eleitoral nos Estados Unidos foi, com certeza, um duro golpe no bolsonarismo e será absorvido, se o for, com grande dificuldade.

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