Cegueira branca

Estamos cegos porque o mundo civilizado é esclarecido demais.

Carolina de Jesus

Começo a coluna de hoje pedindo desculpas. Eu havia esquecido do prazo, em virtude do teletrabalho, da insônia e do compromisso diário com as notícias, que me deixam obnubilada de palavras. Você também não se sente perdido, caro leitor ou leitora?

Então, escrevo em cima da hora, diligente para completar uma lauda e meia, preguiçosa quanto ao tema. A sensação é de que mesmo a escolha do assunto me foi usurpada, como se eu estivesse presa a uma ficção com um vocabulário próprio que sequer domino. Nos enfiaram um dicionário goela abaixo, e ai de quem ainda não formou sua opinião responsável sobre o uso da cloroquina e outros estrangeirismos.

(No Novo Dicionário da Língua Brasileira, cloroquina é uma medicação que ninguém sabe ao certo se mais atrapalha do que ajuda quem está prestes a morrer de falta de ar por conta da gripe. Há quem defenda que atrapalha. O governo federal insiste em adotar protocolos de uso. Os Estados Unidos, mesmo país que nos roubou respiradores mecânicos, está doando caixas do remédio. Não parece bom.)

Veja bem, nesse momento eu quase empatizo com quem acredita na invenção da gripezinha, terra plana e outros negacionismos. Negar a realidade é uma anarquia enviesada. A gripe é real, o desemprego é real, a morte é real, mas a forma como cada história vai ser contada é algo em disputa, ou aparente disputa.

Quantas hashtags você já hasteou hoje para dizer que vidas negras importam? É curioso que essas vidas só ganhem o protagonismo do noticiário quando já são não-vidas e, nesse sentido, a frase de efeito que nos apressamos para abraçar não deixa de ser uma negação; a nossa forma de negar que pactuamos com uma civilidade em que é protocolo policial o conceito de “bala perdida”. Bala perdida é uma cloroquina antiga, e tal como ela, há muitas.

“Conflito de terra” é outra cloroquina. Quantas lideranças indígenas cujo nome você desconhecia, até se tornarem bandeiras a serem hasteada nas redes sociais, morreram ou morrem, exatamente agora, em conflitos de terra? Os assassinos são sempre madeireiros clandestinos. São tantos, e tão anônimos, que já devem ter montado um sindicato.

Quem sabe? Não sabemos. A narrativa dos jornais é muito repetitiva, e aqui me repito não só pela provocação, mas por incapacidade de contar outra história que não essa. Eu também me encontro a depender do jornalismo para saber do mundo lá fora. Escrever que não sei sobre o que escrever não é só um gracejo criativo: é um ponto de partida.

Há uma expressão saborosa na boca de intelectuais negros que você, branco interessado em ser antirracista, assim como quem consome uma identidade, já deve ter ouvido: “Vamos enegrecer essa questão?”. Tomo-a emprestada agora para dizer: chega de esclarecimentos.

Esclarecimento é a desculpa oficial das instituições, que seguem funcionando de mal a pior, finalmente, e graças ao bom deus do cidadão de bem. Veja só, caro leitor ou leitora, você que acessou esse portal em busca de esclarecer questões, e se encontra tão perdido quanto a colunista que vos escreve: não é irônico que tanto esclarecimento nos cause esta cegueira?

Steve Bannon, ideólogo de extrema-direita e ex-assessor estratégico de Trump, disse ainda em 2019 que Jair Bolsonaro é um dos melhores representantes do seu autodeclarado movimento nacional-populista. Bannon admite ter orientado Bolsonaro durante as eleições que o elegeram. Supremacista, sua ambição é uma só: embranquecer o mundo. Alvejá-lo. Que é o mesmo que dizer: lavar em sangue.

Na obra Ensaio Sobre a Cegueira, do português José Saramago, estar cego é como enxergar tudo branco. É sintomático que um nativo de país colonizador nos traga, direto do passado, a metáfora perfeita para esses dias. Estamos cegos porque o mundo civilizado é esclarecido demais.

Também é sintomático que nossos maiores ficcionistas sejam negros, mas tenham sido embranquecidos pelo cânone. Falo de Machado de Assis, com a sua novela “O Alienista”, história de um psiquiatra obcecado por consertar o mundo, aprisionando em um manicômio todos que considera anormais. Termina internando a si mesmo, em um fim trágico que eu particularmente desejo para o Bannon, e qualquer outro entusiasta de suas ideologias normalizantes.

Também me refiro a Lima Barreto, na póstuma obra “Os Bruzundangas”, uma sátira que é a melhor descrição já feita de Brasil, ou como diz Barreto: a República dos Estados Unidos da Bruzundanga. A Bruzundanga são os doutos e os doutores, os políticos e as polícias, os artistas festejados. Se escrevesse hoje, talvez os habitantes do país fictício de Lima batessem panelas.

Termino abruptamente esse texto, tão confusa quanto comecei, mas com uma branda certeza, tão real quanto a brisa saída da janela, a tela em que assisto o mundo lá fora nesses dias de isolamento: é preciso enegrecer as questões todas. Enegrecer o olhar é ponto de partida para enxergar o fim do túnel.

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