Magrão, uma revelação divina

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Com a desgraça de um presidente fascista, expressão maior do coronavírus no Brasil, e numa sexta-feira santa onde o povo é que está crucificado, sei que envergonha falar sobre o que dá mais satisfação à gente. Vocês perdoem a alienação momentânea, mas a coluna de hoje vai para o goleiro Magrão, que ontem completou 43 anos de idade. Ex-goleiro do Sport, ele para todos os rubro-negros era “ Magrão, o goleiro número 1 do mundo”. Entendam por quê.

Houve uma noite, em 28 de agosto de 2013, um pouco antes da meia-noite, em que Magrão defendeu três pênaltis em uma mesma partida. Naquela quase madrugada, ele que antes mais parecia um arqueiro alquebrado, velho, magro, sem esperança, depois de levar dois gols indefensáveis, vá lá, “gol indefensável”, mas depois desse clichê, naquela noite Magrão classificou o Sport para a Copa Sul-Americana com três defesas magistrais, miraculosas, como gritaram os locutores do rádio mais sóbrios. “Magrão, Magrão, Magrão!!!!!!”. Os locutores gritavam como se diante de uma revelação divina. E, com sinceridade, os homens do rádio quase não exageravam. Eu vi, com olhos e respiração suspensa, eu vi.

Antes do pênalti ser cobrado, Magrão ficou imóvel, como se fosse um homem sem vida, sem movimento. Mais propriamente, Magrão lembrava um animal, um sapo magro e comprido, que parece nada ver, mas de repente pula. E magro que é, com mais leveza que os sapos da lagoa, Magrão pulou de lado. Enquanto os outros goleiros fazem palhaçada, abrem, fecham os braços, Magrão nem se movia. Então o juiz apitou.

O goleiro apenas se abaixou um pouco, como se estivesse indeciso entre ficar de cócoras ou avançar para a fera, o atacante, que correu para disparar um tiro. Mas o atacante não sabia, Magrão se abaixou para ver melhor, para mirar o projétil, ou para se resguardar no voo para o chão ou para o alto. Ele se baixou também porque todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado”, para lembrar a Bíblia nesta sexta-feira santa. E para sua melhor glória, Magrão viu numa fração rápida de segundo o destino da bola e, sabendo que ela era mais rápida que o impulso do corpo humano, partiu antes, para o lado que ela veio.

Mas o reflexo não foi só dirigido para o lado do salto, não. Mais rápido ainda foi o que ele fez com um braço, esquerdo ou direito, conforme a urgência. Era um bote de gato, de felino na mata. “Pra onde tu vais, desgraça? Aqui é Magrão”. Assim foi com o primeiro pênalti, batido pelo uruguaio Olivera. Depois no segundo com a bomba arremessada por Tiago Real, e por último com o chute cruzado, quase impossível de ser defendido, de Rogério.

Dos três pênaltis, o que ele fez diante do chute de Rogério foi definitivo. Olhem, foi tão rápido que a mente não acompanhou, a gente só consegue ver em câmera lenta ou pela memória, que para o tempo, todos os tempos. Na terceira defesa, a resposta de Magrão foi tão rápida que pareceu truque de mágico de circo. Primeiro, a gente viu o tiro de Rogério. Depois, o goleiro esticado que agarrou a bala, quero dizer a bola, porque a bala bola não entrou, quando deveria estar no fundo da rede. Se a partida inteira daquela noite se resumisse a essas três defesas, o espetáculo do futebol já estaria entre os grandes espetáculos do mundo.

Outra alegria foi ver o goleiro sorrindo, que em seu natural é sério. Depois da terceira defesa, abriu um sorriso largo, correu feito menino, logo ele que se aproximava dos 37 anos de idade, uma idade fatal para um atleta do gol. A sua posição exige, talvez mais que outras, elasticidade, explosão de músculos e, acima de tudo, reflexos de um felino das selvas. Magrão, nas suas mágicas defesas, era um animal triplo: onça pelo salto súbito, sapo pelo que finge estar dormindo, se fazendo de morto, e homem maduro, inteligente, pela humildade com que escuta as informações, os conselhos de outros profissionais do futebol.

Depois do jogo, no momento da glória, ele agradeceu as contribuições de Pedro Gama, que lhe passara a forma de chutar dos adversários:

“O Pedro passou informações dos cobradores do Náutico que foram fundamentais para que eu pudesse pegar os pênaltis. Pedi ao Heber (Roberto Lopes, árbitro) para que começasse defendendo primeiro, porque se pegasse o pênalti colocaria uma pressão logo de cara no Náutico. Por isso a primeira defesa foi a mais importante, pois deu uma confiança maior ao nosso time. A segunda defesa foi difícil, batido no alto, e o terceiro eu já sabia que o Rogério chutaria cruzado“.

Não sei se no esporte do mundo existe um goleiro que defenda 3 pênaltis em quatro chutes seguidos, numa mesma série. Não sei. Mas poucos e raros possuem a humildade na glória como esse atleta Magrão. Para ele, que não se declarou “o cara” naquela noite, quando poderia falar “peguei os pênaltis porque sou bom”, vai a coluna de hoje. Feliz aniversário. Magrão.

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