Mobilização, já, para deter o terraplanismo sanitário bolsonarista

Pouco mais de um mês desde o início da vacinação, apenas 2,76% dos brasileiros receberam a primeira dose; e somente algo em torno de 11% do orçamento destinado aos imunizantes foi efetivamente executado. Governo não tem limites em sua insanidade, insensatez e desprezo pela vida dos brasileiros

Manifestação pedindo o impeachment do presidente Bolsonaro por genocídio durante a pandemia da Covid-19 (Foto: Divulgação)

A pandemia impôs a suspensão, prudentemente, da festa nacional mais popular do Brasil – o Carnaval, mas o feriado nos induz, necessariamente, a uma reflexão sobre os desdobramentos sobre a mais grave crise sanitária do último século.

Especialistas em epidemiologia consideram que o país ingressa no período mais crítico e decisivo da epidemia por dois fatores que se encontram em curso, cuja dinâmica é dialética e implicará no agravamento do contágio e manutenção da curva ascendente de óbitos ou na sua contenção e consequente declínio da onda que continua tirando a vida de mais de mil brasileiros por dia.

Se no início da pandemia, devido à inação do governo nas políticas de testagem em massa, rastreamento e combate inteligente do vírus, o isolamento social representou a principal barreira sanitária, hoje, apenas a vacina aplicada rapidamente no tempo e em larga escala conseguirá cumprir esse papel estratégico no enfrentamento da Covid-19.

Informações indicam que a chamada “nova cepa” que explodiu em Manaus e, antes, na Europa, já foi identificado em algumas regiões do país.

Trata-se de um inimigo, como todos sabem, invisível, que chega das mais variadas formas, sem que as autoridades sanitárias tenham condições de detê-lo, mas apenas  identificá-lo quando já não é mais possível mensurar a sua disseminação.

Nesse cenário, o remédio mais eficiente é a multiplicação das ações de vacinação, a despeito das dificuldades oferecidas pelo governo e seu Ministério da Saúde.

A experiência demonstrou, nesse quase um ano de pandemia, que não teremos o governo Bolsonaro e ele próprio como aliados nessa guerra, a não ser quando muito pressionados socialmente, ou obrigados a cumprir a lei e as determinações judiciais. 

Estamos diante de um presidente-genocida que contaminou todo governo com usa postura, gerando um ambiente de absoluta falta de planejamento e organização nessa que constitui a batalha central do país: defender a vida de seus filhos, pois sem ela não há economia e não há nação.

O quase nada que o atabalhoado Bolsonaro e seu apalermado ministro da Saúde fizeram durante a crise só ocorreu depois de muita pressão, interna e externa.

Afinal, a convicção predominante entre eles é de que o vírus não é responsabilidade nossa, foi introduzido de fora para dentro e não se trata, rigorosamente, de um problema nacional.

Portanto, esqueçamos a pandemia, deixemos que ela, por si só, crie seus mecanismos de controle – a trágica imunidade de rebanho, enquanto isso vamos trabalhar e não permitir que a economia seja paralisada pela irresponsabilidade de governadores e prefeitos.

O que Bolsonaro e seus sequazes não esperavam é que a “gripezinha” de março de 2020 atingisse, menos de um ano depois, quase 10 milhões de brasileiros e tragasse a vida de quase 250 mil, número superior ao que muitos países europeus perderam durante a Segunda Grande Guerra.

Execução orçamentária pífia

Os indicadores de execução das medidas de contenção e prevenção da pandemia mostram que não houve mudança qualitativa alguma na conduta governamental.

Senão, vejamos: Bolsonaro só conseguiu gastar, até agora, 9% do dinheiro liberado em caráter de urgência e emergência para a compra e o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19, uma mostra do atraso na tentativa de vacinar em massa a população brasileira.

O cálculo não inclui os pagamentos feitos nesta semana pelas doses de Coronavac, do Instituto Butantan, porque o Ministério da Saúde não informou de onde saiu o dinheiro e ainda não há registros do gasto nos sistemas de execução orçamentária consultados.

Três Medidas Provisórias (MPs) assinadas por Bolsonaro em agosto, setembro e dezembro abriram créditos extraordinários que somam R$ 24,5 bilhões. O país chegou à metade de fevereiro com apenas R$ 2,2 bilhões efetivamente gastos, segundo dados de execução orçamentária da Câmara dos Deputados (atualizados no último dia 10) e do Ministério da Saúde.

Na terça (9) e na quarta (10), o Butantan, vinculado ao governo de São Paulo, recebeu R$  505 milhões do ministério pelo fornecimento de 8,7 milhões de doses da Coronavac. Se for levado em conta esse valor, e considerando que ele tenha saído do dinheiro emergencial destravado para a compra de vacinas, o total gasto até agora chega a R$ 2,7 bilhões, ou 11% dos créditos criados.

Quando e como o governo executará os outros 89% dessa verba orçamentária é a pergunta mais instigante do momento. Dos que estão travando a batalha em campo e tentando salvar milhares de vidas todos os dias e da população brasileira que não suporta mais tamanha irresponsabilidade e incompetência, explicadas tão-somente pelo caráter genocida da gestão empreendida por Bolsonaro e seu intendente ministro da Saúde.

Terraplanismo sanitário

O passo lento da vacinação tem a ver também com o terraplanismo sanitário que dominou as ações do governo no combate à pandemia com a produção, compra e prescrição de medicamentos que, cientificamente, não tem qualquer eficácia na contenção do coronavírus, podendo, em muitas situações, provocar a morte do usuário ou deixar sequelas para o resto da vida.

A cloroquina, com Bolsonaro e Pazuello, tornou-se o carro-chefe do combate à Covid-19!

Não por outro motivo, o Tribunal de Contas da União) cobrou do Ministério da Saúde informações sobre a distribuição de cloroquina produzida para controle da malária que acabou remetida a pessoas com Covid-19 e deu dez dias para o órgão informar nomes, CPFs e cargos de responsáveis por ampliar a produção e por fazer a mudança no objetivo do programa de malária, cobrança que se estende também à  Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), desviada em suas finalidades pelo delírio bolsonarista disposto a macular uma instituição centenária de vanguarda em boas e inovadoras práticas imunizantes, reconhecida mundialmente.

Resistência às vacinas continua

Mesmo diante da gravidade desse cenário, a Anvisa mantém sua postura de resistência em acelerar a liberação dos novos imunizantes – a mesma que dificultou enquanto pôde a liberação da vacina do Butantan – a CoronaVac.

O presidente da agência reguladora chegou a pedir audiência a Bolsonaro para solicitar o veto a dispositivo da MP recém-aprovada pelo Congresso Nacional que torna mais célere a autorização emergencial para uso das vacinas, diante do quadro de absoluta urgência e anormalidade em que o país se encontra.

O alvo, agora, é a autorização para uso emergencial, imunizante russo que já está sendo aplicado com sucesso em mais de duas centenas de países e que será produzido no Brasil pela União Química, uma empresa genuinamente nacional. 

Até o momento, o Brasil dispõe de apenas duas vacinas: a CoronaVac, do Instituto Butantan em parceria com o Laboratório Sinovac, chinês; e a Astrazeneca, da Universidade de Oxford, do Reino Unido, ambas aprovadas em 17 de janeiro.

Apenas a título de comparação, o México, com uma população bem inferior à do Brasil, cerca de 130 milhões, já aprovou cinco vacinas que já estão sendo aplicadas na imunização naquele país.

Os demais imunizantes – Sputnik (Rússia)  Pfeizer (EUA e Alemanha), Ad26.COV2.S (EUA) e Covaxin (Índia)  – ainda estão em estudo sem previsão de serem liberados para uso em massa.

Esse é retrato da vacina, enquanto, na outra ponta, a propagação do vírus se intensifica, gerando novas e desafiadoras variações.

Resultado: desde que a primeira dose da CoronaVac foi aplicada na enfermeira Mônica Calazans, em São Paulo, no dia 17 de janeiro, exatos 5.853.753 doses foram aplicadas em todo pais até o último sábado (20), o que representa apenas 2,76%% da população brasileira, sendo que somente 1.172.208 receberam a segunda dose. Portanto, apenas 0,55% dos brasileiros encontram-se, hoje, efetivamente protegidos do vírus.

Mobilização, já, para deter o genocídio

Os números falam por sí só e exigem que o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal se mobilizem em torno de uma ação conjugada para exigir do governo Bolsonaro o cumprimento de suas responsabilidades como Poder Executivo.

É hora, aliás, já passou da hora dessa concertação mais decidida e integrada entre os poderes legislativo e judiciário, que já conta com amplo e decidido apoio social. Basta ver as pesquisas. 

Não há mais tempo a perder – e ainda é tempo para evitar o sacrifício de milhares de outros brasileiros.

A omissão ou rendição diante da renitente postura genocida do governo na crise também serão cobradas implacavelmente em futuro próximo.

Aos que pensam que já chegamos ao fundo do poço, nunca é demais lembrar que sempre é possível piorar o que já é muito ruim.

Urge recuperar o tempo perdido, já que as vidas que se foram não voltam mais.

O genocídio bolsonarista segue sua marcha insana.

A realidade já mostrou que o número crescente de mortos pela pandemia não sensibiliza em nada o governo, servindo apenas como elemento retroalimentador da dinâmica genocida.

Ou detemos essa insensatez abismal, ou o custo social e econômico será avassalador – para a nação e o nosso povo.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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