Novas urgências

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Pintura de Wassily Kandinsky

Diz o dito popular: “cabeça vazia, oficina do diabo”. Em tempos de pandemia, não dá para afirmar que estejamos com as mentes desocupadas, mas, essa prisão a um único tema tira o gosto do resto, empobrece a vida. A sensação é de escassez subjetiva, mesmo.

Então a gente se pega a imaginar como será o amanhã. Imaginar é um exercício importante, é um treino para a ação, semente para realizações. Mas quando não podemos fazer outra coisa além disso, a cabeça fica cheia, e não tem deus ou diabo que alivie essa constipação mental.

Curiosamente, um sintoma da distopia também é essa carência de utopias. Talvez a gente precise fazer uma mesa branca para conversar com isso que também morreu, nossos sonhos e esperanças, promover um bate-papo com fantasmas.

Esses espíritos, nossos antepassados, talvez nos digam o que já estamos carecas – alguns, literalmente – de saber: a crise sanitária global expõe e aprofunda desigualdades. E reafirmem: nossa parte já fizemos, nós avisamos. Agora, é com vocês.

(Estou na parcela da população que raspou os cabelos e se surpreende com a forma da própria cabeça, redonda como um planeta. Se a única coisa que possa advir da pandemia seja uma religião, seremos nós os anunciadores da boa nova, parecemos sacerdotes em iniciação).

Faço parte, ainda, das pessoas que dispõem de abrigo, comida, remédios e outros itens de salubridade material. Talvez por isso me debruce à insalubridade existencial. Não sei até que ponto esse exercício é também um privilégio, para remir mais um pouco essa palavra gasta.

Cogito o contrário: a falta de perspectiva é que foi democratizada. Agora, estamos todos com fome de amanhã. Essa fome dói em todos nós, afinal.

Uma escritora com quem tenho orgulho de compartilhar o nome já disse: “A fome é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças”. Como ela entendia mais de fome do que eu, fico com sua sabedoria. Atrevo-me nutrir essa esperança.

Uma coisa que essa fome de amanhã tem martelado dentro de mim, e não só na minha cabeça, mas no corpo inteiro, é uma recusa a isso que nos habituamos chamar de normalidade. Se antes estava tudo normal, e esse normal não desembocou em saídas, se mostrou completamente inútil.

Não quero, muito menos, um “novo normal”. Renovar o antigo, atualizar isso que já era precário para a maioria da população, e erodiu um pouco mais para a gente se dar conta de que já tinha pouca terra debaixo dos pés antes de cair do precipício.

Peço desculpas por gastar seu tempo precioso, caro leitor ou leitora, com uma divagação tão acessória. Ou como dizem nas redes sociais, uma “problematização chique”. É que, independente de trabalho presencial ou teletrabalho, meu ofício é com as palavras.

Como um operário alienado pelo fordismo que foi atirado da fábrica ao isolamento social, estou eu aqui, na paz intranquila do lar, girando uma mesma parafuseta em movimento imaginário. Imaginar é um trabalho repetido, é o meu normal, digamos assim.

O que esse impulso involuntário me diz em código morse, como um órgão que continua a pulsar, é que eu não quero assistir a mais uma normalização do caos, com máscaras produzidas por alguma grife cuja parcela do lucro será revertida em cestas básicas. Se isso é moralismo, nesse momento eu sou uma velha muito católica.

Troco o novo normal por uma urgência velha, essa coisa cada vez mais cara, cada vez mais chique, que nem mesmo é sobreviver, mas viver de verdade, com riqueza material e subjetiva. Isso, que era tão banal, mas a normalidade foi transformando, pouco a pouco, em utopia.

Esse amanhã, disse outro escritor, não pode estar à venda. Um ar desinfetado com etiqueta, muito mais do que uma questão moral, é um anúncio tristíssimo de um amanhã impossível.

Também não gosto de ser profeta do caos, mas muitos deles já morreram, e eu desejo me manter viva e sã para poder escolher minhas utopias. Utopia é escolha, é um exercício imaginário de esperança, e de todas as Carolinas, eu prefiro a Maria Carolina de Jesus.

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