O fascismo se torna hegemônico na divisão dos trabalhadores

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Semana passada saiu uma pesquisa Datafolha que mostra Bolsonaro subindo em sua aprovação e reduzindo consideravelmente a sua rejeição, mesmo diante da morte de mais de 100 mil brasileiros e brasileiras, devido a pandemia de Covid-19.

Essa constatação da realidade caiu como um balde de água fria em parte da esquerda que parecia não acreditar no que estava vendo. Como isso seria possível? Muitos se perguntaram.

O fato é que Bolsonaro ganhou a eleição e parece que as pessoas ainda não entenderam isso. Existe um certo negacionismo em acreditar que o fascismo está no poder pela via democrática. Tal postura não fica somente no campo da esquerda, mas também da direita, sendo que à direita do espectro político o negacionismo se confunde com cumplicidade.

Começaram vários questionamentos sobre a veracidade da pesquisa, mas não precisa ir muito longe para atestar a sua veracidade, é só sair as ruas. A popularidade de Bolsonaro está expressa no fim do isolamento social. Mesmo com mais de mil mortes diárias por mais de um mês, as pessoas resolveram sair para as ruas e viverem as suas vidas como se nada tivesse acontecendo. Bares em pleno funcionamento, restaurantes, festas, praias, jogos de futebol, tudo do jeitinho que o presidente da República queria.

Uma das características do fascismo é a naturalização da morte. Os alemães viviam suas vidas em plena normalidade enquanto o genocídio contra os comunistas e judeus acontecia aos milhares nos campos de concentração e nas câmaras de gás. Bolsonaro venceu o discurso, desorganizou a atuação do SUS, sabotou as medidas sanitárias, estimulou o fim do isolamento social e fez prevalecer a falsa dicotomia entre vidas e economia.

O fascismo avança e mesmo com essa constatação a oposição não oferece uma alternativa para os trabalhadores, que estão cada vez mais seduzidos pelo encanto autoritário.

Parte da esquerda está presa ao identitarismo, presa a pautas que dividem ainda mais os trabalhadores. O identitarismo nada mais é que o trotsquismo, é o purismo divisionista. Quanto mais os trabalhadores se dividem menos chances de fazer uma frente única capaz ou de dirigir a democracia ou fazer a revolução.

Em seu célebre texto “O Trotsquismo, corrente política contra-revolucionária”, João Amazonas afirma que “o trotsquismo é incapaz de entender o marxismo e a dialética marxista, oscilando ora para direita e ora para esquerda, mas principalmente para o ultra-esquerdismo”. Amazonas ainda conclui que o trotsquismo transformou-se num mero instrumento da burguesia destinado a desviar as massas da verdadeira luta emancipadora.

Pautas identitárias não são propriamente de esquerda, elas são liberais e o liberalismo confundido com a esquerda joga a luta dos trabalhadores numa vala única. A luta histórica da esquerda é a defesa dos trabalhadores e um governo de trabalhadores, isso a direita não pode fazer.

A direita pode defender o identitarismo tanto quanto a esquerda, inclusive já o faz com maestria. Hoje o liberalismo se apropria das pautas identitárias em nome da representatividade, mas reproduz igual ou pior as desigualdades sociais na divisão dos trabalhadores, que estão cada vez mais enfraquecidos politicamente em um mundo cada vez mais individual.

Um dos efeitos da revolução tecnológica foi transformar o sentido do trabalho, porque no trabalho existe atuação coletiva, associação em prol de interesses comuns. Hoje o trabalho é cada vez mais individual. Um celular e uma moto ou um carro é o trabalho contemporâneo. As pessoas não precisam conviver com ninguém, na fantasia de que são donas do próprio negócio, no tal empreendedorismo.

O fascismo só consegue uma hegemonia ideológica hoje porque os trabalhadores estão cada vez mais divididos, seja pela divisão social do trabalho, pelo individualismo extremo nas relações de trabalho após a revolução tecnológica ou seja porque a esquerda hoje é mais liberal do que socialista.

A esquerda se preocupa mais com pautas do liberalismo de costumes, com o que divide ainda mais os trabalhadores em vários sub-grupos. Se você for homem não pode lutar pelo direito das mulheres, se você for heterossexual não pode lutar junto juntos com as pessoas LGBTs, se você é branco não pode falar pelos negros. Isso tudo confunde as grandes massas. O trabalhador entende como se estes sub-grupos tivessem mais direitos do que ele, sente que se ele não pertencer a nenhum desses grupos identitários ele não é um lutador “legítimo”, ele é apenas um sabotador cheio de privilégios.

O fascismo oferece a solução fácil: “não vamos complicar não, vem cá que vamos fazer uma nação, somos todos brasileiros, chega de divisão vamos fazer um país para os brasileiros que trabalham de verdade, somos a bandeira, somos um só povo”. Ou seja, oferece a unidade nacional, mesmo que seja falsa, coisa que a esquerda com o seu liberalismo não consegue entregar.

Os esforços de construção de uma frente ampla nacional, capaz de unir os trabalhadores junto com diversos setores da sociedade para derrotar o fascismo, vem sendo sabotado por essa concepção divisionista. Retomando o mesmo artigo de João Amazonas, podemos ver que a tática preferida dos contra-revolucionários é a utilização da fraseologia ultra-esquerdista com a qual procuram explorar o sentimento de revolta das massas, buscando atraí-las para posições extremadas que não levam em conta a situação real, os compromissos obrigatórios, a aliança com forças políticas não-proletárias. Essa tática isola os trabalhadores em um gueto e destrói as pontes de diálogo com a sociedade.

Em uma das poucas vezes que Lenin falou sobre a luta contra o fascismo, chamou a atenção de delegados do Partido Comunista Italiano para a necessidade de aplicar a tática de frente única, destacando que os comunistas, para conquistarem as massas, deveriam atuar dentro de sindicatos e organizações dirigidos inclusive pelos fascistas.

O que Bolsonaro começa a descobrir? No meio de tantas pautas difusas o que interessa mesmo para o povo são as necessidades imediatas. Com o auxílio emergencial aprovado pelo Congresso Nacional – cabe destacar que Bolsonaro ofereceu R$ 200 e a oposição aumentou para R $600 –  a pauta principal se revelou: a fome. A maioria dos 64 milhões de brasileiros contemplados pelo benefício o utiliza para comprar comida.

Enquanto isso no Brasil a agenda neoliberal continua intocável, os principais ataques à soberania nacional e aos direitos dos trabalhadores seguem como um rolo compressor. Entretanto, o neoliberalismo começa a ficar incompatível com a expansão fiscal provocada pelo auxílio emergencial. O fascismo nunca foi liberal, pode se apoiar na burguesia para chegar ao poder, porém, não precisa de bengala para se sustentar.

Em nome da agenda neoliberal o fascismo ainda é pouco, a aliança entre a burguesia e o fascismo é movida unicamente em nome dos interesses econômicos. Enquanto Bolsonaro puder entregar as reformas, privatizações e assegurar a maior parte do bolo do PIB para o capital financeiro, pouco importa quantas mortes.

Se Bolsonaro romper a aliança com a agenda do seu Ministro da Economia, Paulo Guedes, o fascismo ficará puro sangue, livre das amarras da coalizão que derrubou Dilma Rousseff em nome do neoliberalismo, sustentado pela massa que a esquerda insiste em não dialogar.

Referências:

AMAZONAS, João. O Trotsquismo, corrente política contra-revolucionária. Revista Princípios, Edição 8, Maio, 1984, Páginas: 5 -16.

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