Pobre Alvim, um injustiçado

“Pobre Alvim. Exonerado do cargo por seu líder e insultado por seu ídolo. Tudo isso em apenas um dia. Deve ter sido demais para ele.”

O próprio Alvim não escondeu que sua maior decepção foi ter recebido críticas do seu mentor, o astrólogo Olavo de Carvalho. Em entrevista à Rádio Gaúcha, concedida antes de ter sido demitido por Bolsonaro, afirmou o seguinte: “A única coisa que me entristeceu disso tudo, e falo pra vocês do fundo do meu coração e não conversei com ele ainda, foi essa frase do professor Olavo… um mestre pra mim, uma pessoa que me ajudou muito com os seus escritos”.

A frase que Alvim se refere, escrita por Olavo nas suas redes sociais, é a de que ele não estaria bem da cabeça. Pobre rapaz.

Olavo de Carvalho, horas depois, tentou consolar o pupilo dizendo que tudo o que disse, chamando-o de maluco e trouxa, “foi para preservá-lo da injusta acusação de nazista”.

Mas Olavo, dessa vez, parece ter razão. É preciso saber se preservar para não se parecer um nazista e não ser injustiçado, como foi o descuidado mancebo.

Lembremos, por exemplo, da condução coercitiva de Lula, anos atrás, quando o mesmo sequer havia sido intimado para depor. Nem se sabia para onde estavam levando um ex-presidente da República. Algo típico da Gestapo. Mas tudo ocorreu sem a trilha sonora de Wagner.

Recordemos o atual presidente Bolsonaro ter defendido a morte de militantes de esquerda numa emissora de televisão. Como se não bastasse, ainda faz apologia aberta um torturador de fazer inveja a Menguele. Mas tudo ocorreu sem usar trechos de algum discurso de Hitler ou Mussolini.

Rememoremos aqui as inúmeras intervenções da direita brasileira, registradas no plenário da Câmara ou mesmo nos diversos meios de comunicação por meio de seus “âncoras” e colunistas, de que era preciso exterminar os petistas ou os comunistas. Que era preciso fazer uma faxina e limpar o país da escória esquerdista. Típico discurso nazista. Mas tudo foi feito sem a dramaturgia ou a encenação típica de Goebbels.

Relembremos, por exemplo, a recusa de uma médica em atender uma paciente pelo fato de ela ser petista, sem que o Conselho Nacional de Medicina nenhuma providência tomasse. Típico comportamento dos campos de concentração ao negar atendimento médico. Mas certamente não havia nenhuma cruz templária em seu consultório.

Resgatemos a campanha injuriosa da grande mídia, utilizando-se exaustivamente de uma pauta negativa contra os governos Lula e Dilma, tal como a velha máxima atribuída a Goebbels de que “uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade”. Mas tudo isso se deu de forma despistada, sem plagiar diretamente nenhum discurso nazista.

O pobre Alvim foi descuidado, portanto. Pelo que presenciamos do comportamento da extrema direita em nosso país nos últimos anos, não há problema algum em agir como nazista, desde que não se deixe parecer com um. Alvim deixou-se demonstrar como tal.

Mas entendo o Alvim. Considerando ser a esquerda uma raça inferior, não imaginou que conheceriam Wagner ou tivessem conhecimento de algum discurso nazista. Com certeza foi alguém que repassou isso para lhe complicar. Pobrezinho.

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