Porque passar a limpo os crimes do bolsonarismo

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A proposta aqui levantada, de as forças democráticas e progressistas passarem a limpo a história presente que se escreve a partir principalmente da deposição de Dilma Rousseff (“Um tribunal popular para julgar os crimes do bolsonarismo”, 15/07/20) foi mal recebida em respeitado círculo da esquerda organizada. A rejeição não se voltava ao mérito, eviscerar o avanço da extrema-direita, mas ao meio de realizar tal revisão, tomado como fim: o “tribunal”, considerado não como um fórum (espaço de debate) mas como uma instituição vetusta, com seus jurados, juiz e promotor, advogados, mil serventuários, escrivão, todos encapelados, esvoaçantes togas e becas, processos que os juristas chamam de autos, milhares de páginas, centenas de depoimentos, pareceres, sentenças e o mais que a imaginação prodigaliza.

É preciso, pois, voltar ao tema e, para facilitar a compreensão, retiro da proposta o mal recebido “tribunal”, para enfatizar o essencial: a ação política.

A proposta, pois, era e é simples, e mais do que tudo é necessária e premente, é para já agora: título: passar a limpo o atual regime para que não se repita amanhã, após  sua inevitável derrocada – o que ocorreu na sucessão do regime militar, que saiu de cena sem prestar contas de seus crimes. Pior: que sequer os teve denunciados perante a opinião pública, que, assim desinformada, se queda sem condições de bem ajuizar as forças que arma para sua defesa.   Sabe-se que esse “esquecimento” foi o acordo das elites que engendrou a eleição de Tancredo Neves e a inesperada posse de Sarney. Mas sabe-se, também, que nada impedia as forças de esquerda e progressistas de um modo geral de promover uma grande discussão, um grande esforço de informação e esclarecimento, sobre os fatos e o significado dos 21 anos de arbítrio. 

Tampouco a tardia Comissão da Verdade deu conta disso, em que pesem seus esforços, por uma razão muito simples: não se fez uma discussão nacional de seu relatório, peça para o estudo futuro dos historiadores. Ficamos como satisfeitos, ou agradecidos, porque os militares passavam o poder (sob condições), e deixavam de nos ameaçar com prisões e tudo o mais. E fomos disputar as eleições, como se não existisse um passado a considerar. Essa impunidade está na raiz da inquietante ascensão da extrema-direita, da qual o bolsonarismo é expressão política. Como se sabe desde os tempos do conselheiro Acácio, as consequências só vêm depois.

Essa impunidade é que precisa ser evitada. Evitá-la é dar condições ao país, à sua gente, hoje, em nosso tempo, de conhecer o que foi feito e, conhecendo, julgar, para não esquecer, e não esquecendo evitar seu regresso. Trata-se, portanto, o grande debate, de vacina contra o retorno, amanhã,  do vírus protofascista. O anticorpo é a informação, o esclarecimento da população pelo debate, pela denúncia.

Como, então, se deve entender o “tribunal”, o fórum, ou o debate, qualquer que seja o título que se lhe pespegue? Como ação político-ideológica junto às grandes massas. Denúncia do golpismo, do autoritarismo, do novo militarismo e defesa do processo democrático fundado na superação das desigualdades sociais. Como levar a cabo? Voltando a conviver com as massas, a acreditar na organização popular, politizando o discurso. 

Acordando a universidade de sua anomia atual, retomando o debate nos sindicatos (para além dos apelos econômicos), substituindo “cabos eleitorais” por militantes, compreendendo o processo eleitoral como uma fase (nos termos de hoje imprescindível) do processo político maior, a revolução brasileira, na acepção  cunhada por  Florestan Fernandes, como ruptura do estado atual das coisas.

É preciso compreender que o desafio fundamental das forças democráticas não é o capitão em si, fenômeno de dias contados, mas a ascensão política da extrema-direita. Esse enfrentamento – de vida e morte para a esquerda socialista – nos cobra a batalha ideológica, da qual nos afastamos, atropelados por uma compreensão equivocada da via eleitoral, com as consequências à vista.  

Complicado? A proposta é simples: politizar as massas trabalhadoras a partir do esclarecimento histórico. Explicar, por exemplo, que os idos de 2013 não foram um movimento espontâneo de massas, que a Lava Jato foi e é um projeto político que, sob o pretexto de combater a corrupção, tinha por objetivo destruir o principal partido da esquerda brasileira e seu principal líder; que a prisão e inelegibilidade de Lula eram indispensáveis para deixar passar o projeto eleitoral da direita, que apostou em Alckmin e terminou elegendo Bolsonaro. 

Explicar as ligações da Lava Jato com o FBI e os prejuízos que calculadamente causou ao país, a começar pela destruição das empresas brasileiras de engenharia. Explicar o comprometimento (ativo) do poder judiciário em todo o processo de implantação golpista, sustentando as arbitrariedades e ilegalidades da lava jato, do ministério público de um modo geral, do STF mandando às favas a ordem constitucional que condicionava cumprimento de pena restritiva de liberdade ao trânsito em julgado da sentença condenatória. 

Tudo isso porque era preciso pôr Lula na cadeia, porque sua prisão era fundamental para o projeto golpista, ditado pela casa-grande. Ora, não há espaço para alinhar todas as irregularidades que precisam ser traduzidas em bom português para nossa população. E que dizer do papel das forças armadas? Elas não podem passar incólumes diante de mais esse desserviço à democracia e ao país. E o papel da grande imprensa, sustentando as arbitrariedades dos procuradores e juízes partidarizados, desmoralizando a política, sem a qual não há possibilidade de qualquer sorte de democracia? E que dizer dos crimes sem conta do capitão e sua récua de marginais impunes? 

O genocídio que resultou de sua irresponsabilidade em face da pandemia, a destruição do meio ambiente, a desmontagem do ensino e da pesquisa, a perseguição ao ensino público, a destruição da economia nacional, os milhões de desempregados, a destruição da indústria nacional, sob a bênçãos da FIESP e da CNI, a destruição em andamento da Petrobras, a privataria mediante a qual está desmontando empresas estratégicas para o desenvolvimento nacional, a quebradeira das pequenas e médias empresas, o combate ao conhecimento e à cultura, a subalternidade lesa-pátria (que conta com a solidariedade dos militares) diante dos interesses da política imperialista de Donald Trump?

Explicar o que é a casa-grande e identificar seus comensais, o empresariado, os partidos e políticos da ordem, o  empresariado, a grande imprensa e setores dominantes das forças armadas, desvinculadas dos interesses das grandes massas. Nossos militares precisam responder por isso. Vem de longe seu descompromisso com os interesses populares e sua adesão aos interesses do império, em nome de um anticomunismo de indústria que rende dividendos. Em 1953 exigiram a demissão do ministro do Trabalho, João Goulart, porque anunciara a recomposição do salário mínimo em 100%! 

Em toda a história do país estiveram sempre mais próximos dos interesses e medos da casa-grande do que dos interesses e aspirações de nosso povo, e hoje se prestam ao papel de guarda pretoriana de um governo que submete os interesses do país à geopolítica do imperialismo e desmonta o sistema nacional de ciência e tecnologia para o qual, em priscas eras, tanto colaboraram.  E que burguesia é essa nossa cujos interesses asseguram? Uma burguesia alienada e alienígena, exógena, desapartada do interesse nacional, a única burguesia do mundo que jamais se interessou pelo enriquecimento nacional e a criação de mercado interno para seus produtos.

Sem vocação democrática, toda vez que as classes trabalhadoras tentaram se aproximar do Olimpo, nossas “elites”  econômicas (paulistas antes de tudo) – o dito “mercado” – optaram por acomodar-se aos projetos totalitários. Foi assim em 1954, com a adesão ao golpe que levou ao suicídio de Vargas, foi assim em 1964, foi assim em 2016, foi assim em 2018, é assim agora e, por isso mesmo, enquanto a fome grassa, quando as mortes pela pandemia se aproximam (pelos números oficiais que estão longe da realidade prospectada pelos infectologistas) dos 100 mil, os milionários brasileiros, que não pagam imposto sobre os lucros acionários, aquele 1% que mora na casa-grande – aumentaram seus ganhos em 32 bilhões de reais. 

É de tudo isso que nosso povo precisa ser informado, e jamais será pela grande imprensa, para entender porque continua pobre numa das províncias mais ricas do mundo. Se nossos partidos tiverem juízo, se quiserem caminhar à frente, pensando o processo social em sua dinâmica interna, deverão valer-se das eleições que se avizinham como momento excepcional, ensejado pelas contradições da burguesia, para a retomada da organização popular. Pode ser, quem sabe, o ensaio de um grande “tribunal” popular.

Duas grandes perdas: Cessam suas atividades o Nocaute de Fernando Morais e o Conversa Afiada, criado pelo saudoso  Paulo Henrique Amorim. Não se culpe a direita.

Fake news: Para os que reduzem os 56 milhões de votos do capitão à manipulação  de fake news: o Instituto Gallup traz um levantamento sobre o apoio que Donald Trump desfruta em diferentes países: Alemanha: 11%; Canadá: 22%; França: 23%. Brasil: 38%. Nosso consolo é Israel: 64%. (President Trump’s Approval Rating Overseas- March 2019-February 2020- Source: Gallup)

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