Quanto mais o país afunda, mais Bolsonaro cava o poço

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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/AgBR

A última semana se encerrou com dois indicadores do desastre que assola o país. Para além da tragédia que já vivenciamos desde o primeiro semestre de 2020, os números nos mostram que estamos longe do fim do pesadelo. Já é a mais grave crise sanitária de toda nossa história e a crise econômica, decorrente tanto da pandemia quanto da orientação fiscalista do governo, se move no sentido de causar um retrocesso de pelo menos uns 60 anos nesse campo. A capacidade de Bolsonaro, Pazuello, Ernesto Araújo e Guedes de cavar o fundo poço parece infinita.

A queda de 4,1% do PIB em 2020, anunciado pelo IBGE, foi comemorado por vários setores e, principalmente, pelo governo. As razões da comemoração decorrem de que as previsões, em meados do ano passado, apontavam possibilidade de retração próxima a 10% e de que os 4,1% foram inferiores à queda do PIB em economias como a da Espanha, 11%, a do Reino Unido, 9,9%, e a da Alemanha, 5%.  Tais comemorações, no entanto, são o mesmo que dizer “olha como sou sortudo, a desgraça alheia foi maior que a minha”, quando, na verdade, nada se tem a comemorar.

O Brasil teve a 21ª maior queda e sua posição entre as maiores economias do mundo caiu de 9º para o 12º lugar. As previsões mais otimistas apontam que em 2022 estaremos em 14º lugar. Isto porque a crise econômica que arrasa o mundo decorre da pandemia e a recuperação econômica de cada país será diretamente proporcional à solução da crise sanitária. E é exatamente aí que mora o drama brasileiro. Enquanto as maiores economias, como as asiáticas, europeias, dos Estados Unidos e do Canadá, e mesmo economias intermediárias, como a do Chile, avançam em políticas de vacinação e de controle da disseminação do vírus, o Brasil se afunda na falta de imunizantes, na total desorganização do Ministério da Saúde e no negacionismo do governo federal, principalmente de Bolsonaro.

Completamos um ano de pesadelo. Falássemos, no primeiro semestre do ano passado, em alcançar 100 ou 150 mil mortes, mesmo para os mais pessimistas soaria como alarmismo. Ultrapassamos os 250 mil e vários especialistas já consideram inevitável que o país chegue aos 500 mil óbitos. Falássemos em seis meses de restrições para enfrentamento da doença, parecia o mais absurdo dos exageros. Ultrapassamos um ano e, ao contrário de um arrefecimento, a disseminação e o número de mortes alcançaram uma aceleração assustadora e incontrolável.

Na chamada primeira onda, que teve o seu pico nos meses de julho e agosto de 2020, os estados enfrentaram a situação mais crítica em momentos e de maneiras diferentes. Na situação atual, o colapso está sendo simultâneo em todas as unidades da federação, o que sinaliza uma disseminação generalizada. Algumas situações mais graves que outras, mas em praticamente todos os estados não se encontra mais vagas em UTIs. Outra característica alarmante da atual situação, é que cresce absurdamente o número de jovens contaminados necessitando de tratamento intensivo. Ocorre que entre os idosos, que predominavam nas UTIs até então, cerca de 50% vão a óbito, liberando leitos. No caso dos jovens, no entanto, se por um lado a mortalidade é menor, quando precisam internamento e UTI, acabam por ocupar os leitos por um período mais longo. A consequência é que, na situação atual, jovens e idosos passam a falecer pela pura e simples falta de atendimento, pela falta de leitos. Mesmo os leitos de enfermaria começam a entrar em colapso e teremos uma enxurrada de falecimentos em casa. O número diário de contaminados já é 50% superior ao ocorrido no pico do ano passado e todos os indicadores apontam que nos próximos dias devemos atingir o número absurdo de 3 mil mortes diárias.

Não bastasse a carnificina ainda maior que se anuncia, o acompanhamento da evolução da pandemia feito pela Fiocruz aponta que em pelo menos seis estados a contaminação está se dando predominantemente pelas novas cepas (brasileira P1, inglesa e sul-africana). As três, ainda que os estudos sejam preliminares, apresentam sérios indícios de serem mais contagiosas e resistentes. Ainda que as vacinas apresentem, a princípio, eficácia contra estas novas variantes, a lentidão da vacinação não evitará o crescimento da mortalidade, pois mesmo imunizando os idosos, cresce assustadoramente a mortalidade entre os jovens. Tal lentidão também fará com que nos tornemos não só um terreno fértil para propagação dessas novas cepas, mas também uma fábrica de outras que podem vir a ser ainda mais letais e talvez até mesmo mais resistentes às vacinas já desenvolvidas.

Para resolver a crise econômica, a vacinação em massa é a solução, afirma Paulo Guedes. Parece que não faz parte do governo Bolsonaro, que afirma que “tem idiota que pede compra de vacina. Só se for na casa de sua mãe”. Pois aí está uma excelente indicação, Bolsonaro e Pazuello que vão comprar vacina na casa da mãe de quem o Presidente então considera um idiota, o ministro Paulo Guedes, pois na casa da minha mãe e da totalidade dos brasileiros e brasileiras não tem. Não são nossas mães e nem nós os responsáveis por providenciar vacinas.

A escassez de imunizantes já era pedra cantada desde o início da pandemia. Diante de tal cenário, o mundo se lançou em uma corrida pela produção e pela contratação de vacinas. O governo brasileiro, na contramão, como sempre, não só desprezou as mais de 20 pesquisas em universidades brasileiras, mas também tentou o tempo todo desqualificar o convênio do governo paulista com o laboratório chinês Sinovac, assim como pouca importância deu ao seu próprio convênio, firmado com a AstraZeneca. Anuncia, no momento, apenas contratações que ainda não existem.

Além da Coronavac e AstraZeneca que estão sendo disponibilizadas, por mais que sejam bem-sucedidas as negociações com a Pfizer, Moderna, Gamaleya, Johnson & Johnson, entre outros, só teremos novas vacinas, e em quantidades muito limitadas, no final de abril. Se a solução da crise sanitária, segundo Guedes, é só a vacinação em massa, a situação que o governo criou não permitirá que até o final do ano tenhamos nem ao menos 50% da população imunizada. Em um mês de vacinação não atingimos sequer a 4% com a primeira dose e menos de 2% com a segunda. Segundo especialistas, é necessário alcançar 70% da população imunizada para debelar a contaminação, de forma que, dependendo somente da vacina, sem ações unitárias nacionais de contenção, atravessaremos 2022 ainda vivenciando essa tragédia.

A consequência deste quadro é inevitável e já foi anunciada por Tedros Adhanom: o Brasil se torna uma ameaça para o mundo e seus vizinhos. O total descontrole da pandemia e o descaso do governo brasileiro, com o país produzindo e propagando pelo mundo novas variantes do vírus, coloca em risco todo o esforço empreendido pelos demais países, inclusive de vacinação. Nesta situação, em um mês ou dois estaremos isolados do mundo, inclusive dos nossos vizinhos, que fecharão totalmente as fronteiras, o que talvez nos impeça de ser inclusive exportadores de produtos primários. Teremos não só a tragédia humana, mas também um desastre econômico, enquanto o resto do mundo retoma a normalidade.

Diante deste quadro, enganam-se e contribuem para o genocídio de Bolsonaro aqueles que acreditam que o enfrentamento com o fascista e seu governo deve se dar nas eleições de 22. O enfrentamento deve ser já. Isso é inadiável, a começar pelos governadores, com o apoio das mais amplas organizações sociais, assumindo a frente de uma articulação nacional de ações unitárias para conter a pandemia, desde a restrição da circulação de pessoas a um plano nacional de vacinação exequível, bem como uma campanha nacional de conscientização da população. Toda e qualquer inciativa isolada, por mais bem intencionada que seja, será ineficaz. O cenário de 2022 será, inevitavelmente, resultado do enfrentamento estabelecido agora. Superar a crise sanitária e econômica só é possível derrotando Bolsonaro agora.

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