Saudades do cinema e da democracia

O audiovisual deu uma contribuição importante para o PIB brasileiro, além de empregar milhares de profissionais

Entre tantas séries e filmes distópicos disponíveis nos streamings, fiquei pensando se, assim como em Dark, Ministério do Tempo, entre outras, nós encontrássemos uma porta que nos fizesse voltar 25 anos atrás. Momento em que marca a retomada do cinema brasileiro.

Bem, se isso acontecesse, eu estaria morando ainda no Jardim São Luis, periferia de São Paulo, e trabalhando no Cemitério do mesmo nome, cujo salário me garantia pagar o curso na faculdade de comunicação.

Como no cemitério se trabalha todos os dias, inclusive sábado e domingo, eu escolhia as quintas-feiras para tirar a folga.

Toda quinta eu pegava o ônibus, que levava 1 hora e meia até o ponto na Avenida 23 de Maio que dava acesso à avenida Paulista, e a minha jornada começava em busca do cinema brasileiro.

O ingresso custava 6 reais, e nas quintas-feiras todo mundo pagava meia. Eu, com a minha carteirinha, pagava meia da meia, ou seja, chegava com algumas moedas. Às vezes, como já tinha assistido todos os filmes em cartaz, ia ao MASP, já que às quintas a entrada era gratuita. Por isso que escolhi às quintas como dia de folga.

A minha jornada começava as 10 da manhã nas livrarias em busca de livros ou revistas de cinema. Depois do pastel ou um lanche, assistia 2 filmes, 3 filmes até dar a hora de ir para a faculdade. Ainda dava uma passada na 2001, videolocadora com suas centenas de fitas de vídeo cassetes que nos permitia ter acesso ao cinema do mundo inteiro. Ou seja, saía de lá com 5 fitas e o meu final de semana estava garantido.

Foi nesta mesma época que se deu a chamada Retomada do cinema brasileiro com o filme “Carlota Joaquina, a Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti.

Apesar das grandes dificuldades do nosso cinema naquele momento, Carlota Joaquina fez um enorme sucesso e nesse ano de 1995, os filmes brasileiros começaram a voltar para as salas de cinema. Foram lançados alguns filmes importantes e interessantes. Lembro-me do filme “Sábado”, de Ugo Giorgetti que assisti 9 vezes. Vi o “Mandarim” de Bressane umas 4 vezes. E entre a comédia e o cinema de invenção, também tinha o cinemão com o belíssimo “Terra Estrangeira” de Daniela Thomas e Walter Salles e o mais comercial “Quatrilho” de Fábio Barreto. Esse concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, perdendo para “A excêntrica família de Antonia” da Holanda.

O “Menino Maluquinho – o filme” de Ziraldo chegava às telas pela mão do diretor Helvécio Ratton. E assim, quase todo mês tinha um filme novo. Lembro de Causa Secreta, de Sergio Bianchi; Louco por Cinema, de André Luiz de Oliveira e “Perfume de Gardência”, de Guilherme de Almeida Prado. Alguns finalizados há mais tempo, mas só estrearam naquele ano.

Não perdia um lançamento de filme brasileiro.

 Em 1995, o Brasil vivia uma certa euforia. Um presidente intelectual eleito, a seleção brasileira tinha ganhado o tetra, em 1994, o plano real dava a sensação de estabilidade econômica. Além do mais, comemorávamos 10 anos do fim da ditadura militar. Tínhamos a certeza que os militares não voltariam ao poder. O impeachment de Collor, por denúncias de corrupção, depois de uma forte mobilização da juventude que saiu às ruas, nos dava a noção de que a democracia brasileira estava fortalecida.

A partir daí, vivemos anos de crescimento da produção audiovisual no país. Surgiram dezenas de cineastas, grandes filmes brasileiros foram reconhecidos e premiados em festivais mundo a fora. O mercado ficou tão aquecido que o audiovisual começou a dar uma contribuição importante para o PIB brasileiro, além de empregar milhares de profissionais.

Em 1995, nem imaginávamos como o futuro seria distópico e se assemelhasse mais ao passado de 1964. Nosso presente é o de um governo brasileiro que tenta destruir não só o cinema, mas a cultura brasileira. Os militares voltaram ao poder. As videolocadoras e os cinemas de rua praticamente desapareceram. Não temos mais o poder de escolher nas prateleiras um filme, mas ficamos confinados nas alternativas que nos oferecem as plataformas de streaming. Nessa oferta algorítmica e limitada, desapareceram os clássicos, os filmes B, os filmes de autor. A Ancine, agência que regulou e impulsionou a nossa produção nos últimos anos está praticamente fechada. Não existe nem Ministério da Cultura. E a nossa Cinemateca corre o risco de pegar fogo a qualquer momento.

Mas o que eu queria dizer é que eu tenho um medo danado de entrar numa porta que me transporte para o futuro, daqui 25 anos, e encontrar o cinema, a cultura brasileira enterrado num cemitério ainda mais distópico.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho
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