53 anos sem Che Guevara: os bastidores de uma fotografia lendária

Imagem mais conhecida do guerrilheiro foi uma das fotos mais impactantes do século, conforme a revista Time

Argentino naturalizado cubano, o médico e guerrilheiro Ernesto Guevara de La Serna, o “Che”, um dos líderes da Revolução Cubana (1959), morreu há exatamente 53 anos, em 9 de outubro de 1967. Sua imagem mais conhecida até hoje – e uma das fotografias mais impactantes do século, conforme a revista estadunidense Time – virou um símbolo cultural, um ícone da rebeldia, indo muito além da luta pelo “novo mundo” que estava sendo travada em Cuba.

A foto foi tirada no dia 5 de março de 1960, em Havana, pelo cubano Alberto Korda. Com o nome de Guerrilheiro Heroico, a icônica fotografia correu o mundo. Muitos conhecem a imagem estática que apresentava Che e seu semblante sério. Mas poucos sabem mais sobre seus bastidores, onde ela foi, de fato, imaginada e tirada pelo retratista.

No porto de Havana, o cargueiro francês La Coubre explodiu de maneira inesperada (e suspeita) em 4 de março de 1960. A tragédia causou a morte de pelo menos cem pessoas, e muitas outras ficaram feridas. Che Guevara estava próximo do local quando isso aconteceu e chegou até mesmo a correr para tentar ajudar os indivíduos presentes.

O episódio fatídico chocou a ilha caribenha. Uma homenagem foi organizada no cemitério Colón de Havana pelas autoridades cubanas para relembrar as mortes que ocorreram no acidente. Estavam presentes o guerrilheiro (que na época era o ministro da Indústria do país), Fidel Castro e alguns membros do governo.

Fidel atribuiu o acidente aos Estados Unidos e à CIA, num discurso memorável em que homenageou as vítimas e denunciou o atentado. Foi a primeira vez que ele usou as palavras “Patria o Muerte” (“Pátria ou Morte”, em português), pelas quais ficaria famoso mais tarde.

A cerimônia contava também com a presença do fotógrafo oficial do líder cubano, Alberto Korda. Após a marcha fúnebre que foi realizada no local, ainda na manhã daquele dia, por volta das 11 horas, ele tirou duas fotografias de Che, ambas a uma distância de 7 a 9 metros.

Tudo isso foi muito rápido. Em questão de segundos, Che desapareceu de sua vista. Mas foi o suficiente para que Korda registrasse uma das fotos mais importantes da história. Uma fotografia em que, nas palavras do jornalista Elio Gáspari, o olhar de Guevara sobressai “audaz, perdido no futuro”.

Décadas depois, o fotógrafo afirmou que ele registrou o momento porque a face de Guevara o interessou de maneira particular. Segundo o cubano, a expressão no rosto do guerrilheiro mostrava “implacabilidade absoluta, raiva e dor”, demonstrando também seu caráter firme e estoico.

Maria-Carolina Cambre, pesquisadora da Universidade Concordia, é autora do artigo “Che Guevara – Um rosto que lançou milhares”, publicado no site The Conversation, que difunde artigos acadêmicos. Conforme seu texto, “a imagem de Che Guevara é vista como um ícone global que cruza várias fronteiras sociais e culturais exemplificadas em protestos de rua e em diversas mensagens visuais, como pôsteres, logotipos, camisetas e slogans”.

Para a autora, “o Guerrilheiro Heroico está sempre em movimento, passa pelo reino do simbólico ao sintomático e oscilante entre esses tipos de classificações, enquanto rejeita esses tipos de quadros. Em outras palavras, a força do apelo de Guerrilheiro Heroico quebra o quadro”.

Korda nunca recebeu um centavo sequer – e nem tampouco desejou cobrou – pela ampla divulgação de sua fotografia mais célebre. A seu ver, Che não concordaria com o uso, caso pudesse opinar. Além disso, quanto mais a imagem de Che se espalhasse, maior seria a chance de os ideais se espalharem também.

“Como defensor dos ideais pelos quais Che Guevara morreu, não sou avesso à sua reprodução por aqueles que desejam propagar sua memória e a causa da justiça social em todo o mundo”, afirmou Korda, certa vez, ao jornal australiano Herald Sun. “Mas sou categoricamente contra a exploração da imagem de Che pela promoção de produtos como álcool ou para qualquer finalidade que afete a reputação do Che.”

Maria-Carolina Cambre aponta que, em boa medida, o desejo de Korda foi cumprido. “Enquanto as indústrias da moda trabalham para diluir o poder simbólico da foto e despolitizá-la, outros a reinvestem com significados emancipatórios e políticos”, diz ela. “A imagem de Che Guevara representa mais do que apenas um rosto. É uma imagem que se tornou um símbolo e assumiu diferentes funções sociais, culturais e políticas. Foi reverenciado, desprezado ou realizado em procissões.”

Com 31 anos na época em que a foto foi tirada, Che Guevara foi solidificado como um ícone cultural, por meio, principalmente, de suas ações radicais, pela foto icônica e por sua personalidade carismática. Mas a reprodução da imagem, das mais diferentes maneiras, fez com que ele se tornasse mais que ele próprio.

A acadêmica conclui: “Não estamos mais falando de alguém se apropriando da imagem de Che para fazer alguma coisa. Em vez disso – em nossa cultura recortada e colada de compartilhamento contínuo de sinais –, podemos dizer que o rosto de Guevara se tornou uma interface coletiva e um canal de expressão”.

Para o historiador Augusto Buonicore, que faleceu neste ano e era membro do Comitê Central do PCdoB, a imagem de Guevara foi alvo de deturpações após seu trágico assassinato. “Nas décadas que se seguiram à sua trágica morte nas selvas bolivianas, Che foi perdendo sua substância e se transformou num ícone – na verdade, um dos maiores ícones da segunda metade do século 20. Seu rosto de guerrilheiro, altivo, foi estampado em camisetas, cartazes e pichações por todo o mundo”, escreveu Buonicore.

Segundo o historiador, “para compreender o verdadeiro Che, é preciso ir para além do ícone, além da marca, além do mito. O ícone, em geral, não tem sangue correndo nas veias, não tem carne e osso, não sente fome ou frio. O ícone não tem dúvidas ou medos, é um fantasma que não convive com as malditas contradições cotidianas. Ao contrário do mito, os homens e as mulheres, inclusive os mais revolucionários, padecem de todas essas vicissitudes humanas – e Che foi, acima de tudo, um homem. Um homem do seu tempo. Um membro do Partido Comunista”.

Com informações do site Aventuras na História

2 comentários para "53 anos sem Che Guevara: os bastidores de uma fotografia lendária"

  1. NARCISIO RAMOS PENIDO disse:

    O Che Guevara significa a resistência daqueles que acreditam na luta, na transformação da sociedade hipócrita, desigual e injusta, da propriedade privada, para uma sociedade em que os valores devem ser o um bem do coletivo, um bem comum.
    Viva a luta de todos povos pela emancipação da sociedade.

  2. florisvaldo dos santos disse:

    sou super fan do che

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