Celso Marconi: César Meneghetti, curso de cinema e Lúcia Murat

Confira os novos textos de Celso Marconi, o mais longevo crítico de cinema do País

Cena do filme Glauber, Claro, de César Meneghetti

As críticas que publico no Vermelho têm tido repercussão no mundo do cinema nacional. Registro uma delas a seguir:

Caro Celso Marconi,

Bom dia, aqui é o César Meneghetti realizador do filme Glauber, Claro.

Sou leitor do Vermelho e da sua coluna de cinema e para mim é muito importante a sua opinião.

Com o trecho acima, começa uma mensagem que recebi do cineasta César Meneghetti e que justamente fala do meu comentário sobre seu filme Glauber, Claro, que inclusive recebeu na 44ª Mostra de Cinema de São Paulo o Prêmio da Crítica como Melhor Filme brasileiro. No meu comentário, fiz restrições à estrutura do filme, considerando que pela dimensão humana de Glauber pensaria em algo de mais força dramática.

Esse meu comentário foi feito depois de ter visto o filme sem utilizar legendas. O que aconteceu foi que, como era um filme brasileiro, não imaginei que iria precisar das legendas. E como, também, foi o primeiro filme que vi da Mostra, ainda não tinha observado como ligar as tais legendas.

Espero brevemente rever Glauber, Claro e então voltarei a escrever sobre essa produção cinematográfica do César Meneghetti.

(Olinda, 13. 11. 2020)

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CURSO DE CINEMA ON LINE E DOIS FILMES DE LÚCIA MURAT

O site ContrapoderBR, que é um produtor de cursos, não sei se apenas pela internet, está realizando um Curso sobre Cinema e Audiovisual na América Latina. Eu assisti à primeira aula no YouTube, com duração de 2h30. Quem ministrou essa primeira aula foi um professor de Filosofia e comentarista de cinema. Ele ensina atualmente numa escola conhecida da Aeronáutica.

Foi uma aula talvez muito longa, mas que colocou questões bastante válidas, principalmente para quem queira ver cinema como arte nos dias atuais. Mostrou que embora o cinema tenha começado como uma arte de ligação comunitária pela forma de exibição, hoje se transformou ou está se transformando em uma arte que é vista pelo espectador unitário, ou então por duas ou três pessoas. E mostrou como temas para análise em relação a essa primeira aula os filmes Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, e Olhar Estrangeiro, de Lúcia Murat. As outras cinco aulas serão com outros professores.

(Olinda, 8. 11. 2020)

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CURSO DE CINEMA – SEGUNDA AULA

A segunda aula do Curso de Cinema e Audiovisual na América Latina, produzido pela ContrapoderBR, foi ministrada pela professora paulista da Universidade Federal de Niterói Lúcia Ramos Monteiro. O tema foi o cinema amazônico principalmente, e o que ela chama de “cinema à margem” com muito gosto. Me pareceu uma pessoa muito dedicada e competente, porém um pouco ingênua quanto à visão filosófica. Mas sua aula penetrou em vários aspectos do cinema que é feito no Amazonas, tanto por estrangeiros quanto por locais. Houve debate e ela abordou inclusive os filmes que lá foram feitos por Werner Herzog. Essas aulas estão no YouTube e valem a pena para quem gosta de saber sobre a arte cinematográfica. As aulas acontecem nas quintas-feiras e ainda estão marcadas quatro aulas.

Quanto a essa estória de cinema marginal é que me parece haver da parte da professora uma certa ingenuidade. Isso porque os cinemas do Brasil fora do eixo Rio–São Paulo ainda serem chamados de ‘marginais’ é inteiramente falso. Como ela mesmo lembrou, o filme “Iracema – uma transa amazônica” feito no Amazonas não teve muito sucesso no próprio mercado brasileiro, mas fez sucesso de público na Europa. Lá, assim, foi cinema de mercado e de grande importância cultural. E o cinema pernambucano há já alguns anos, bem como o nordestino, tem ocupado o mercado brasileiro e internacional. Não é mais “marginal”. O debate foi bom na aula.

(Olinda, 12. 11. 2020)

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OLHAR ESTRANGEIRO

Ainda não tinha visto esse filme de Lúcia Murat e vi hoje. Ela o realizou em 2005 e é sem dúvida uma obra que levanta a questão de como o cinema estrangeiro vê a cultura do Brasil. O filme foi inspirado no ensaio “O Brasil dos gringos” do pesquisador Tonico Amâncio. Ela entrevista uns oito cineastas e produtores norte-americanos, franceses e outros, que falam sobre os seus próprios filmes.

Acredito que o filme poderia ser não só denunciador dessa visão “comercial” dos filmes estrangeiros utilizando clichês da cultura brasileira, como bunda e praia, mas poderia situar somente alguns filmes. Além de ouvir os realizadores, poderia ter ouvido analistas no sentido de melhor explicitar o significado desse aproveitamento de clichês. Não conheço o livro de Tonico Amâncio, mas acredito que se trata de um trabalho fundamental para esclarecer certos aspectos dessa visão ‘comercial’.

Quem acompanha a produção cinematográfica que aborda questões do Brasil conhece muito bem o olhar que se mantém me parece até hoje. Com diferenças hoje que a própria mundialização provocou. Mas o filme de Murat não perdeu a importância.

ANA. SEM TÍTULO

Um filme novo de Lúcia Murat esse Ana. Sem Título, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo. Um filme excelente e que NÃO ganhou prêmio na Mostra. Mas devia. Ele é excelente tanto pelo argumento, isto é, pela estória, quanto pela realização cinematográfica. Um belo filme como cinema bem realizado. E é um excelente produto cultural como expressão política.

Trata-se de uma estória que tem conformação de documentário, mas é inteiramente ficção. Embora seja totalmente verdadeiro. Além de tudo, o filme cria uma estória que permite ligar a situação política de submissão à ditadura militar ou civil tanto no Brasil quanto na Argentina, no Chile e no México. Talvez não tenhamos um filme que ligue de uma forma tão natural e verdadeira esses quatro países da América Latina.

Têm que ser destacados tanto o roteiro criado por Lúcia Murat quanto a presença permanente no filme de Stella Rabelo, que faz o papel de uma atriz que quer descobrir o que aconteceu com Ana, uma artista negra brasileira que teria convivido nesses lugares e desapareceu. O que Lúcia Murat nos mostra mesmo é o horror que as ditaduras “nossas” fazem contra o povo, contra a cultura, contra os artistas. E como a arte é fundamental para a denúncia desse horror e como forma de resistência.

(Olinda, 8. 11. 2020)

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