Celso Marconi: O Festival Internacional de Cinema de Curitiba

Textos que escrevi sobre o filme Antena da Raça e quatro curtas atuais

Glauber Rocha e Dib Lutfi, em cena do filme Antena da Raça

Aconteceu, de 7 a 15 de outubro, o 9° Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema de Curitiba. Trata-se de um festival bem conduzido, com uma curadoria propensa a encontrar filmes artísticos, e não simplesmente comerciais. Para o próximo ano, eles já anunciaram o 10° Olhar, que esperam ser presencial.

Para mim, deveriam já pensar numa promoção ampla com sessões presenciais e muita coisa aproveitando a internet. Estamos num mundo on-line e temos, sem dúvida, que nos acostumar a ele. Uma riqueza criativa e imaginativa está aí. A seguir, textos que escrevi sobre o filme Antena da Raça, lançamento mundial, e quatro curtas atuais.

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GLAUBER ROCHA – ANTENA DA RAÇA

Seria preciso que não fosse isso e, sim, que hoje tivéssemos muitas antenas da raça brasileira para nos ajudar a libertar este país. Mas a filha de Glauber, Paloma Rocha, e o genro Luis Abramo mostraram com esse filme, Antena da Raça, que encerrou o Festival Internacional de Cinema de Curitiba – 9° Olhar de Cinema, que Glauber continua hoje, mesmo depois de morto há tanto tempo, como aquele capaz de nos incitar para uma ação de recriação do nosso país. Deve haver certamente por aí várias lideranças que podem cumprir esse papel e mudar o que resta de Brasil.

Quando vi os anúncios do festival, o filme me pareceu apenas um oba-oba da filha em torno do pai – mas de forma nenhuma é isso. Ela e o companheiro aproveitaram o mais atual do que foi dito por Glauber no programa Abertura e criaram em torno das pessoas que naquela época falavam – e ainda estão hoje falando –, como Luiz Carlos Barreto, Caetano Veloso, José Celso Martinez Correia e outros.

Assim, temos um ensaio vivo e vibrante sobre o Brasil atual desse presidente Bolsonaro, que está conseguindo fazer voltar tudo o que teríamos conseguido como avanço. O pior mesmo me parece é que as pessoas se deixam quebrar no seu aspecto mais essencial, que é o da consciência crítica.

O próprio cinema brasileiro está me parecendo pobre. Não é só a realidade social do Recife, como dizia o compositor Carlos Fernando – mas às vezes surgem produtos essenciais como esse filme de Paloma e Luis. Antena da Raça assim nos assegura que não é tão inútil continuar a acompanhá-lo. Temos que realmente criar o Partido de Luiz Carlos Maciel, o filósofo, e sair fora dessa política pobre que é apresentada em nosso panorama. Viva Glauber! Essa exibição do filme de Paloma foi o lançamento mundial, pois ele ia ser exibido no Cannes Classic, que virá.

(Olinda, 15. 10. 2020)

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QUATRO CURTAS QUE SE DISTINGUEM

Num programa de curtas do Festival de Cinema de Curitiba, vi quatro curtas que me pareceram capazes de se distinguir nesse gênero. Diferentes entre si, eles mostram um senso criativo. Cada filme tem a duração de pouco mais do que 15 minutos.

ALIENÍGENA – A informação é que se trata de uma produção da África do Sul, mas o produtor e diretor Jegwang Yeon é da Coréia do Sul. Só isso já mostra como o cinema tem cada vez mais mobilidade, pelo menos para a busca de meios de produção. E o tema tem ligação com a China, pelo menos com o seu povo. Numa fábrica que não se sabe onde está situada, trabalham duas moças e uma delas morre. Não sei como. A amiga que está viva, coitada, não sabe o que fazer. E os dirigentes da fábrica apenas tomam a iniciativa de enterrar o corpo o mais rápido para não atrair a polícia. Todos os trabalhadores são na verdade “alienígenas”, sem nacionalidade. O filme é falado em chinês com legenda e os fatos são mostrados com muita discrição. Nosso mundo está nos transformando todos em alienígenas.

EU INTERIOR Esse filme é do Irã e seu diretor, Mohammad Hormozi, tem ligações com Abbas Kiarostami (1940–2016) e outros bons diretores dessa nacionalidade. É uma produção discreta e quase que conta o que tem a dizer de forma indireta. Uma moça violonista se apresenta num local para tocar e simplesmente não a deixam entrar, sob a alegação de que não está vestida adequadamente. Ela toca um pouco, mas o argumento mostra mesmo o seu contato com outras pessoas jovens que também não podem entrar. Tudo se transforma numa crítica indireta a essa forma tradicionalista e quase esquizofrênica de enquadrar os trajes das pessoas, particularmente das mulheres.

MANUAL DO ZUEIRO SEM NOÇÃO – A direção do filme é do cineasta Joacélio Batista, de Belo Horizonte, e é dele também o roteiro e a fotografia. Quem aprovará certamente essa realização será o performer Daniel Lima Santiago, pois ele segue certos princípios que também são seguidos por Daniel. No filme, são garotos mascarados brincando de esconde-esconde, mas o que se quer mesmo é descobrir formas de contradizer os hábitos arcaicos e que precisam ser modificados. O tom do filme é de bom humor e por dentro das cenas temos enxertos de sátiras e ditos até drásticos.

MEMBY – Esse é de São Paulo e foi realizado pelo cineasta Rafael Castanheira Parrode, que faz quase tudo no filme, desde a fotografia, até a montagem, o som, a direção e claro o roteiro. É um filme de artes plásticas, embora possa ser entendido como ficção ou documentário. A imagem começa escura e vai com ritmo lento mostrando luzes e procura criar como se fosse a apresentação de uma nova estrela. Ele quer ser, me parece, um documentário científico. O que ele é mesmo é uma criação plástica onde a imagem se completa com o roteiro musical sonoro.

(Olinda, 14. 10. 2020)

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