Claudio Daniel: A luta de classes na poesia de Haroldo de Campos

Poema Servidão de Passagem ainda hoje chama a atenção por sua radical atualidade

Há 50 anos, o poeta paulista Haroldo de Campos, um dos criadores da Poesia Concreta, ao lado do irmão Augusto e de Décio Pignatari, escreveu o poema longo Servidão de Passagem, que se insere na fase participante do movimento concretista, que pretendeu conciliar a forma revolucionária com o conteúdo revolucionário, seguindo o exemplo de Maiakovski e do cubo-futurismo soviético.

Neste 1º de Maio, Dia Internaiconal do Trabalhador, o Prosa, Poesia e Arte publica alguns trechos do poema, que ainda hoje chama a atenção por sua radical atualidade. 

poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
poesia em lugar do homem
pronome em lugar do nome
homem em lugar de poesia
nome em lugar do pronome
poesia de dar o nome
nomear é dar o nome
nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome

* * *

de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado
sangrado
de sangue a sangue

* * *

onde mói esta moagem
onde engrena esta engrenagem

* * *

moenda homem moagem
moagem homem moenda

* * *

de lucro a lucro
logrado
de logro a logro
lucrado
de lado a lado
lanhado
de lodo a lodo
largado

* * *

sol a sal
sal a sova
sova a suco
suco a sono
sono a sangue

* * *

quem uísque
quem urina
quem feriado
quem faxina
quem volúpia
quem vermina

* * *

carne carniça carnagem
sangragem sangria sangue

* * *

homemmoendahomemmoagem

* * *

ocre
acre
osga
asco

* * *

de míngua a míngua
de magro a magro
de morgue a morgue
de morte a morte

* * *

só moagem
ossomoagem
sem miragem
selvaselvagem

[Haroldo de Campos (in Xadrez de Estrelas. São Paulo: Perspectiva, 1974)]

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