Há 50 anos, Chico Buarque voltava do exílio em Roma

Em 20 de março de 1970, cantor brasileiro era recebido com grande festa no aeroporto do Galeão, vindo de Roma, após 14 meses exilado na Itália

O relógio marcava 8 horas. O dia: 20 de março de 1970. No aeroporto do Galeão, do Rio de Janeiro, uma série de personalidades – como Altamiro Carrilho, Paulinho da Viola, MPB-4, Trio Mocotó, Nelson Motta e Betty Faria – aguardava com expectativa. Muita gente, além de jornalistas e fotógrafos, também esperava, dentro e fora do saguão.

Aquele que todos queriam ver foi o terceiro a descer do avião vindo de Roma. Era Chico Buarque de Hollanda, acompanhado da mulher, Marieta Severo, da filha de 11 meses, Silvia, e da babá Margarita, que veio conhecer o Brasil. Há 50 anos, depois de 14 meses exilado na Itália, o cantor e compositor foi recebido com grande festa.

Altamiro e seu grupo tocaram A Banda. Betty Faria, à frente da torcida Jovem Flu, levou enorme bandeira do Fluminense. Chico até se assustou quando jornalistas furaram o bloqueio e o cercaram. “Tinha que vir até aqui, ver os amigos e dar um mergulho na praia”, disse. Foi preciso a polícia abrir caminho para o cantor chegar à rua, carregado pelos amigos.

A alegria contrastava com o duro período fora de casa. “Em companhia de sua mulher, Marieta Severo, que está esperando bebê, Chico Buarque viajou ontem, às 21h30, diretamente para Roma. (…) Sua estada na Europa deverá prolongar-se até o fim do mês”, noticiou a Folha, em 4 de janeiro de 1969, em reportagem com o título “Chico Buarque foi à Europa”.

Foi durante a viagem que o cantor decidiu morar em Roma. O motivo foi de segurança, devido às fortes ameaças da ditadura. Ao livro Chico Buarque – Para Todos (1999), de Regina Zappa, ele disse que ficou na Itália ao receber aviso de Caetano Veloso – que se exilou na Inglaterra após ser preso por militares. “Lembro da carta do Caetano, levada por Nelsinho Motta, quando Caetano saiu da prisão e foi para Londres. A carta dizia: ‘O tenente amigo mandou dizer para você nem pensar em voltar’.”

O início na Itália até foi calmo. “Em cartas a amigos, Chico diz que continua jogando botão, seu divertimento predileto (além da música, é claro) e sempre que pode joga futebol de salão no time do (cantor italiano) Gianni Morandi”, informou a Folha em 25 de fevereiro de 1969.

Mas houve muitas dificuldades. “Na Itália, comecei um trabalho e, posso dizer, não é fácil ficar conhecido de uma hora para outra. Nossa música é muito respeitada, mas é muito difícil firmá-la mesmo”, disse ele. Na capital italiana, Chico compôs Samba e Amor, Apesar de Você, Agora Falando Sério e Samba de Orly.

Ao mesmo tempo, além de escrever para O Pasquim e até jogar futebol, foi na Itália que viu o nascimento de Silvia. “Falavam que, se voltássemos, Chico iria do aeroporto para o xadrez. Tínhamos as roupas do corpo, umas tantas nas malas e nada mais. Mesmo grávida de minha primeira filha, a Silvinha, perdi 8 kg em dois meses! Precisei arranjar ginecologista às pressas”, disse Marieta, à revista Cláudia, em 2013.

Antes de decidir retornar ao Brasil, Chico recebeu – conforme relatou ao livro de Regina Zappa – um conselho de Vinicius de Moraes, o de voltar ao país fazendo barulho. E isso não faltou já na sua chegada.

Com informações da Folha de S.Paulo

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