Um pouco de tudo

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Foto: Ana Mary C. Cavalcante

Do lado de cá, os tempos continuam difíceis, ainda que os números oficiais e os decretos governamentais os têm amenizado. A economia precisa seguir; os pais precisam trabalhar e, nessa lógica, precisam dividir a criação dos filhos com professores e avós; as pessoas precisam se encontrar porque nascemos para o encontro – “embora haja tanto desencontro pela vida”, não é, Vinicius? Para uma cidade ou para alguém, o mar e o abraço fazem falta – eu sei, eu também sinto.

São muitas precisões, tantas e tantas. Por essas e outras, é que eu ainda escrevo que os tempos continuam difíceis, do lado de cá. Especialmente, em um país como o Brasil (onde nasci e moro), desigual e desleal na distribuição de bens e de poderes e no acesso à educação e à saúde – e que tem retrocedido mais e mais. Os tempos continuam difíceis, do lado de cá. Especialmente, em quem tem o cuidado por uma mãe, um pai, uma fragilidade.

A pandemia de Covid-19 não deu trégua aos sentimentos. O novo coronavírus está no mundo, nas mãos, no meio do caminho, nos medos. Entre nós. Invisível, por mais que a ciência já o tenha reconhecido, segue atacando e matando. Surpreendendo. O que se sabe sobre o vírus e a doença é o que se sabe sobre um inimigo na guerra: que ele existe, ataca e mata. Mas, como? Quais são as estratégias do vírus, da doença e da morte?

O conhecimento capaz de responder todas as perguntas, feito arma contrária, não temos ainda. E eu só posso desejar que, no dia em que ele houver, que seja universal. Que seja também – e urgentemente – para os pobres, para a minha mãe, para minha irmã, para meus amigos, para meus conhecidos, para os seus, para toda vida.

Por esses dias, quando os números oficiais e os decretos governamentais amenizam os tempos que continuam difíceis, eu lido com a escolha de abrir a porta da gaiola, ou não. Minha mãe, de 79 anos, gosta do mundo da rua. Minha mãe é uma pessoa que tem medo de dormir e não acordar, tem medo de perder tempo. Sempre gostou da festa que é o presente, que é a própria vida severina. Agora – “presa” em casa há cinco, seis meses – mais do que nunca.

Acontece que familiares e amigas dela andam se libertando por conta própria, criando verdades para suas consciências e para acreditar que tudo já está passando, que não é mais preciso ficar em casa, que basta usar máscara e não tocar nos olhos ou em ninguém, que o álcool em gel na bolsa é o suficiente. E, um dos mais fortes argumentos: que basta, para não enlouquecer.

Eu queria que fosse assim, sinceramente, porque a tristeza e a solidão também são invisíveis, adoecem e matam. Mas eu ainda desconfio que não seja assim. Coisa de jornalista, misturada com coisa de filha.

Minha mãe tem autonomia e as filhas criadas, graças a Deus. É viúva e pode escolher por si. Nós é quem trancamos a gaiola, ainda que ela fique no jardim, na varanda e nas janelas. Acontece que eu já não sei se devo manter minha mãe na gaiola, enquanto os pares arriscam voos em plena guerra. Entre mais de 110 mil mortos (em cinco meses) pela Covid-19, no Brasil, e a vida que segue (a todo custo), eu mesma já não sei o que é estar a salvo.

Hoje, minha mãe amanheceu contando que sonhou com as amigas do crochê. “Com todo mundo”, citou uma por uma, igual criança quando conta da volta às aulas depois das férias mais longas. Eu não disse nada, apenas cirandamos juntas com as palavras dela.

Minha mãe não pede para sair, na pandemia é mais obediente do que desobediente (amém!), mas eu sei que ela quer; a liberdade é uma fome. Nesta manhã, olhando minha mãe sonhar aos 79 anos, igual criança de 7, 9 anos, eu vi o quanto de vida ela tem (ou temos, cada ser vivo) – sem “ainda”; apenas, se tem. Enquanto se vive é desmensurado.

Olhando para minha mãe, pela brecha do sonho, eu me lembrei de uma frase antiga que escrevi, logo nas primeiras crônicas para jornal e que, vez em quando, cruza comigo: é por amar demais o passarinho que, um dia, abrimos a porta da gaiola. Será que esse dia é hoje? Ou amanhã? Ou depois? Algumas vezes, eu queria que a vida tivesse um manual de instruções.

Mas, porque não tem, vou descobrindo e refazendo a manufatura de cada dia. Errando, acertando, tentando. Neste post, publico mais uma parte do inventário particular das horas, que eu tenho feito nesta quarentena. É um pouco do mundo de casa, registrado no Instagram @anadossuspiros. Cartões-postais desse tempo tão difícil quanto significativo, anotações para eu ler nas travessias. Um pouco de tudo.

(é mais ou menos assim)
(pequena prece de hoje)
que possamos encontrar a fé, para nos resgatar a nós mesmxs, e o amor, para resgatar o próximo – ou que a fé e o amor nos encontrem, nas nossas perdas. pelos tempos e tempos.
(cotidiano-postal)
antes do expediente.
(quarentena, dia 5 de maio)
minha mãe é o meu começo. meu primeiro olhar, meu primeiro sorriso, meu primeiro abraço, meu primeiro desenho, minha primeira palavra, meu primeiro passo, minha primeira fome, meu primeiro amor, minha primeira saudade. a partir dela, fui pro mundo sabendo o caminho de volta – do olhar, do abraço, da palavra, do passo, do amor, da saudade… volto sempre que preciso. até porque as mães, incrivelmente, parecem mesmo que sabem tudo: onde deixamos as chaves, os sonhos; onde fica o céu, a dor, a cura. (a minha sabe; acho que ela tem o celular de Deus). minha mãe é o farol que me ilumina a paciência, a força, a fé, a resiliência e, a partir dela, eu navego em vida-aberta. ela só nunca me diz que eu sou bonita ou sabida, que é pra eu poder descobrir o que sou e como me (re)faço. ela não é mãe-coruja, tá mais pra “passarinheira”, dessas que ensinam a voar. eu gosto dela desse jeito mesmo, apressado, entre dois expedientes; esquecendo de apagar a luz; matando barata; contando a própria história pra embalar a noite; sem conto de fadas; sem manual de maternidade; querendo mais tempo para arrumar a casa e para todos os carnavais.
hoje, eu vou ter que inventar um aniversário pra minha mãe, porque ela não dispensa festa, nem que seja um faz-de-conta. graças a Deus, minha mãe mantém a lucidez sobre a alegria e, assim, sobre viver. vai ser um bolo no jardim, só ela, eu e minha irmã. como há muito tempo não nos encontrávamos.
(minha irmã fez o arroz, eu fiz as fotos e minha mãe fez a festa)
as flores chegaram,
as mensagens chegaram,
os salgadinhos chegaram,
os doces chegaram.
o amor sempre dá um jeito de vir. a qualquer tempo.
eu acho.
p.s. obrigada a cada um, familiar ou amigo, que fez minha mãe sorrir hoje. todos os abraços foram recebidos, todos os afetos foram renovados. e a nossa esperança, equilibrista, sabe que toda vida tem que continuar.
paz, saúde e bem,
abraços daqui,
(a lição da natureza)
flor do deserto,
no improvável tempo.
(cotidiano-postal)
antes do próximo texto.
(cotidiano-postal)
(apurado do tempo)
só tem uma saída:
acreditar
no nascer,
no renascer,
no existir,
no resistir.
a vida tem uma força própria
que nos habita,
nos transforma
e nos inaugura
todas as vezes.
eu acho.

Fonte: Blog Ana dos Suspiros

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