Urariano Mota: Dia de Joaquim Cardozo

Quem foi capaz de cantar o amor do mundo com estes versos, pode muito bem esquecer que um dia calculou Brasília

Se tivéssemos uma civilização, hoje (26) no Brasil inteiro seria lembrado o dia do nascimento de Joaquim Cardozo. Percorro nas asas do Google os jornais e revistas, mas não encontro uma só linha publicada de ontem para hoje sobre o amoroso e grande poeta. Eu sei que para muitos, e não só longe de Pernambuco, sei de viva experiência que entre os recifenses também mais de uma pessoa perguntará: quem?

Tão confusos a pergunta nos deixa, que temos vontade de encher de raios a boca da horda do presidente. Então respondo de outra maneira.

Para engrandecer Joaquim Cardozo, sempre se fala que ele foi engenheiro calculista dos melhores do mundo, que foi ele quem achou a tangente perfeita para sustentar as curvas de Oscar Niemeyer. E que era poliglota, conhecedor de muitas e muitas línguas, até do sânscrito e do mandarim. Ah, tudo isso é grande, sem dúvida. Ah, mas tudo isso é também admiração de basbaque A poesia que ele escreveu é que é a sua maior qualidade. Quem foi capaz de cantar o amor do mundo com estes versos, pode muito bem esquecer que um dia calculou Brasília.

*

Tarde no Recife

Tarde no Recife.
Da ponta Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem
[dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas
[do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.

*

Poema dedicado a Maria Luíza

Eu te quero a ti e somente,
Eu que compreendia a beleza das prostitutas e dos portos,
Que sofri a violência da solidão no meio das multidões das grandes ruas,
Que vi paisagens do céu erguidas sobre a noite do mais alto e puro mar,
Que errei por muito tempo nos jardins deliciosos dos amores incertos e obscuros.

Eu te quero a ti sempre e somente.
Eu te quero a ti pura e tranquila
Preciosa entre todas as mulheres
Que como rosas, como lírios, sobre mim se debruçaram,
Entre aquelas que de mim se aperceberam
Ao doce esmaecer das tardes luminosas.
Eu te quero a ti pura e tranquila.
Nos espelhos da memória refletida
Pelas horas do meu tempo transpareces
E o Sol do meu deserto te ilumina
E a noite do meu sono te adormece.
Eu te pressinto no silêncio das verdades que ignoro,
No silêncio e no delírio dos desejos impossíveis:
através de um céu sem nuvens, do céu que é um prisma azul
Eu te revelarei a cor da tempestade
E a refração serena do meu mais íntimo segredo…

Em horizontes de ouro e de basalto
Indicarei o teu caminho
Entre flores de luar…
Farei uma lenda sobre teus cabelos…
Soneto Somente
Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde a água doce, o massapê proíbe.

Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites, com negridão de corvo.
Antes que ao porto do seu céu arribe

A lua. Assim só tenho essa planície…
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.

De glórias e de alturas e universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
– Nessa várzea nasci, nasci somente.

*

Recordações de Tramataia

Eu vi nascer as luas fictícias
Que fazem surgir no espaço a curva das marés.
Garças brancas voavam sobre os altos mangues de
[Tramataia.
Bandos de Jandaias passavam sobre os coqueiros doidos
de Tramataia.
E havia um desejo de gente na casa de farinha e nos
[mucambos vazios de Tramataia
Todavia! Todavia!
Eu gostava de olhar as nuvens grandes, brancas e sólidas.
Eu tinha o encanto esportivo de nadar e de dormir.
Se eu morresse agora,
Se eu morresse precisamente.
Neste momento,
Duas boas lembranças levaria:
A visão do mar do alto da Misericórdia de Olinda ao
[nascer do verão.
E a saudade de Josefa.
A pequena namorada do meu amigo de Tramataia”

Em silêncio, o poeta sobrevive ao presente bárbaro.

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