Urariano Mota: Gagárin nos 60 anos do primeiro voo do homem

O que nestes 60 anos do primeiro homem em órbita está oculto foi um acontecimento de repercussão mundial, popular até o ponto de se tornar sucesso do carnaval do Recife em 1962

Neste 12 abril, todo o mundo comemora os 60 anos do primeiro voo do homem ao redor da Terra. E rende glórias permanentes a Gagárin, o russo, o nosso primeiro astronauta – ou cosmonauta, como era chamado na União Soviética. Em 1961, ele assim contou a sua volta à Terra:

“Quando um fazendeiro e filha me viram no meu traje espacial e com o paraquedas ao lado enquanto eu andava, eles começaram a se afastar de medo. Eu disse a eles: ‘Não tenham medo, sou um cidadão soviético como vocês, que desceu do espaço e precisa encontrar um telefone para ligar para Moscou!’”

No entanto, o que nestes 60 anos do primeiro homem em órbita está oculto foi um acontecimento de repercussão mundial, popular até o ponto de se tornar sucesso do carnaval do Recife em 1962. No Dicionário Amoroso do Recife, publiquei:

yuri gagarin | Painting of Yuri Gagarin and Valentina Teresh… | Flickr
Os soviéticos Yuri Gagárin e Valentina Tereshkova, primeiro homem e primeira mulher a viajarem para o espaço

Quando pesquisamos, em todos os lugares nos informam que Yuri Gagárin foi o primeiro homem a completar uma volta em torno da Terra, lá fora no espaço, em 12 de abril de 1961. Nesse dia de 61, Yuri Gagárin deu um grande salto para a humanidade. Um feito heroico, histórico, é o que lemos nas fontes mais universais. Dizem até que a pequena estatura de Gagárin contribuiu para o seu grande feito, uma vez que ele circulou em uma nave apertada. Mas a gente consulta, pesquisa nos mais diversos arquivos, e ninguém fala que o astronauta Yuri Gagárin passou uma vez no Recife.

Entendam. Não quero dizer que a nave soviética tenha passado acima do Brasil em 1961, e numa pontinha do litoral sobre o Recife, quem sabe lá em cima de Água Fria, do espaço Gagárin nos tenha enviado um “oi” em russo, algo como um “pri-vet”. Eu quero dizer é que o magnífico Yuri Gagárin, depois de 1961, mais precisamente no carnaval de 1962, passou em disco de vinil e terrestre em todas as rádios de Pernambuco. Em selo Mocambo, da fábrica de discos Rozenblit, o seu nome foi sucesso absoluto nas emissoras do Recife e na boca do povo já um mês antes do carnaval. E mais ainda, do sábado de zé-pereira em diante.

Para os muito jovens ou os mais velhos de fora do Recife, esclareço que Yuri Gagárin foi homenageado com um frevo-canção de se cantar até o enjoo, que não chegava nunca. Sabem aquela música que a gente repete, canta, cantarola até quando não se dá conta, feito anúncio de coca-cola? Assim foi com o frevo-canção A Lua Disse, de Gildo Branco. Como o livro em papel não tem a voz do frevo no rádio, copio a letra aqui:

Gagárin subiu, subiu, subiu
Foi até ao espaço sideral
Chegou perto da lua e sorriu
“Vou embora pro Brasil
Que o negócio é carnaval”

A lua disse
“Não vá, demore mais
Já ouvi que lá na Terra
Querem me passar pra trás”
Mas o Gagá nada ligou e deu no pé
“Vou mesmo pro Brasil
Eu quero é conhecer Pelé”

Vocês entendem agora como Gagárin passou pelo Recife. Eu deveria mesmo dizer que o astronauta não passou uma vez só no Recife. Continua a passar até hoje, enquanto carnaval houver na terra para escutar “Gagárin subiu, subiu, subiu, foi até ao espaço sideral”. Os jornais, os arquivos informam sempre que Gagárin, ao ver o mundo lá do alto, foi poético ao falar “a Terra é azul”. É verdade. Mas a ciência erra ao insinuar que a lua teria ficado muda e imóvel diante do astronauta. Segundo Gildo Branco, naquele momento máximo a lua disse: “Não vá, demore mais, já ouvi que lá na Terra querem me passar pra trás”. Ao que Gagárin respondeu: “Vou embora pro Brasil, que o negócio é carnaval”.

Ninguém fala de Gagárin no Recife, mas a Lua disse:

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