Operação Compliance Zero desmonta esquema bilionário de fraudes
A operação não apenas resultou na intervenção do BC, mas também culminou na prisão do principal controlador do banco, Daniel Vorcaro, de 41 anos
Publicado 18/11/2025 15:24 | Editado 18/11/2025 16:35
O Banco Central do Brasil decretou, nesta terça-feira (18), a liquidação extrajudicial do Banco Master. A decisão aconteceu após a deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal, que desvendou um intrincado esquema de fraudes e prendeu o controlador do banco Daniel Vorcari. A investigação apura crimes graves contra o Sistema Financeiro Nacional, incluindo gestão fraudulenta, gestão temerária e formação de organização criminosa.
A ação policial mobilizou agentes em cinco estados e resultou no cumprimento de 25 mandados de busca e apreensão, um dos quais ocorreu na sede do Banco de Brasília (BRB), instituição também envolvida na teia de operações. A Justiça, por sua vez, determinou o bloqueio de bens dos acusados no montante de R$ 12,2 bilhões, uma medida essencial para tentar garantir o ressarcimento dos prejuízos estimados.
Banqueiro preso quando embarcava em jatinho
O ápice da ação policial se deu com as seis prisões efetuadas, sendo quatro preventivas e duas temporárias. Daniel Vorcaro foi detido na noite de segunda-feira (17) no Aeroporto de Guarulhos, enquanto embarcava em jatinho, numa atitude que a Polícia Federal interpretou como tentativa de fuga. Entre as evidências que sustentam a operação está a descoberta de um mecanismo de fraude baseado na emissão de carteiras de crédito sem lastro real: títulos falsos que foram vendidos e substituídos após a fiscalização do Banco Central. Estima-se que a fraude atinja o patamar de R$ 12 bilhões.
O modelo de negócios do Banco Master, marcado por uma agressividade incomum no mercado, oferecia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas elevadas, chegando a até 140% do CDI, muito acima da média praticada (próxima a 100%). Essa estratégia, agora sob intensa suspeita de irregularidades, é um dos focos da investigação da Polícia Federal.
Como reflexo imediato da crise, o BRB, supostamente envolvido nas irregularidades, teve o presidente, Paulo Henrique Costa, e o diretor financeiro afastados temporariamente por determinação da PF. O banco estatal chegou a fazer uma oferta de cerca de R$ 2 bilhões pela compra de 58% do capital do Banco Master em março de 2025, sem contudo ter o controle acionário majoritário (49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais), em uma transação que englobava ativos estimados entre R$ 23 bilhões e R$ 50 bilhões. A operação suspeita foi impedida pelo Banco Central.
Com a liquidação decretada, a Empresa de Gestão de Ativos, vinculada ao Ministério da Fazenda, deve assumir a função de liquidante. Para os correntistas, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) assegura a proteção dos depósitos, garantindo o ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF.
Relações políticas na investigação
A Polícia também estaria investigando se os laços estreitos que Vorcaro mantém com figuras políticas em Brasília estariam sendo usados em uma operação de socorro ao banco para encobrir as fraudes. As relações passam pelo ex-sócio de Vorcara, Augusto Lima, que deixou a sociedade no Master em 2025 e assumiu o controle do Banco Pleno (ex-Voiter).
Lima é casado com Flávia Peres (ex-Arruda), ex-deputada federal pelo MDB (2019-2023), ex-ministra da Secretaria de Governo no governo Bolsonaro e aliada próxima do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), cujo governo controla 71,92% do Banco de Brasília. Vorcaro mantém relações estreitas com outro ex-ministro de Bolsonaro, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), atual presidente nacional do Progressistas (PP) e com Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil (União).
Esses partidos formaram, em agosto, a Federação União Progressista (UPb). Há suspeitas não comprovadas de que os parlamentares fizeram pressão política sobre Ibaneis Rocha para a tentativa de aquisição do banco que já estaria insolvente.