Museu da Memória do Chile: arte e direitos humanos como prática democrática
Referência latino-americana, o museu em Santiago articula memória da ditadura, arte e educação em direitos humanos como pilares da democracia.
Publicado 10/01/2026 10:54 | Editado 13/01/2026 08:16
Em passagem pelo Chile em cobertura especial para o Portal Vermelho, visitamos o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago. O espaço é hoje uma das principais referências da América Latina na preservação da memória das violações cometidas durante a ditadura civil-militar chilena e na promoção de uma cultura democrática fundada nos direitos humanos.
Fomos recebidos pela diretora executiva do museu, Maria Fernanda García, que nos concedeu uma longa e cuidadosa entrevista sobre o papel da memória, da arte e da educação em direitos humanos em um mundo atravessado por disputas de narrativa, negacionismos e novas formas de violência de Estado.
A conversa percorreu sua trajetória pessoal, o sentido político e pedagógico do museu, o diálogo com juventudes, o protagonismo das mulheres, as conexões latino-americanas e os desafios contemporâneos da democracia. A seguir, publicamos trechos da entrevista, mantendo o conteúdo central das falas.
Para começar, você poderia se apresentar e contar um pouco da sua trajetória até chegar à direção do Museu da Memória e dos Direitos Humanos?

Sou Maria Fernanda García, diretora executiva do Museu da Memória e dos Direitos Humanos. Minha formação inicial é nas artes cênicas. Fui atriz, depois estudei Administração Cultural e fiz parte da minha formação na Espanha, na Universidade Complutense de Madrid, onde vivi por cinco anos. Paralelamente, também sou professora de flamenco, uma prática que atravessa toda a minha vida cultural. Minha trajetória sempre combinou arte, gestão cultural e políticas públicas. Trabalhei na direção de centros culturais, fundações e museus, sempre com foco na promoção cultural, nos direitos humanos e, especialmente, na valorização da perspectiva das mulheres. Há três anos assumi a direção do museu por meio de concurso público, o que considero muito importante do ponto de vista institucional e democrático.
O museu nasce a partir das recomendações das Comissões da Verdade. Qual é o papel do museu na sociedade chilena hoje?
O museu nasce como uma forma de reparação simbólica do Estado chileno diante das violações massivas de direitos humanos cometidas durante a ditadura. Ele surge para responder às vítimas, aos familiares, mas também a um país profundamente fraturado. Desde o início, o museu não foi pensado apenas como um espaço de memória do passado, mas como um espaço de educação permanente em direitos humanos. A memória não é algo fixo, ela se reconstrói coletivamente. Por isso, o museu trabalha para que a sociedade chilena possa compreender o que aconteceu, refletir sobre isso e assumir compromissos éticos para o presente e o futuro.
Em um contexto de disputas de narrativa e negacionismo, como o museu lida com essas tensões?
Vivemos uma verdadeira guerra de narrativas no mundo. Sempre haverá pessoas que tentarão relativizar ou negar os fatos, mesmo diante de documentação ampla e provas históricas. O nosso papel é trabalhar com rigor, documentação, arquivos e testemunhos. Aqui tudo está documentado. Isso não impede que existam discursos negacionistas, assim como existem pessoas que acreditam que a Terra é plana apesar de todas as evidências científicas. Mas o museu se posiciona com clareza: há fatos, há documentos, há vítimas, há responsabilidades do Estado. A educação em direitos humanos é fundamental justamente para enfrentar essas tentativas de distorção da história.
A arte ocupa um lugar central no museu. Por que essa escolha?
Porque a arte é uma linguagem que chega onde muitas vezes o discurso racional não alcança. Ela entra pelo inconsciente, pelo afeto, pelo coração. A arte permite abordar temas extremamente duros de uma forma que gera empatia, reflexão e ação. O teatro, a música, as artes visuais permitem mostrar horrores sem banalizá-los, provocando perguntas, emoções e processos de aprendizagem pessoal. A arte não substitui a informação, mas a aprofunda e a humaniza.

O museu tem muitos projetos voltados para crianças e juventude. Como dialogar com gerações que não viveram a ditadura?
Cada idade exige uma linguagem diferente. Com crianças pequenas, trabalhamos valores como respeito, cuidado coletivo, solidariedade. Não falamos diretamente de tortura, mas de convivência, de empatia, de direitos. Com jovens, abordamos temas mais complexos, como desaparecimento forçado, migração, exílio, violência de Estado. Muitos jovens se conectam a essas experiências porque vivem hoje deslocamentos, migrações forçadas, rupturas familiares. A memória dialoga com o presente.
Projetos com rap, música eletrônica, grafite e outras linguagens urbanas têm aproximado novos públicos do museu. Que impacto isso gera?
É transformador. Muitos jovens nunca tinham entrado em um museu porque o viam como um espaço elitista, distante, formal. Quando o museu se abre a essas linguagens, eles se sentem acolhidos. Temos programas em que jovens artistas passam meses em formação, criando obras a partir da memória, da democracia, do respeito. O crescimento artístico e pessoal é impressionante. Muitos hoje estão gravando discos, produzindo obras, levando a memória para outros espaços.
A perspectiva de gênero é muito presente no museu. Por quê?
Porque durante muito tempo as mulheres apareceram apenas como vítimas secundárias da história. Aqui trabalhamos para mostrar as mulheres como protagonistas da resistência, da organização política, da defesa da vida e da democracia. Incorporar a perspectiva de gênero é fundamental para compreender a dimensão completa das violações e também das lutas. As mulheres estiveram e estão na linha de frente da defesa dos direitos humanos.
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Como o museu dialoga com outras experiências da América Latina?
De forma permanente. As ditaduras latino-americanas compartilham métodos, alianças e impactos sociais. Trabalhamos com exposições e intercâmbios que abordam Argentina, Brasil, Colômbia, entre outros países. A memória não é apenas nacional. Ela é continental. Pensar a América Latina é pensar histórias cruzadas de violência, mas também de resistência e solidariedade.
Em um mundo marcado por guerras e crises humanitárias, qual o papel dos espaços de memória hoje?
Os espaços de memória são fundamentais para fortalecer a democracia. Eles não existem para o luto eterno, mas para a ação consciente. Não é necessário estar em um governo para defender os direitos humanos. Cada pessoa pode e deve se comprometer. A memória nos lembra que nada está garantido para sempre. Direitos precisam ser defendidos todos os dias.
Que mensagem você deixaria às juventudes latino-americanas?
Que não percam a esperança. Vivemos tempos difíceis, mas também cheios de possibilidades. A democracia se constrói com participação, organização, solidariedade e compromisso ético. Os direitos humanos devem ser o piso mínimo da nossa convivência. A partir daí, podemos construir sociedades mais justas, igualitárias e humanas.
Uma memória que segue viva
Ao final da visita, ficou evidente que o Museu da Memória e dos Direitos Humanos não é apenas um espaço de recordação, mas um território ativo de disputa simbólica, educação política e produção de sentido para o presente. Em tempos de ameaças autoritárias e apagamentos históricos, espaços como este seguem sendo fundamentais para que a memória não seja apenas lembrança, mas compromisso.