Acordo para presença de tropas dos EUA no Paraguai ameaça fronteira com o Brasil

Tratado SOFA foi aprovado pelo Congresso e assinado por Peña; pacto concede imunidades a militares norte-americanos e abre caminho para atuação próxima à fronteira brasileira

Santiago Peña se reúne com oficial do Comando Sul dos Estados Unidos em encontro que reforça a cooperação militar entre Washington e o Paraguai. Foto: Reprodução

O Congresso do Paraguai aprovou nesta terça-feira um acordo militar com os Estados Unidos que abre caminho para a presença de tropas, equipamentos e pessoal norte-americano no país, com acesso a áreas próximas à fronteira com o Brasil pelo Paraná. 

O tratado, conhecido como Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA, na sigla em inglês), foi aprovado na Câmara dos Deputados por 53 votos a favor, 8 contra e 4 abstenções, após ter recebido aval do Senado na semana passada.

Após a tramitação no Congresso, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, assinou o acordo com o secretário adjunto de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, no Chile. 

A reunião ocorreu durante a viagem de Peña para participar da posse do novo presidente chileno, José Antonio Kast.

Santiago Peña exibe documento do acordo SOFA ao lado do secretário adjunto de Estado dos EUA, Christopher Landau, após assinatura do tratado que permite presença militar norte-americana no Paraguai. Foto: Reprodução

A medida provoca atenção no Brasil, já que o Paraguai faz fronteira direta com o país e o acordo abre espaço para a atuação de forças militares norte-americanas na região. Analistas da área de defesa acompanham o tema diante da possibilidade de presença da maior potência militar do mundo em áreas próximas ao território brasileiro.

O acordo estabelece um marco jurídico para a atuação de forças dos Estados Unidos em território paraguaio e prevê atividades como treinamento militar, exercícios conjuntos e cooperação em segurança. 

O tratado também concede imunidades e prerrogativas a militares e contratistas norte-americanos e segue agora para promulgação do Poder Executivo paraguaio para entrar em vigor.

Pelo texto do acordo, militares dos Estados Unidos poderão introduzir no Paraguai equipamentos, suprimentos e materiais militares vinculados às atividades previstas no tratado, com isenção de inspeções e controles aduaneiros. 

O dispositivo também estabelece que esse pessoal ficará sujeito à jurisdição penal norte-americana, não à justiça paraguaia, e receberá imunidades equivalentes às concedidas a funcionários de missões diplomáticas.

O acordo autoriza ainda que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos opere sistemas próprios de telecomunicações no território paraguaio, incluindo o uso de frequências do espectro radioelétrico sem custos. 

Na prática, isso permite que as forças norte-americanas mantenham redes de comunicação independentes das infraestruturas nacionais.

O texto também garante liberdade de circulação ao pessoal militar dos Estados Unidos, com acesso a instalações, meios de transporte e áreas necessárias às atividades previstas no tratado. 

A presença ocorre em um país que integra a região da Tríplice Fronteira — que envolve áreas próximas a Foz do Iguaçu — considerada por autoridades norte-americanas um foco de atenção em sua política de segurança para a América Latina.

Os EUA firmaram o acordo SOFA com vários países e com diferentes graus de imunidade aos militares estadunidenses. Entre eles estão Equador, Guatemala, Bahamas, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Filipinas, Bulgária, Polônia, Hungria, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido.

A tramitação do acordo no Congresso paraguaio foi marcada por críticas de parlamentares da oposição, que apontaram riscos à soberania nacional. 

Apesar da ampla maioria, o debate incluiu questionamentos sobre as prerrogativas concedidas às forças norte-americanas e sobre os efeitos do acordo para a autonomia institucional do país.

Entre os críticos esteve o deputado independente Raúl Benítez, que reconheceu a importância da cooperação internacional, mas defendeu que ela deve ocorrer em bases equilibradas. 

“Nós acreditamos na cooperação internacional, mas também acreditamos em Estados fortes, em instituições respeitadas e em uma soberania democrática real”, afirmou o parlamentar durante o debate legislativo.

Outro opositor ao tratado, o deputado liberal Adrián ‘Billy’ Vaesken, classificou a aprovação como uma concessão excessiva aos Estados Unidos. 

Segundo ele, “dar passagem a este acordo é ser um verdadeiro legionário, um verdadeiro antipatriota”, argumentando que o texto concede imunidade penal e benefícios fiscais a militares, diplomatas e civis norte-americanos que atuem no país. 

Vaesken também alertou que o pacto poderia abrir caminho para o acesso estrangeiro a informações estratégicas sobre recursos naturais paraguaios, citando reservas de água subterrânea, ouro, lítio e urânio.

A aprovação do acordo também gerou reação de setores da sociedade civil paraguaia, que criticaram tanto o conteúdo do tratado quanto a rapidez com que ele foi aprovado pelo Congresso. 

Organizações de direitos humanos afirmam que o pacto amplia privilégios concedidos a forças estrangeiras e pode comprometer a soberania jurídica do país.

Em comunicado divulgado após a aprovação inicial do acordo no Senado, a organização Serviço Paz y Justicia (Serpaj) — entidade latino-americana dedicada à defesa e promoção dos direitos humanos — afirmou que a segurança nacional não pode ser construída com a presença de tropas estrangeiras protegidas por imunidades legais. 

“A segurança de um povo não se constrói importando tropas nem blindando agentes estrangeiros com imunidades diplomáticas”, declarou a entidade.

A organização também criticou os efeitos políticos e jurídicos do tratado, afirmando que o acordo representa um precedente perigoso para a autonomia do país. Segundo o comunicado, a aliança “não representa um avanço em segurança, mas a formalização de uma geopolítica da impunidade que vulnera os pilares de nossa dignidade nacional”.

A aprovação do acordo ocorre em meio a uma estratégia mais ampla de Washington para ampliar sua presença militar e capacidade de intervenção na América Latina, região historicamente tratada pelos Estados Unidos como área de influência estratégica.

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