Curta “Me desculpa, Nathan” expõe o preço da escala 6×1
Entre exaustão, culpa e ausência, curta criado por estudantes da Faetec escancara o impacto da escala 6×1 na vida de mães solo
Publicado 08/05/2026 13:18 | Editado 08/05/2026 14:18
Sem verba, sem patrocínio e financiado com venda de brigadeiros, o curta-metragem “Me desculpa, Nathan” nasceu como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Faetec Adolpho Bloch e acabou se tornando um retrato contundente da precarização do trabalho no Brasil.
Exibido no Estação Net Rio, em Botafogo, o filme lotou a sala e mobilizou o público ao abordar a rotina de uma mãe solo atravessada pela escala 6×1.
Dirigido por Kauã Pereira, o curta acompanha Thamires, personagem interpretada pela atriz Isabelle Brum, uma mulher que passa quase toda a semana longe do filho para conseguir sobreviver. O filho Nathan, fica sob os cuidados da avó enquanto a mãe enfrenta jornadas exaustivas de trabalho e deslocamento.
Cinema de guerrilha e identificação popular impulsionaram repercussão do curta
O impacto da obra ultrapassou rapidamente o ambiente escolar. Segundo Matheus Ferreira, responsável pela montagem e finalização do filme, a equipe percebeu essa dimensão quando começaram os convites para exibições e as publicações nas redes sobre o curta. “A identificação das pessoas com a história gera um debate sobre o tema, que por si só já é político”, afirmou.
A produção do filme também reflete a realidade que ele denuncia. Sem orçamento formal, a equipe precisou improvisar em praticamente todas as etapas do processo. “Muitas cenas tiveram que ser adaptadas para que fossem possíveis com os equipamentos que tínhamos”, contou Matheus.
As produtoras Bárbara Callado e Emanuelle Reis relatam que um dos maiores desafios foi viabilizar as gravações em espaços públicos e lidar com a escassez de equipamentos disponíveis na escola.
“A produção contou apenas com cerca de 250 reais”, explicou Emanuelle Reis. Inicialmente, a ideia era arrecadar dinheiro vendendo brigadeiros dentro da própria Faetec. “Alguns alunos já faziam isso e decidimos entrar na concorrência”, relembrou a produtora. Como o valor arrecadado não foi suficiente, a equipe precisou buscar outras alternativas para manter o projeto vivo.
Experiências pessoais ajudaram a construir o retrato emocional de Thamires
A origem da história também atravessa experiências pessoais da equipe. Emanuelle Reis contou que cresceu sentindo os impactos da escala 6×1 dentro de casa, antes mesmo de entender o que aquilo significava politicamente. “A escala 6×1 interferiu muito na minha infância”, afirmou. Foi a partir dessa memória que surgiu a proposta de transformar a exaustão da classe trabalhadora em narrativa cinematográfica. “Não imaginávamos que o trabalho teria um significado tão grande para tantas pessoas.”
A dimensão emocional do curta aparece principalmente na interpretação de Isabelle. A atriz revelou que encontrou na personagem um reflexo do próprio esgotamento físico e mental vivido durante o período das filmagens.
“Eu estava passando por uma crise de insônia de três meses. Caminhava sem chão, só porque tinha que caminhar. E a Thamires é justamente isso”, afirmou.
A atriz contou que encontrou na personagem um reflexo direto do próprio esgotamento emocional vivido naquele período. “Meu cansaço era minha falta de mim”, disse. Segundo Isabelle, Thamires representa mulheres que seguem vivendo mesmo sem tempo para existir. “Ela não tem tempo para ver o filho crescer, não tem tempo para descansar, não tem tempo para si.”
Mesmo sem ser mãe, Isabelle buscou referências em mulheres negras próximas de sua realidade. “Muitas vezes, até dentro de casamentos, são mães solo”, disse. Para ela, o título do filme carrega uma dimensão profunda de culpa e ausência produzida pelas condições de trabalho.
“Esse ‘me desculpa’ é quase um ‘me perdoa por eu não ter vida’. Me desculpa por eu não conseguir existir para você e nem para mim”, declarou.
Para Isabelle, o pedido de desculpas presente no título reflete não apenas a maternidade, mas também a impossibilidade de viver plenamente diante da precarização do trabalho. “Como é que você pede desculpa por não poder viver? Isso é muito injusto”, afirmou. A atriz acredita que o curta funciona como um “pedido coletivo de socorro” de trabalhadores brasileiros, especialmente mulheres negras e mães solo.
“O descanso deveria ser um direito acessível para todas as pessoas, mas não é”, afirmou. “A arte tem a responsabilidade de denunciar e escancarar que isso precisa mudar.”
Sem verba e fora do circuito tradicional, curta da Faetec conquista público e projeção nacional

Para Bárbara Callado, a repercussão de “Me desculpa, Nathan” também ajuda a romper o estigma em torno das produções realizadas em cursos técnicos e por jovens periféricos. “Ver a repercussão do projeto mostra que produções independentes feitas dentro de cursos técnicos também têm potência e qualidade para alcançar pessoas”, afirmou.
Segundo a produtora, o reconhecimento do curta incentiva outros estudantes a acreditarem nas próprias ideias, mesmo diante das limitações materiais. “Também ajuda a dar mais visibilidade para os cursos técnicos e para os talentos que existem dentro deles.. Isso incentiva outros estudantes a acreditarem mais nas próprias ideias”, afirmou.
Ao transformar a exaustão cotidiana em linguagem cinematográfica, “Me desculpa, Nathan” escancara os impactos da precarização do trabalho na vida da classe trabalhadora. Em apenas alguns minutos, o curta expõe uma pergunta que representa milhões de trabalhadores brasileiros: quanto custa sobreviver quando já não sobra tempo para viver?
Me desculpa, Nathan” está disponível gratuitamente no YouTube neste link.