Repressão a estudantes amplia crise e mobiliza universidades de SP

Ato massivo no centro de SP em meio à greve nas universidades é resposta do movimento estudantil à precarização do governo Tarcísio

Repressão aos estudantes amplia o protesto das entidades das universidade estaduais

A violência empregada pelo governo de São Paulo contra o movimento estudantil da Universidade de São Paulo (USP) produziu um efeito bumerangue, ampliando a mobilização e consolidando uma frente ampla de apoio que transbordou os muros das universidades. Nesta segunda-feira (11), o ato massivo que ocupou as ruas do centro da capital paulista não reuniu apenas estudantes, professores e funcionários das três universidades estaduais (USP, Unesp e Unicamp); a manifestação ganhou o peso institucional e o respaldo de parlamentares progressistas e das principais centrais sindicais do país, como a CTB e a CUT.

A leitura política compartilhada por lideranças como a presidente interina do PCdoB Nádia Campeão e o deputado federal Orlando Silva (PCdoB) é de que a truculência policial e o desrespeito aos ritos jurídicos são ferramentas de um projeto deliberado de desmonte. O sucateamento denunciado pelos grevistas é uma estratégia pensada pela gestão de Tarcísio de Freitas para desestruturar a excelência das universidades paulistas e reduzir o papel do Estado na educação. “A presença e a repressão brutal da PM na USP, a mando do governador Tarcísio de Freitas é inaceitável. Universidade tem autonomia , é lugar de diálogo, democracia e formação de cidadania. Todo apoio aos estudantes em luta”, publicou Nádia Campeão nas redes sociais.

As centrais sindicais, como Força Sindical, CTB, UGT, CSB, NCST, Intersindical e CSP-Conlutas, unificaram o discurso em nota coletiva para manifestar apoio à greve e condenar a repressão policial contra os manifestantes. Este cenário de violência é compreendido pelos movimentos sociais como um reflexo da política educacional da gestão de Tarcísio de Freitas, marcada pelo avanço do desmonte da rede pública em São Paulo. Entre os pontos centrais de desgaste estão a implementação de 100 escolas cívico-militares – iniciada em fevereiro de 2026 sob críticas pela imposição de uma lógica hierárquica e disciplinar -, cortes no orçamento constitucional, a precarização do trabalho docente por meio de alta rotatividade e a plataformização do ensino – que aboliu as reunião pedagógicas.

Para as entidades sindicais e estudantis, essas medidas compõem uma estratégia de enfraquecimento da autonomia pedagógica para viabilizar a terceirização e a privatização de serviços essenciais, o que tem motivado a convocação de novos protestos em defesa do ensino público.

Extrema direita contra a educação

O acirramento dessa crise política atingiu seu ápice com a tentativa de repressão direta ao ato desta segunda-feira (11). A presença dos vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge (União Brasil), que compareceram ao local como a intenção de provocar e agredir os manifestantes, serviu de pretexto para uma nova investida da Polícia Militar. A dispersão com bombas de gás lacrimogêneo e a violência policial no centro da cidade acabaram por reforçar a solidariedade das centrais sindicais e de parlamentares, que enxergam na resistência dos estudantes uma barreira fundamental contra o desmonte dos serviços essenciais. O apoio institucional ao movimento cresceu exponencialmente, com deputados acionando órgãos de controle e o Ministério Público para investigar o uso desproporcional da força e as violações à autonomia universitária registradas nos últimos dias, especialmente após a invasão da Reitoria.

A violência como método de educação de Tarcísio

A história desse impasse jurídico e político remonta à madrugada de domingo (10), quando a Polícia Militar deflagrou uma operação ilegal para desocupar o prédio administrativo da USP. Por volta das 4h15, cerca de 50 policiais invadiram o prédio sem apresentar qualquer mandado judicial de reintegração de posse. A ação, que resultou na detenção de quatro alunos e deixou ao menos cinco feridos após o uso de bombas de efeito moral, ignorou os ritos processuais exigidos pela legislação. Os estudantes ocupavam o local desde quinta-feira (7) para exigir pautas básicas como o reajuste das bolsas de auxílio e a contratação urgente de docentes. A Reitoria da USP adotou uma postura ambígua, alegando que a operação policial ocorreu sem comunicação prévia, embora tenha admitido que informou a Secretaria de Segurança Pública (SSP) sobre a ocupação ainda no dia 7. A SSP, por sua vez, tentou justificar a invasão sob a tese de “flagrante delito”, argumento que juristas e parlamentares apontam como tecnicamente nulo em contextos de ocupação estudantil.

Para o professor da Faculdade de Direito da USP e desembargador aposentado, Jorge Luiz Souto Maior, a operação de domingo (10) configura uma flagrante ilegalidade que fere a autonomia constitucional das universidades. O jurista ressaltou que a PM extrapolou seu poder de polícia ao agir como executor de uma reintegração de posse inexistente no mundo jurídico. O entendimento que se consolida na frente parlamentar e sindical é de que a ação policial serviu como instrumento de intimidação política para proteger um governo que prioriza o confronto em detrimento do investimento social. A precarização que move a greve ganhou um símbolo visual com o recente desabamento de parte do teto da Biblioteca da Faculdade de Educação (FEUSP). Para os movimentos e parlamentares apoiadores, o desabamento é a prova cabal de que o sucateamento estrutural é o objetivo final de uma política de Estado que trata a educação pública como caso de polícia. Ao nacionalizar o debate, o movimento estudantil transformou a repressão em uma pauta de resistência democrática contra o desmonte planejado do serviço público paulista.