Rebelião social cresce na Bolívia e Evo Morales propõe eleições em 90 dias
Ex-presidente boliviano defende transição negociada e alerta que militarização por Rodrigo Paz seria “decisão suicida” diante dos protestos e bloqueios em várias regiões do país
Publicado 25/05/2026 13:14 | Editado 26/05/2026 17:12
A rebelião social contra o governo de Rodrigo Paz segue se aprofundando na Bolívia, com bloqueios em ao menos seis departamentos, confrontos com forças de segurança e crescente pressão política pela saída do presidente.
Neste domingo (25), o ex-presidente Evo Morales propôs a convocação de novas eleições em até 90 dias como saída para a crise e advertiu que uma eventual militarização do país seria uma “decisão suicida”.
Morales afirmou, durante seu programa na Rádio Kawsachun Coca, que Paz “tem dois caminhos: uma decisão suicida, a militarização, ou (…) pacificação, transição e eleições em 90 dias”.
O ex-presidente boliviano sustenta que as mobilizações refletem o desgaste social provocado pelas medidas neoliberais adotadas pelo governo desde novembro de 2025, incluindo o fim dos subsídios aos combustíveis e projetos de privatização.
As manifestações, iniciadas no começo de maio por causa da inflação e da escassez de combustível, evoluíram para exigências diretas de renúncia do presidente.
Nas últimas semanas, os protestos se expandiram para regiões como Cochabamba, Santa Cruz, Potosí e Chuquisaca, enquanto bloqueios em estradas passaram a afetar o abastecimento de alimentos, remédios e combustíveis em várias cidades do país.
A Central Operária Boliviana (COB), principal entidade sindical do país, decidiu neste fim de semana não participar de qualquer mesa de diálogo com o governo até que sejam anulados os mandados de prisão contra dirigentes sindicais e libertados trabalhadores detidos nos protestos.
Entre os alvos das ordens de prisão está Mario Argollo, secretário-executivo nacional da entidade.
Segundo a Administradora Boliviana de Estradas, há atualmente 59 bloqueios rodoviários em seis dos nove departamentos bolivianos. No sábado (24), fracassou uma segunda operação policial e militar para liberar a principal estrada entre La Paz e Oruro.
A chamada operação “Corredor Humanitário com Bandeiras Brancas” utilizou tratores, policiais e militares, que chegaram a usar gás lacrimogêneo contra manifestantes. Após a passagem da caravana oficial, os bloqueios foram reinstalados com pedras, terra e troncos.
O Senado boliviano aprovou neste domingo um projeto para eliminar a Lei do Estado de Exceção, norma criada em 2020 que estabelecia limites e mecanismos de controle para medidas extraordinárias adotadas pelo Executivo em situações de crise.
Caso a proposta também seja aprovada pela Câmara dos Deputados, o governo de Rodrigo Paz passará a ter menos restrições legais para decretar estados de exceção e ampliar operações repressivas.
A medida foi impulsionada em meio à pressão de setores empresariais e grupos cívicos ligados à direita boliviana.
O Comitê Pró-Santa Cruz, um dos principais polos opositores ao ciclo político iniciado com Evo Morales, defendeu publicamente a decretação de um “estado de exceção setorizado” para desobstruir as estradas e conter os protestos.
Organizações sociais, sindicatos e entidades de direitos humanos alertaram que a iniciativa pode agravar ainda mais a crise política e abrir espaço para uma escalada repressiva.
Em nota conjunta, a Igreja Católica, a Defensoria do Povo e a Assembleia Permanente de Direitos Humanos de El Alto exigiram o fim da violência, abertura de diálogo e investigação “urgente, independente e transparente” sobre denúncias de feridos, mortos e abusos cometidos durante as operações de segurança.
Ao mesmo tempo, a COB orientou suas bases a garantir passagem irrestrita para ambulâncias, brigadas médicas, profissionais da saúde e transporte de medicamentos em todos os pontos de bloqueio do país.
A entidade afirmou que a mobilização deve preservar “a saúde e a vida” da população, mesmo diante do endurecimento do conflito.
Os protestos reúnem sindicatos, organizações camponesas, indígenas, estudantes, professores e transportadores, em um cenário que remete às grandes insurreições populares bolivianas do início do século 21.
O núcleo das mobilizações é a rejeição ao programa econômico de Rodrigo Paz, acusado pelos manifestantes de desmontar direitos sociais, abrir caminho para privatizações e aprofundar a dependência externa da economia boliviana.
O governo, por sua vez, insiste em responsabilizar Evo Morales pelas mobilizações e afirma que os protestos ameaçam a estabilidade institucional e econômica do país. Morales rejeita as acusações e sustenta que a revolta é resultado direto do descontentamento popular acumulado contra o modelo neoliberal implementado pelo atual governo.