EUA restringem Irã, barram árbitro e ampliam tensão antes da Copa
Medidas contra torcedores iranianos, delegações africanas e profissionais da imprensa colocam política migratória de Trump no centro do Mundial
Publicado 09/06/2026 14:11 | Editado 09/06/2026 14:21
O Irã acusou nesta terça-feira (9) os Estados Unidos de retirar a cota de ingressos destinada aos seus torcedores, ampliando uma série de restrições que já atingiram um árbitro da Somália, jornalistas e integrantes de delegações de países considerados adversários de Washington.
A poucos dias do início da Copa do Mundo, o caso mais delicado envolve justamente a seleção iraniana.
O país enfrenta uma guerra de agressão lançada pelos Estados Unidos e desponta como o principal alvo das medidas migratórias e diplomáticas adotadas pelo governo Donald Trump durante o torneio.
A Federação Iraniana de Futebol afirma que Washington retirou a cota de ingressos destinada à torcida persa, contrariando regras previstas pela Fifa.
Segundo o regulamento da entidade, 8% dos ingressos de cada partida devem ser reservados para comercialização pelas federações das seleções participantes. Em comunicado, a entidade iraniana afirmou que os Estados Unidos voltaram a impedir que torcedores do país acompanhem os jogos da equipe nacional.
“A menos de três dias do início do torneio, os Estados Unidos impedem mais uma vez que torcedores iranianos assistam aos jogos da fase de grupos da seleção. No entanto, de forma inesperada, a cota acordada para a Federação de Futebol do Irã foi retirada”, declarou a federação.
O episódio aprofunda a crise em torno da participação iraniana no Mundial.
Após semanas de incerteza, os jogadores da seleção finalmente receberam autorização para entrar nos Estados Unidos, mas cerca de 15 integrantes da comissão técnica e da direção da equipe tiveram vistos negados ou seguem sem autorização definitiva.
Diante das restrições impostas pelas autoridades norte-americanas, o Irã decidiu transferir sua base da Copa do Arizona para Tijuana, no México, cidade próxima à fronteira. A equipe fará viagens pontuais aos Estados Unidos apenas nos dias das partidas e retornará imediatamente após os jogos.
A Embaixada do Irã em Ancara, na Turquia, onde os vistos foram solicitados, classificou as medidas como “a pior forma possível de interferência política no esporte”.
A situação também levanta questionamentos sobre a própria competitividade esportiva da Copa do Mundo.
Enquanto as demais seleções terão centros fixos de treinamento e períodos contínuos de preparação antes das partidas, o Irã permanecerá baseado no México e fará deslocamentos emergenciais aos Estados Unidos apenas nos dias dos jogos.
Na prática, a equipe disputará o torneio em condições logísticas e esportivas distintas das demais seleções classificadas.
Árbitro somali é barrado e fica fora da Copa
Outro caso que gerou forte repercussão internacional envolve o árbitro somali Omar Artan, que se tornaria o primeiro representante da Somália a atuar em uma Copa do Mundo.
Apesar de possuir visto válido e passaporte diplomático, Artan foi impedido de entrar nos Estados Unidos ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Miami.
Após a negativa, precisou retornar à Turquia e acabou excluído da lista oficial de árbitros do torneio.
A Fifa confirmou a exclusão e afirmou que não interfere nas decisões migratórias do país-sede.
“A Fifa pode confirmar que o oficial de arbitragem Omar Abdulkadir Artan não poderá treinar nem atuar na Copa do Mundo Fifa 2026 após ter sua entrada nos EUA negada”, informou a entidade.
O caso gerou críticas do ministério da Juventude e Esportes da Somália. O conselheiro Clise Aden Abshir afirmou que a decisão fere os princípios de igualdade e mérito esportivo.
“Negar-lhe a entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de arbitrar partidas agendadas prejudica não apenas a sua pessoa, mas também mina o compromisso do futebol com a justiça, o mérito e o espírito do jogo limpo”, declarou à AFP.
Segundo autoridades norte-americanas, a decisão foi tomada com base nas restrições migratórias impostas pelo governo Trump a países incluídos em listas especiais de controle e proibição de viagens.
A Somália está entre as nações atingidas pelas medidas adotadas pela Casa Branca, embora Washington não tenha detalhado oficialmente o motivo específico da negativa contra Artan.
O somali integra o quadro internacional da Fifa desde 2018 e foi eleito o melhor árbitro africano de 2025 pela Confederação Africana de Futebol (CAF).
Delegações enfrentam barreiras migratórias
A delegação do Iraque também teve problemas na entrada nos Estados Unidos. O fotógrafo Talal Saleh teve o acesso negado em Chicago, enquanto o atacante Aymen Hussein, principal jogador da equipe, permaneceu retido por cerca de sete horas antes de ser liberado.
A seleção do Haiti ainda aguarda a emissão de vistos para parte de sua delegação, enquanto jornalistas africanos e iranianos relatam entraves burocráticos e negativas de autorização para cobertura da competição.
A Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) enviou uma carta à Fifa denunciando obstáculos impostos a profissionais de imprensa de diferentes países.
Os controles migratórios e revistas de segurança também passaram a atingir jornalistas e seleções africanas durante a chegada aos Estados Unidos.
A jornalista brasileira Karine Alves, da TV Globo, relatou ter sido submetida a uma abordagem considerada constrangedora durante a imigração norte-americana. Segundo a repórter, agentes exigiram que ela levantasse o cabelo durante a inspeção de entrada no país.
Karine afirmou que o procedimento costuma atingir principalmente mulheres negras e observou que outras colegas não passaram pela mesma situação.
A seleção do Senegal também foi submetida a revistas rigorosas ao desembarcar nos Estados Unidos. Imagens divulgadas por jornalistas esportivos africanos mostram jogadores sendo inspecionados na pista do aeroporto ao lado das bagagens logo após a chegada da delegação.
Trump é vaiado na NBA em meio às críticas
As controvérsias ocorrem em um momento em que Donald Trump tenta utilizar grandes eventos esportivos como vitrine política interna e internacional.
Nesta segunda-feira (8), o presidente norte-americano foi vaiado durante sua presença no jogo das finais da NBA entre New York Knicks e San Antonio Spurs, no Madison Square Garden, em Nova York.
Trump recebeu vaias “ensurdecedoras” ao aparecer no telão da arena durante o hino nacional dos Estados Unidos.
O episódio ocorreu em meio a um forte esquema de segurança montado para a visita presidencial, que bloqueou ruas, restringiu a circulação de torcedores e proibiu eventos públicos tradicionais realizados nos arredores do ginásio durante os playoffs.
Enquanto tenta projetar a Copa do Mundo como parte das celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, Trump enfrenta críticas por transformar o torneio em mais um instrumento de sua política migratória e de confrontação diplomática contra países considerados adversários de Washington.