A Copa de 2026 e o fracasso da diplomacia esportiva

Restrições migratórias, censura de símbolos nacionais e omissão da FIFA colocam em xeque o discurso de integração que sempre marcou o Mundial.

Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Fifa, Gianni Infantino | Foto: Kevin Dietsch/by Getty Images

A Copa do Mundo de 2026 corre o risco de entrar para a história não apenas pelos gols, pelas grandes partidas ou pela disputa do título. Antes mesmo do apito inicial, o torneio já se tornou palco de uma das maiores crises da diplomacia esportiva das últimas décadas.

Em poucas semanas, árbitros foram impedidos de participar da competição, profissionais credenciados foram deportados, delegações sofreram constrangimentos migratórios e até símbolos nacionais foram alvo de censura. Tudo isso sob o olhar complacente da FIFA e em meio ao endurecimento das políticas migratórias e da agenda internacional do governo Donald Trump.

A situação expõe uma contradição cada vez mais difícil de ignorar. Durante décadas, a FIFA vendeu a imagem do futebol como uma linguagem universal, capaz de aproximar povos, culturas e nações. Mas quando governos transformam fronteiras em barreiras para atletas, árbitros, jornalistas e delegações, a entidade parece incapaz de defender os próprios princípios que afirma representar.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu com a seleção do Haiti. A FIFA exigiu alterações no uniforme da equipe ao considerar que referências à Batalha de Vertières, marco da independência haitiana e da luta anticolonial do povo haitiano, configurariam manifestação política. A decisão causou indignação por atingir justamente um dos símbolos mais importantes da história de resistência de um país que nasceu da primeira revolução vitoriosa de pessoas escravizadas das Américas.

Ao mesmo tempo em que se mostra rigorosa para controlar mensagens e símbolos, a FIFA tem adotado uma postura passiva diante de situações muito mais graves.

O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, escolhido para integrar o quadro da Copa do Mundo e considerado um dos principais árbitros africanos da atualidade, foi impedido de ingressar nos Estados Unidos. Em vez de buscar alternativas para garantir sua participação, a entidade limitou-se a afirmar que questões migratórias são de responsabilidade do país-sede.

Situação semelhante ocorreu com um fotógrafo da seleção do Iraque, detido por horas pelas autoridades migratórias estadunidenses antes de ser deportado para Bagdá. Também chamou atenção o tratamento dispensado à delegação do Senegal, submetida a procedimentos de fiscalização ainda na pista do aeroporto ao desembarcar nos Estados Unidos.

Tomados isoladamente, esses episódios poderiam ser tratados como casos administrativos. Em conjunto, porém, revelam um padrão preocupante.

Não parece coincidência que os principais constrangimentos estejam recaindo sobre representantes de países africanos, árabes ou historicamente submetidos à pressão geopolítica dos Estados Unidos. A Copa acontece em um momento de crescente instabilidade internacional, marcado pelo aprofundamento de conflitos e pela manutenção de uma política externa agressiva por parte de Washington.

Nas últimas décadas, os Estados Unidos estiveram diretamente envolvidos em guerras, intervenções militares, sanções econômicas e operações de desestabilização em diferentes regiões do planeta. Do Oriente Médio à África, passando pela Europa Oriental, os impactos dessa política seguem produzindo tensões que afetam milhões de pessoas. Agora, parte dessas tensões invade também o ambiente esportivo.

O mais preocupante é que a FIFA parece disposta a aceitar essa realidade como algo natural. A mesma entidade que impõe regras rígidas sobre uniformes, manifestações de atletas e protocolos institucionais demonstra enorme tolerância quando as restrições partem do governo do principal país-sede da competição.

Essa postura torna-se ainda mais contraditória diante da aproximação política entre a FIFA e Donald Trump. Há poucos meses, o presidente da entidade entregou ao mandatário estadunidense o FIFA Peace Award, prêmio concedido em nome da promoção da paz por meio do esporte. O gesto soou desconectado da realidade de um governo que tem aprofundado políticas de exclusão migratória e mantido posição central em alguns dos principais focos de tensão do cenário internacional.

Felizmente, nem todos os países envolvidos na organização da Copa têm seguido o mesmo caminho. Canadá e México têm demonstrado disposição para preservar o caráter internacional do torneio. O governo mexicano articulou condições para que a seleção do Irã possa minimizar sua permanência em território estadunidense durante a competição. Já autoridades canadenses manifestaram apoio para receber profissionais afetados pelas restrições impostas pelos Estados Unidos, incluindo o árbitro somali barrado pela imigração.

Essas iniciativas demonstram que existe uma escolha a ser feita. A Copa do Mundo pode ser um instrumento de aproximação entre os povos ou mais uma ferramenta de reprodução das desigualdades e disputas geopolíticas do nosso tempo.

O futebol não está acima da política. Nunca esteve. Mas existe uma diferença fundamental entre reconhecer o caráter político do esporte e permitir que interesses de uma potência determinem quem pode ou não participar do maior evento esportivo do planeta.

Ao aceitar passivamente que barreiras migratórias, vetos e constrangimentos diplomáticos interfiram na competição, a FIFA abandona o papel de promotora do intercâmbio entre os povos e se torna cúmplice de um processo de exclusão incompatível com a própria história da Copa do Mundo.

Se pretende continuar afirmando que o futebol une o mundo, a entidade precisará demonstrar isso na prática. Caso contrário, a Copa de 2026 poderá ser lembrada não como a celebração da diversidade que promete ser, mas como o torneio em que a diplomacia esportiva foi derrotada pelas fronteiras, pelos interesses geopolíticos e pela omissão de quem deveria defender o caráter universal do esporte.

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