Após resistir à guerra, Irã começa a desmontar regime de sanções dos EUA

Flexibilização das sanções permite retomada das exportações de petróleo e acesso a ativos bloqueados, enquanto Teerã negocia a remoção gradual de décadas de restrições econômicas

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O governo iraniano iniciou nesta segunda-feira (23) uma das negociações mais importantes das últimas décadas: a tentativa de recuperar o acesso a ativos congelados no exterior e desmontar gradualmente o amplo sistema de sanções imposto pelos Estados Unidos desde a Revolução Islâmica de 1979.

O tema esteve no centro das conversas realizadas em Bürgenstock, na Suíça, entre representantes de Washington e Teerã, como parte da implementação do memorando assinado na semana passada pelos presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian.

Embora um acordo definitivo ainda esteja distante, algumas medidas concretas já começaram a entrar em vigor.

A principal delas foi a decisão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos de conceder uma licença temporária de 60 dias suspendendo parte das sanções relacionadas ao setor petrolífero iraniano.

A autorização permite que o Irã produza, transporte e venda petróleo, derivados e produtos petroquímicos até 21 de agosto, além de receber pagamentos por essas exportações.

Na prática, trata-se do maior afrouxamento das sanções petrolíferas norte-americanas desde a Revolução Islâmica.

Segundo autoridades iranianas, a medida já representa o primeiro passo para restaurar parte das receitas externas do país.

O chanceler Abbas Araghchi afirmou que as negociações garantiram a suspensão temporária das restrições às exportações de petróleo e petroquímicos, além da liberação inicial de ativos iranianos bloqueados no exterior e do início de um plano internacional de reconstrução econômica.

A questão dos recursos congelados é uma das prioridades de Teerã.

Durante décadas, bilhões de dólares pertencentes ao Estado iraniano ficaram retidos em bancos estrangeiros devido às sanções norte-americanas e internacionais.

Autoridades envolvidas nas negociações indicam que os Estados Unidos aceitaram iniciar a liberação gradual desses valores.

A Al Jazeera informou que a primeira etapa prevê a liberação de aproximadamente US$12 bilhões em ativos iranianos bloqueados.

Além disso, negociadores dos dois países discutem mecanismos permanentes para administrar esses recursos.

O vice-presidente norte-americano JD Vance afirmou que foi criado um modelo pelo qual Estados Unidos e Catar participariam da supervisão de parte dos fundos desbloqueados.

Segundo ele, os recursos poderiam ser utilizados inicialmente para a compra de produtos agrícolas norte-americanos.

Teerã, porém, rejeita qualquer limitação desse tipo.

O presidente do Banco Central do Irã, Abdolnaser Hemmati, declarou que os recursos liberados não estarão vinculados exclusivamente à compra de produtos dos Estados Unidos e poderão ser utilizados também para a aquisição de outros bens permitidos pelas regras internacionais.

As negociações também envolvem a remoção progressiva de restrições bancárias, de seguros marítimos e de transporte internacional.

Especialistas avaliam que essas medidas podem ter impacto econômico ainda maior do que a própria liberação dos ativos congelados.

Atualmente, grande parte do comércio exterior iraniano depende de sistemas paralelos de pagamento, intermediários financeiros e mecanismos informais criados para contornar as sanções.

A retomada de operações bancárias convencionais reduziria custos, facilitaria investimentos e ampliaria o acesso do país ao mercado internacional.

No setor energético, o potencial é ainda mais significativo.

Analistas citados pela imprensa econômica norte-americana estimam que a suspensão das restrições pode desbloquear cerca de 67 milhões de barris de petróleo iraniano atualmente estocados e aguardando autorização para comercialização.

Dependendo dos preços internacionais, isso poderia gerar entre US$8 bilhões e US$9 bilhões em receitas adicionais para Teerã.

O principal beneficiário imediato tende a ser o mercado chinês.

Atualmente, cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano têm a China como destino.

Com a flexibilização das sanções, refinarias chinesas poderão ampliar compras e utilizar canais financeiros formais para realizar pagamentos, reduzindo custos e acelerando operações.

Apesar dos avanços, o caminho para a remoção definitiva das sanções permanece longo.

Grande parte das medidas impostas ao Irã não depende apenas de decisões presidenciais dos Estados Unidos.

Diversas restrições foram aprovadas pelo Congresso norte-americano e exigiriam alterações legislativas para serem eliminadas permanentemente.

Além disso, bancos, seguradoras e grandes empresas internacionais ainda demonstram cautela diante da possibilidade de mudanças políticas futuras em Washington.

Por isso, as negociações dos próximos 60 dias serão decisivas.

Do ponto de vista iraniano, a prioridade imediata é garantir que os compromissos econômicos já anunciados sejam efetivamente implementados.

Somente depois disso Teerã pretende avançar para as discussões mais sensíveis do acordo definitivo, incluindo o programa nuclear iraniano, o regime permanente de sanções e os mecanismos de supervisão internacional.

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