Trump pode ser o ‘Gorbachev americano’ e acelerar o declínio dos EUA, diz Jabbour
Análise destaca como ações impulsivas do líder norte-americano favorecem avanços estratégicos da China. Os chineses enxergam Trump do mesmo modo que viram Bolsonaro: uma aberração passageira
Publicado 19/09/2025 13:41 | Editado 19/09/2025 13:42
Em entrevista recente ao jornalista Juca Kfouri, o geógrafo Elias Jabbour — professor da UERJ, militante do PCdoB e um dos principais estudiosos do desenvolvimento chinês — ofereceu uma leitura contundente sobre o cenário geopolítico atual. Com mais de três décadas dedicadas à análise da ascensão chinesa, Jabbour compartilhou como intelectuais em Pequim interpretam o segundo mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025. Para eles, Trump não representa uma ameaça existencial, mas sim uma figura transitória, uma anomalia histórica que pode, inadvertidamente, acelerar o declínio relativo dos Estados Unidos no sistema internacional.
Segundo Jabbour, os chineses enxergam Trump do mesmo modo que viram Bolsonaro: uma aberração passageira, que interrompe momentaneamente o curso histórico, mas que não altera a direção estratégica de longo prazo. “Eles veem o Bolsonaro como uma figura tétrica que chega ao poder, mas depois aquele país volta à normalidade”, afirmou. Essa visão está profundamente enraizada no materialismo histórico, que sustenta que as contradições internas dos sistemas capitalistas — especialmente em sua fase imperialista — inevitavelmente conduzem ao seu enfraquecimento. Enquanto Trump intensifica tarifas contra produtos chineses e sanciona empresas de tecnologia, Pequim mantém serenidade, apostando na paciência estratégica e na continuidade de seu projeto nacional.
Trump como Gorbachev: o declínio como legado
A confiança chinesa não é infundada. Desde o início de 2025, a China tem se beneficiado das divisões internas nos EUA, da polarização política e da instabilidade econômica. Ao mesmo tempo, avança em inovação tecnológica, consolida alianças no Sul Global e amplia sua influência sem recorrer à confrontação direta. Para Jabbour, líderes como Trump surgem em momentos de crise sistêmica e funcionam como catalisadores do colapso — assim como Gorbachev, cujas reformas aceleraram o fim da União Soviética. “O Trump pode se transformar num Gorbachev americano, um cara que vai destruir de vez o chamado sonho americano”, afirmou.
Gorbachev, ao implementar a perestroika e a glasnost, perdeu o controle central e precipitou a dissolução do bloco socialista. Trump, ao adotar o isolacionismo, o nacionalismo exacerbado e o desmonte de alianças internacionais, segue caminho semelhante. Em vez de modernizar os EUA, suas políticas aprofundam o isolamento e abrem espaço para a ascensão chinesa. Ao tentar “resetar” o sistema internacional, o presidente americano acaba por marginalizar seu próprio país.
O jogo de soma zero e a paciência estratégica chinesa
Essa leitura se conecta à crítica à mentalidade de “jogo de soma zero” que marca a política externa de Trump. Para ele, o comércio internacional é uma guerra: os EUA só vencem se a China perder. Essa lógica, que ignora a interdependência global, levou à imposição de tarifas bilionárias e sanções tecnológicas, como as aplicadas à Huawei e aos semicondutores. “Isso é funcional para a governança americana no mundo, mas leva ao caos”, observou Jabbour.
Já em oposição, a China promove o “ganha-ganha”, com iniciativas como a Nova Rota da Seda, que fortalecem parcerias e ampliam sua influência sem confrontos diretos. Diante desse cenário, a China adota a estratégia de “jogar parado”. Não se trata de passividade, mas de uma postura calculada, inspirada na tradição de Deng Xiaoping: esconder a força e aguardar o momento certo.
Com a convicção de estar do lado certo da história, Pequim observa o caos ocidental e avança em silêncio. Enquanto os EUA se afundam em guerras comerciais e instabilidade, a China investe em 5G, inteligência artificial e infraestrutura, consolidando sua posição como potência do século XXI. “A China é uma máquina de prever o futuro”, resume Jabbour.
Lições da China para o Brasil
A entrevista de Jabbour vai além da figura de Trump. Ele aborda temas centrais para compreender o modelo chinês: a “democracia não liberal” com alta confiança popular, o contraste com a Índia em indicadores sociais, os investimentos em infraestrutura e a teoria do projetamento — um socialismo moderno que integra micro e macroeconomia. Jabbour também critica a relação Brasil-China, ainda marcada por uma lógica colonial, e aponta a necessidade de uma estratégia nacional de reindustrialização. “Falta visão estratégica de longo prazo para negociar com a China, como na reconstrução de cadeias produtivas destruídas pelo neoliberalismo e Lava Jato”, analisa Jabbour.
Ao rejeitar o rótulo de “imperialismo chinês”, Jabbour destaca o confucionismo como base filosófica da cooperação e da tolerância. A China, segundo ele, não busca expansão, mas estabilidade. Mao Tsé-Tung é preservado como pai da pátria, com seus acertos reconhecidos, ao contrário da URSS com Stalin. A mão de obra barata, que marcou o país há 40 anos, hoje dá lugar a salários superiores aos brasileiros e a um welfare state [ou estado de bem-estar social] em construção. A meta de uma sociedade moderadamente próspera, definida em 1997, foi alcançada em 2021, e o futuro aponta para um PIB per capita rico até 2050, com carbono zero.
Por fim, Jabbour ressalta o papel dos BRICS e da desdolarização como estratégia para romper com a hegemonia americana. A própria política de Trump, ao desvalorizar o dólar e romper alianças, acelera esse processo. Em suas impressões sobre Xangai, Jabbour descreve uma cidade moderna, sem miséria visível, em contraste com o Ocidente — uma imagem que sintetiza o avanço chinês e a decadência americana.