China impõe nova pressão a Trump com controle ampliado das terras raras
Às vésperas da cúpula com Xi Jinping, Trump tenta conter desgaste após ameaçar tarifa de 100%; Tesouro diz que “a tarifa não precisa acontecer” e admite avanço chinês
Publicado 14/10/2025 16:29 | Editado 15/10/2025 17:36
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, confirmou nesta terça-feira (14) que Donald Trump e Xi Jinping devem se reunir no fim de outubro, na Coreia do Sul, durante a cúpula da APEC.
A informação veio após uma semana marcada por forte instabilidade entre as duas maiores economias do mundo, na qual a China ampliou os controles sobre exportações de terras raras e Trump reagiu ameaçando uma tarifa de 100% sobre produtos chineses.
Segundo Bessent, “a tarifa não precisa acontecer”, e as “linhas de comunicação foram reabertas”, o que sinaliza uma tentativa de conter o desgaste político do republicano antes do encontro com o líder chinês.
A decisão de Pequim, anunciada em 9 de outubro, surpreendeu Washington.
Ao incluir cinco novos elementos estratégicos — hólmio, érbio, túlio, európio e itérbio — e impor novas exigências a empresas de semicondutores e defesa, a China mostrou que não cederá ao protecionismo de Trump.
Analistas veem a medida como um movimento calculado para ampliar a margem de manobra de Xi antes da reunião bilateral.
“Isso aumenta o poder de barganha de Pequim antes da esperada cúpula Trump–Xi na Coreia do Sul”, afirmou à Reuters o consultor Tim Zhang, fundador da Edge Research, baseada em Singapura.
As novas regras atingem a base das cadeias industriais de alta tecnologia. A China controla mais de 90% do refino mundial de terras raras, utilizadas em equipamentos de defesa, motores elétricos, semicondutores e turbinas.
A partir de novembro, empresas estrangeiras que utilizem material ou tecnologia chinesa precisarão de licença de exportação, mesmo que não envolvam companhias do país.
O Ministério do Comércio informou que as restrições terão início em 8 de novembro e serão ampliadas em 1º de dezembro, quando passam a incluir também equipamentos de refino e processamento.
Em Washington, a Casa Branca classificou as novas regras como “anunciadas sem aviso prévio” e avaliou que elas buscam “exercer controle sobre as cadeias globais de tecnologia”.
Bessent, por outro lado, adotou um tom mais cauteloso e reconheceu que “a relação, apesar do anúncio da semana passada, está boa”.
O secretário também confirmou que equipes de ambos os países se reuniram no fim de semana, em Washington, à margem das reuniões do FMI e do Banco Mundial, e que houve “comunicações substanciais” entre os negociadores.
A postura firme de Xi Jinping sobre as terras raras expôs os limites da estratégia de chantagem comercial de Trump.
O presidente norte-americano havia usado a ameaça de tarifas de três dígitos para pressionar Pequim, mas acabou confrontado com uma resposta que ampliou o alcance da disputa.
Ao endurecer sobre um insumo essencial à economia digital e à indústria militar, a China deslocou o centro da guerra comercial para o terreno da tecnologia e da soberania produtiva.
Para Neha Mukherjee, analista de terras raras da Benchmark Mineral Intelligence, em entrevista à Reuters, o mundo caminha para um “período de bifurcação estrutural”, no qual a China busca internalizar sua cadeia produtiva — do refino ao desenvolvimento tecnológico —, enquanto os Estados Unidos e seus aliados aceleram esforços para criar sistemas industriais paralelos.
A divisão pode mostrar o início de uma transição da guerra tarifária para uma guerra de cadeias produtivas, com consequências profundas para a economia global.
Em meio às tensões, o Ministério do Comércio chinês reiterou que “os Estados Unidos não podem pedir diálogo enquanto ameaçam novas medidas restritivas”, e que o escopo das restrições é “limitado” e voltado à “segurança e estabilidade das cadeias globais”.
Já o porta-voz do Tesouro norte-americano buscou tranquilizar investidores, afirmando que “as conversas estão em andamento” e que “as tensões foram substancialmente reduzidas”.
O encontro entre Trump e Xi, marcado para o fim do mês, ocorre em um contexto no qual ambos testam a capacidade de impor agendas opostas: o nacionalismo econômico norte-americano e o projeto chinês de soberania tecnológica.
A reação firme de Xi às pressões tarifárias mostra que a China não pretende negociar sob ameaça — e que o cálculo diplomático de Washington, baseado em intimidação, perdeu eficácia.