É de lamber os beiços: São João chegando
Entre receitas afetivas, sabores tradicionais e memórias de família, artigo celebra a riqueza gastronômica que faz das festas juninas um patrimônio cultural nordestino.
Publicado 23/06/2026 13:54
Minha neta, três anos, chegando em minha casa, logo vai dizendo para a avó: “Vovó Lú, gosto de cuscuzinho e carninha!!”
O flocão de milho entremeado com queijo coalho, daquele que derrete na cuscuzeira, uma delícia. Se colocar uma manteiga por cima então!!
O bodinho guisado, prato das tradições nordestinas, refogado com um molho grosso com alho, cebola, tomate e colorau. Não deixem de colocar o coentro e o cominho, lembrem-se que isso é do Nordeste.
São João é sinônimo de boa mesa, de comida de milho. É ela que dá o sentido, com ela se mantém a animação.
No entanto, não é só ele, há de se criar o clima, com música e tira-gostos.
A mesa tem que trazer uns antecedentes para animar. A caninha boa para uma lapada, o amendoim torrado e cozinhado, pode ter também o de casca japonês que é crocante, os queijinhos, onde se sobressaem o de manteiga e o coalho, umas azeitonas para lembrar as tradições portuguesas.
Não se esqueçam do cachorro quente. O nosso, não aquele insosso americanizado. Com carne moída e lingüiça esmiuçada, com vinagrete, sem aquela gororoba de ketchup e mostarda.
Indispensáveis, as espigas de milho. Assado ou cozinhado. Apenas com manteiga e sal esparramados por riba. Se tiver uma fogueira, o assado fica mais gostoso. Mas, não coloque muito perto dela que queima.
Como já dito, o milho é a atração principal. É nele que se baseia a comida da festa.
A pamonha feita de milho verde ralado e embrulhada em palha da espiga. Pode ser salgada ou doce. A salgada, com recheio de queijo e sertaneja lingüiça, minha predileção. A doce, com leite e açúcar, a mais famosa. Às vezes colocam um pouco de coco ralado.
O mungunzá, que os sulistas com falta de boa linguagem, chamam de canjica, com milho branco e calda cremosa de leite de coco e açúcar, quentinho, aquece nosso estômago.
A canjica, chamada de curau nas plagas do sul, com suco de milho verde espremido, leite e açúcar, deve estar bem cremosa. Compro na feirinha de orgânicos, toda a semana, e faz parte do meu café da manhã.
A seção de bolos é verdadeira loucura. No mínimo cinco variedades. Dão gosto ao forró e arrasta pé que domina a musicalidade e dança. Com ingredientes bem regionais. O milho, a macaxeira, o coco, o amendoim.
Meu favorito é o de macaxeira. Bem úmido tipo pudim, com uma casquinha dourada de fora e raspas de coco. Como sempre alguns pedaços.
A tradição pernambucana incorporada no Souza Leão. Muito doce, açúcar era nossa riqueza, virou Patrimônio Cultural de Pernambuco. Massa de mandioca, muita manteiga e ovos, adicionados a um exagero do adoçante.
O Mané Pelado, o mais tradicional bolo de milho. Com queijo meia cura, coco fresco ralado e milho verde. Veio do Brasil Central e aqui se estabeleceu. Nos bolos de milho existem variações, podendo ser cremoso, de liquidificador ou tipo broa, a gosto do freguês.
Pé de Moleque, para mim, é sinônimo de Dona Teresa, a quituteira. Não aquele duro que quebra o dente. Mas o nosso, feito de macaxeira, café forte, rapadura, cravo, canela e castanha de caju. Com gosto marcante, com crocância, com cremosidade.
Por fim, a unanimidade nacional. O Bolo de Rolo. Com camadas finas, com recheio de goiaba. Que dá sentido ao degustar, ao sentir suavidade. Lembro e sinto ainda o paladar do famoso que era feito por Luisa Cardoso, o primeiro que experimentei, faz mais de cinqüenta anos.
Não se esqueçam dos doces em calda, tradições vindas das épocas de engenhos, que, colocados sobre os bolos tornam as iguarias meladas e deliciosas. Adoro os de goiaba e jaca.
Para terminar, não esqueça o licor de jenipapo, podendo também ser de graviola, mangaba, maracujá, tamarindo, umbu e jabuticaba, frutas nossas, bem nossas, sempre preparadas para as festas juninas.
Uma mesa de São João tem história, tem cultura, tem o Nordeste presente.