Fernando Soares: Sério colóquio futriqueiro no Bar São Jorge
Os pauteiros da PressAA, saíram ontem do Bar São Jorge, um tanto borrachos, e voltaram para a redação. Minutos depois, o proprietário do bar ligou para o editor-assaz-atroz-chefe, e contou que, logo que os gazeteiros saíram, dois jornalistas sérios entraram no boteco e desenrolaram um colóquio futriqueiro. Aí, bateu pra nós, pra nós poder bater pra nossa a patota.
Por Fernando Soares Campos*, no Agência Assaz Atroz
Publicado 23/06/2013 16:51
Ainda ontem, telefonaram para nossa redação, dado uma dica perspicaz:
“Tinha manifestante usando a máscara do V, Guy Fawkes, e gritava "Não Violência!". Acho que uma coisa não bate com a outra. Não é bem assim que o personagem acha que as coisas seriam mudadas…”
(Não entendemos bem o que o rapaz quis dizer, mas vale o registro)
Outro ligou e disse:
“Escuta: vocês perceberam que, nos primeiros momentos das manifestações, os telejornais chamavam os vândalos de vândalos mesmo. Logo passaram a chamá-los de minorias radicas. E assim ficaram falando durante muitos dias. Agora passaram a chamá-los pelo verdadeiro nome: bandidos! Alternando com baderneiros. Acho que, se o movimento se reverter em favor do governo, eles vão chamar os caras de incompetentes! O que vocês acham…?”
(A linha caiu)
Nós não achamos nada. Pelo contrário, perdemos celulares, uma minicâmera, e até a Brasília amarela da nossa equipe de reportagem foi esculachada.
Mas vamos ao bate-papo que rolou no Bar São Jorge depois de nossa saída:
Escrevinhador: ― A marcha em São Paulo, nesta quinta-feira, foi convocada pelo MPL, Movimento Passe Livre, para comemorar a vitória obtida com a redução nas tarifas de ônibus e metrô. Era pra ser uma festa. Virou mais uma sintoma preocupante do avanço da extrema-direita nas ruas. Um manifestante mordeu a bandeira do PT. Outras bandeiras foram queimadas. Nenhuma era de partidos de direita, como PSDB ou DEM. Não. O ódio “anti-partido” tem um sentido muito claro.
Náufrago: ― "A revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado, ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução é uma insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra." Não sou fã incondicional do velho Mao Tsé-Tung, mas ele tinha lá seus momentos. Esta frase é uma pérola.
Escrevinhador: ― Eu estava lá. Vi de perto. Como já acontecera em outras manifestações nas últimas duas semanas, grupos organizados e que se dizem “apartidários”, o que, aliás, é um direito de qualquer cidadão, tentaram impedir que os partidos políticos e as organizações sociais erguessem suas bandeiras na avenida Paulista. Agrediram militantes do PSTU, xingaram a turma do PSOL e ameaçaram a militância do PT. Na minha frente, um homem com capacete de motoqueiro e jaqueta de couro tentou bater numa senhora com mais de 60 anos, que carregava uma bandeira vermelha. “O PT não vai sair desse quarteirão, não vamos deixar o PT pisar aqui, é a nossa avenida”, o homem gritava descontrolado.
Náufrago: ― Muitos companheiros estão assustados com o rumo que os protestos de rua tomaram em Sampa. Como a participação da direita fardada foi catastrófica, agora é a direita de jeans que reage ao movimento, com mais argúcia.
Escrevinhador: ― Acho que há bons motivos, sempre, para criticar os partidos. Faz parte da Democracia. O PT, especialmente, pode ser criticado por ter cedido demais aos “acertos de gabinete”. Mas querer impedir, na marra, que partidos e organizações sociais participem de um ato público não tem outro nome: fascismo.
Náufrago: ― E, também, com uma aparente forcinha do PT. Não dá para acreditarmos que o Rui Falcão mandasse militantes embandeirados para o olho do furacão sem prever que seriam hostilizados. Meu palpite é bem outro: ele queria que acontecesse exatamente o que aconteceu.
Escrevinhador: ― Não é nenhum exagero. Quem estava lá na Paulista sentiu de perto. O clima de ódio era tão grande que a manifestação adotou um formato curioso: em uma faixa da avenida, marcharam o MPL, seguido por UJS, UNE, MST e por militantes de partidos como PT, PSOL, PSTU e PCO, estes três bastante críticos em relação a Dilma e ao PT.
Bate-papo editado pelos pauteiros da PressAA.
Bar São Jorge: “Salta um coquetel molotov estupidamente…”
Os periodistas da PressAA, de sacos cheios, cansados de bater cartão de ponto e receber vale em vez de pagamento integral, e não aceitando as desculpas do barão proprietário desta desorganização pasquineira, o qual se prepara para deflagrar um passaralho na redação, alegando que uma crise financeira e econômica assola o Planeta… assim, aderiram aos protestos das multidões e passaram a trabalhar sob regime de greve.
Na hora do almoço, em vez de marmita, os atrozes jornalistas decidiram tentar mais um pendura no Bar São Jorge, onde costumam jogar conversa fora nos happy hours das sextas-feiras.
O proprietário do botequim recebeu os gazetistas escabreado…
…mas acabou cedendo às súplicas dos choramingas.
Sentados e degustando o couvert composto de pão com manteiga e sanduíche de mortadela, rolou um pressuroso papiar dos periodistas pauteiros da PressAA.
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― Então, já chegaram à conclusão sobre a verdadeira origem e o destino dos protestos que abundam e medram… e bota abunda e medra nisso… pelas ruas das principais cidades do Brasil?
― Nós sabemos que essa coisa começou mesmo por causa das elevadas tarifas dos transportes coletivos. Mas agora perderam o controle devido à imensa retirada dos direitos sociais da população nos últimos anos.
― Retirada de direitos sociais?! E desde quando a população desfrutou de plenos direitos sociais?
― Ora, com a transferência da corte portuguesa pra cá, D. João VI abriu os portos às nações amigas, criou o Banco do Brasil pra inglês sacar, mandou construir uma fábrica de pólvora, fundou a Biblioteca Nacional…
― É verdade! E, poucas décadas depois, depois de poucos séculos de chibata, a princesa angelical aboliu a escravidão.
― Mas não fez reforma agrária.
― Claro que não! Muitos jovens abolicionistas eram filhos dos barões escravagistas, eram herdeiros de latifúndios. Uma coisa é expressar gestos fraternais e tentar se redimir dos pecados originais. Outra é abrir mão do suado patrimônio da família, renunciar a heranças…
― Corta essa fita, salta pros dias de hoje. Vocês acham mesmo que o governo atual retirou os direitos sociais da população, como tem esquerdista quiliasta dizendo?
― É como o chapa aí falou: desde quando tivemos plenos direitos sociais?
― Bem ou mal, a segurança pública melhorou.
― Como assim? Não exagera, cara!
― Eu provo. Não faz muito tempo, os protestos de rua eram enfrentados pela polícia com chumbo de verdade. Agora, nas manifestações da classe média, usam balas de borracha. As armas de grosso calibre só podem ser utilizadas nas periferias, em ações de reintegração de posse de lotes favelados, ou no campo, contra índios e invasores de terra.
― Fala sério! Para com essas gozações.
― Isso mesmo, vamos falar sério. Já que lembramos de D. João VI, lembrem-se também de que foi ele quem permitiu atividades de imprensa aqui em Pindorama.
― Pois é! Mas havia censura. Só se podia publicar a favor da realeza. O Correio Braziliense, que era rodado em Londres e enviado pra cá, recebia jabaculê para apoiar a monarquia.
― E nos últimos tempos não houve avanço no setor das comunicações? Não?! Não houve?!
― Houve sim. Agora, o governo tenta cooptar a imprensa destinando as verbas publicitárias para os barões do café-soçaite midiático-nativo, sediado em solo pátrio! Assim, estancou a sangria de divisas. O dinheiro fica aqui mesmo, enterra Brasilis.
― Só vai para os paraísos fiscais o caixa-dois, o por-fora, apesar de ser bufunfa afanada legalmente, através das brechas na legislação.
― Legal, cara! Legal, mermão, legal!
― É dessa forma que corporações detentoras de suportes midiáticos arranjam parceiros além-mar.
― Vamos dar um tempo nessas lorotas, vamos falar seriamente mesmo.
― Tudo bem. Então, alguém responda se for capaz: qual a principal reivindicação dos manifestantes, hoje, nas ruas de todo o Brasil?
― Essa é fácil: passe livre, sem precisar escalar a catraca.
― Tá frio…
― Saúde!
― Ué! Quem espirrou aqui?!
― Tou falando de melhor atendimento nos hospitais e manicômios.
― Acho que é o engavetamento e sepultamento da peque trinta e sete…
― Despoluição do Tietê!
― Higienização dos aeroportos. Aumento das tarifas aéreas, a fim de que a ralé pare de viajar de avião.
― Vocês tão por fora… A principal reivindicação dos revoltosos é o barateamento da gasolina feita com o petróleo do pré-sal.
― Tão é delirando. O que a turba enfurecida quer mesmo é a demonização das comunicações.
― Você quer dizer “democratização”, né?
― Não! É demonização mesmo. Não é demonizá-la amaldiçoando seus efeitos malignos, mas sim torná-la ainda mais demoníaca.
― Num tou te entendo.
― Vamos lá. Perdido no meio do turbilhão, havia um único cartaz com a inscrição: “Queremos a democratização dos meios de comunicação”. Assim mesmo, rimando.
― E então?!
― E então? E então que os vândalos partiram pra cima do coitado que portava o cartaz, tomaram e tascaram fogo no pasquim. Foi aí que o âncora do telejornal deixou de lado a ridícula pieguice de dizer que a maioria é cândida, bonachona, e que os terroristas são minorias radicais… O cara perdeu as estribeiras e gritou furibundo: “Era um terrorista com uma mochila preta nas costas! Mas os pacíficos manifestantes perderam a paciência com ele”.
O ar condicionado do Bar São Jorge está pifado há anos. O calor das fogueiras nas ruas irradiou-se até o interior do boteco, aumentando a temperatura a um nível insuportável. Um periodista já um tanto borracho gritou para o dono do boteco:
― Salta uma cerveja estupidamente…
Raimundo, o garçom rápido no gatilho, arremessou uma garrafa, que colidiu violentamente com a testa do freguês. Este se esborrachou no chão: Pluft! Estendido no meio do salão, o gazetista da PressAA completou:
― …gelada, cara! Gelada!
Fernando Soares Campos é jornalista e editor chefe do blog AAA – Agência Assaz Atroz