Brasil

24 de outubro de 2016 - 13h33

Pipocando em Campo Grande

 Primeiro grito do carnaval campo-grandense 2017, na Praça Aquidauana  Primeiro grito do carnaval campo-grandense 2017, na Praça Aquidauana

Quem abriu a manifestação foi o Teatro Imaginário Maracangalha, grupo de teatro de rua, convidado especialmente para o evento. Depois do cortejo, o batuque correu solto, por conta das meninas e meninos do Calcinha Molhada. Na praça, manifestações livres de capoeira, grupos de batucada e gente do funk, tudo misturado com comidas de rua – de tapioca a risoto com ervas e, claro, muito isoporzinho de cerveja.

                                                 
                                                               
Banda do Bloco Calcinha Molhada
                                                  
História é bom, e eu gosto

O resgate do carnaval de rua em Campo Grande tem início em meados da década de 2000, com o pioneiro Cordão Valu, fundado em 2006, mas o fenômeno foi nacional. Nessa década, pipocaram por todo o país manifestações populares independentes do mercado carnavalesco, inclusive no Rio de Janeiro, retomando a tradição de rua. Segundo o jornalista e professor de história Oscar Rocha, o movimento eclode exatamente na metrópole carioca, onde paradoxalmente convivem a grande indústria do samba e a grande massa popular dela alijada. 

                                                      Paulo Duarte brinda a arte que liberta da escravidão econômica
Paulo Duarte Paes, pesquisador e estudioso de Artes, professor da UFMS, relembra: “Em 2002, 2003, saíamos com fantasias hilárias, enfiávamo-nos no desfile oficial dos blocos, até ganhamos prêmios, mas era um pequeno grupo, pessoal do teatro, foi um embrião, uma semente. Hoje, em Campo Grande, é uma febre, cada dia um grupo diferente aparece, isso é uma energia, fonte de alegria, catarse coletiva, sintonia de felicidade!”

Pipoca

O termo pipocar é adequado ao fenômeno, pois remete à “pipoca”, palavra que designa, no Nordeste do país, o grupo de pessoas que fica fora da folia dos trios elétricos, distanciado por uma corda que separa os foliões com indumentárias compradas (abadás) da turbamulta que não pode pagar pela fantasia e acompanha a festa “do lado de fora”, ou seja, os excluídos. Esse tipo de manifestação dominou a cena entre fins de 1980 e início de 1990 na região e depois se estendeu pelo território nacional.

Com o tempo, percebeu-se que desse lado desenvolvia-se tanto a folia quanto as relações econômicas entre essa camada da sociedade. E a “pipoca” começou a parecer mais atraente e divertida, além de estabelecer relações de circulação de mercadoria e geração de renda entre a população mais pobre.

Campão

Em Campo Grande, onde nunca houve trios elétricos, a opção do poder público foi importar a atração, o que ficou conhecido como o “carnaval da Fernando Correa da Costa”, mantido durante muitos anos como alternativa às festas fechadas dos clubes, às quais somente tinham acesso os grupos sociais a eles pertencentes (que se conte a história da União dos Sargentos, Círculo Militar, Rádio Clube, Surian, Sírio-Libanês, Noroeste, os mais famosos, entre outros).

Em 2006, fruto de várias tentativas anteriores (como as narradas pelo professor Paulo Duarte) e de foliões dispostos a ganhar as ruas, surge o Cordão Valu, organizado pela professora Silvana Valu e seu marido, o bancário Jefferson Contar, um eterno sonhador de um carnaval campo-grandense. Em 1996, ele já havia organizado o bloco “Litorina 411”, alusão à influência histórica da ferrovia NOB misturada à eleição municipal daquele ano, que deu a vitória a André Puccinelli contra Zeca do PT por exatos 411 votos, num momento de graves denúncias de compra de votos e corrupção eleitoral.



A produtora cultural Fernanda Teixeira, que leva a filha às manifestações carnavalescas, sentencia: “O carnaval de rua em Campo Grande está em um momento ótimo com os blocos independentes. As pessoas estão tomando gosto por ocupar os espaços públicos, pela liberdade que só a rua possibilita. Os eventos em locais fechados e cercados são muito limitadores, com regras rígidas e muitas vezes desnecessárias.”

Agora

Hoje, a história é outra. Campo Grande tem carnaval de rua, desde o maior dos blocos, o pioneiro Cordão Valu, que no carnaval de 2016 reuniu mais de seis mil foliões, até os mais recentes, como o Calcinha Molhada, que abriu a folia campo-grandense para a próxima temporada, reunindo centenas de foliões na Praça Aquidauana no último fim de semana.

Os blocos carnavalescos são variados, uns ligados a movimentos culturais, outros a escolas de samba tradicionais, alguns a grupos musicais. Campo Grande hoje tem, além do pioneiro Cordão Valu, que fortalece a tradição das marchinhas, das fantasias e do cortejo a pé, uma gama de atrações de vários estilos.

Entre outros, está o Capivara Blasé, segundo maior bloco em número de participantes no último carnaval, estruturado por integrantes do grupo teatral Mercado Cênico; o Evoé Baco, do grupo de teatro de rua Imaginário Maracangalha (ele próprio participando também como bloco de carnaval) e o Vai Quem Vem, mais recente, idealizado pelo músico Vinil Moraes, que atrai um público ligado a pop, rock, reggae e uma mistura de ritmos nacionais e internacionais. Só para citar alguns. Já existe uma liga de blocos de rua, e o pessoal está organizado.

Política na folia

Blocos e cordões não se vinculam a matizes partidários, no entanto, não existe despolitização, pelo contrário. A vereadora Luiza Ribeiro fundou o bloco “Põe na minha urna”, chamando a atenção para a necessidade de eleger mulheres aos cargos públicos, e sai em vários grupos, sempre apontado para o tema.

A União Brasileira de Mulheres – UBM-MS saiu no último desfile do Cordão Valu com o “Bloco de Todas”, divulgando o combate à violência contra a mulher. Cleuza Pedrosa, integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, declarou que a violência e a desigualdade de gênero permeiam a sociedade; estão em todas as classes e lugares. “Por isso, o combate a elas também deve se dar nas manifestações culturais, nas ruas e nos bairros”, diz a feminista.                
                                                                                                                                                                 

Tiago Botelho, jurista e liderança política em MS na resistência ao golpe de Estado no país, vê na brincadeira carnavalesca um “suspiro” de democracia. “É um momento de alegria democrática, manifestação num espaço livre e gratuito, em que homens e mulheres, gays, lésbicas, brancos, negros, trabalhadores, pobres, gente de classe média, todos podem se manifestar.” Para ele, na ausência do poder público, que se nega a garantir esses espaços, o carnaval de rua é “motivado pela vontade da sociedade de se manifestar”.

Sambo, logo existo – tem intelectual no samba

Doutor em História Antiga pela Universidade de Lisboa, Leandro Mendonça Barbosa diz que na gênese ocidental dos cortejos havia, além de louvar divindades ou acontecimentos (a colheita, por exemplo) fora de um espaço privado (lar ou templo), a intenção de contestar normas vigentes ou governamentais. “Na origem, o cortejo tinha caráter contestatório, levava para a rua reivindicações não contempladas nos espaços tradicionais de decisão.”

                                                               
É por esse aspecto que o ator e diretor Fernando Cruz se identifica com as manifestações carnavalescas. Morador de Campo Grande desde 1998, ele avalia que o carnaval da cidade estava na ordem inversa, pois, como expressão popular, tem de vir de baixo para cima. “Hoje é outra história, o Cordão Valu é um divisor de águas, firmou a marca de que é possível fazer um carnaval popular, desvinculado dos conceitos do mercado, numa perspectiva de ocupação coletiva do espaço público, um ato político”, afirma o artista.

A interpretação do significado da festa é compartilhada pelo professor Paulo Duarte Paes, que vê no carnaval uma relação dialética entre o interesse do mercado e a busca por manifestações livres. “Quanto mais a arte se desvincula desse interesse mercantil, mais é autêntica”, analisa o pesquisador. “A arte sempre buscou alternativas à escravidão econômica, assim essas manifestações de rua em Campo Grande têm um sentido histórico”, finaliza.

Pra todos os gostos

A festa só começou. Esta foi a primeira manifestação. No dia 29, já tem o tradicional grito de carnaval do Cordão Valu, e os outros grupos também preparam sua folia. Até 2017, as águas vão rolar, que se abram as alas pra todo mundo sassaricar, porque Campo Grande tem samba no pé.




Ana Cláudia Salomão

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais