Mídia

27 de agosto de 2017 - 13h00

Seminário no MA: triunfo do golpe revela derrota na disputa midiática 


Karlos Geromy
Franklin Martins participou do seminário. Ele foi ministro da secretaria de comunicação social no governo Lula Franklin Martins participou do seminário. Ele foi ministro da secretaria de comunicação social no governo Lula
Dedicado a discutir os erros, acertos e desafios da comunicação nas administrações públicas, o evento contou com a presença de Franklin Martins. Para o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência durante o governo Lula, o evento marca superação de uma fase de discutir baseado em slogans para discutir problemas concretos. Um avanço do movimento pela democratização da comunicação, em sua avaliação.

Sobre a sua passagem pela Secom, Martins afirma que não existe receita de bolo para comunicação em qualquer governo. Apesar disso, o jornalista pontua: “É na política que você vai perder ou ganhar. Tem gente que faz a disputa, do nosso lado, que ganha a eleição e baixa a bola. Como se a disputa política fosse compreensiva na eleição, mas depois os oponentes descessem do palanque. Uma vez que se abaixa a guarda, o outro lado, com seu aparelho midiático e de Estado, impõe a agenda dele”.

“Falei ao Lula, antes de aceitar o convite para ministro, que teríamos problema se não enfrentássemos o debate de ideias”, relata. “Todo dia, Lula perdia de 5x0 da imprensa, porque a bola era deles, o juiz era deles, o estádio era deles. Falei pra ele que, se ele combatesse, poderia perder, pelo menos, por um placar menor. Passou a falar todo dia pra imprensa”.

Quanto à partidarização e o enviesamento da mídia privada, Martins alerta: quem tem projetos de inclusão e justiça social tem que estar preparado para enfrentar o massacre midiático. “Temos uma ilusão de que a verdade prevalecerá, com ou sem luta política. Essa ideia é um desastre, pois não prevalecerá. A verdade só prevalece se for exposta em cada ambiente político, em cada disputa, em cada momento, até vencer”.

Na visão do ex-ministro, a batalha não pode terminar na eleição. “O essencial é que o partido, a coligação, o presidente, precisam entender que não haverá boa vontade por parte dos inimigos”, opina. “Na conjuntura atual, quem está ao lado do povo é inimigo a ser destruído. Precisamos disputar o povo, conscientizar o povo, e isso não pode ser só no período eleitoral. No período eleitoral, a disputa é de alta intensidade. Mas não pode morrer nos quatro anos seguintes”.

Presidente do Centro de Estudos Barão de Itararé, Altamiro Borges considera que o triunfo do golpe é uma radiografia da incompreensão da esquerda quanto à importância da disputa midiática. “O golpe ganha contornos dramáticos. É um processo de desmanche, de regressão civilizatória. Destruição completa do pouco que se conquistou, descreve. “A derrota política foi dura, mas temos que atentar para a derrota na batalha de ideias na sociedade. Eles jogaram no ataque o tempo todo, e venceram. Essa derrota na disputa por hegemonia, uma componente fundamental é a comunicação.

No segundo mandato de Lula, houve avanços importantes, opina o blogueiro. Mas nos dois mandatos de Dilma, foram só retrocessos. Apesar disso, não aprendemos com essa derrota, avalia. “Fomos pesquisar as várias prefeituras do campo progressista na preparação deste seminário. É frustrante. Páginas desatualizadas, serviços invisíveis, e-mail que não funciona, telefone que não atende”, conta.

A impressão que dá, na opinião de Borges, é que, no geral, as secretarias de comunicação continuam com o modelo tradicional: mexer com publicidade já consolidada com os grandes grupos de comunicação e fazer assessoria de imprensa – “às vezes bem mequetrefe”.
Por outro lado, o jornalista destaca casos que podem servir de referência para as administrações públicas. “Claro que há belíssimas experiências. Uma das principais é a Secretaria de Comunicação da Bahia. No Maranhão, começa a se desenhar uma experiência interessante. Maricá é outro caso: forjando grande vitória em um cenário de total dificuldade”, enumera.
“Se disputar hegemonia é essencial na disputa política, temos que debater mais a comunicação. Se cada prefeitura, cada governo promover debate sobre o tema, já ajuda a entendê-lo muito melhor”, receita o blogueiro. “Tem que tratar politicamente esse tema, desenvolver mecanismos para envolver a sociedade, como os Conselhos de Comunicação. Precisamos repensar tudo isso e essa é a proposta deste seminário: suscitar essas reflexão”.

Por fim, o presidente do Barão de Itararé apontou caminhos para promover a multiplicidade de opiniões e ideias na mídia em uma conjuntura desfavorável. “É preciso e há como estimular pluralidade e diversidade, com leis ou sem. Publicidade é imposto, direto e indireto. Então não aceito a ideia de que esse dinheiro fortaleça monopólios. Não pode ir só pros gigantes privados. A publicidade é uma questão decisiva para fortalecer a diversidade e pluralidade midiática”.

Maranhão, Maricá, Bahia: experiências positivas na comunicação

Representantes de dois dos três casos citados por Altamiro Borges relataram as suas experiências no debate. Sandra Recalde, da Comunicação da Prefeitura de Maricá, e Robinson Almeida, Secretário de Comunicação da Bahia por quase oito anos. Eles falaram sobre as especificidades de cada caso, mas destacaram um elemento em comum: sem compreender a importância estratégica da comunicação, não há como reverter o quadro.

Recalde fez uma ampla explanação de como funciona a comunicação na administração de Maricá. Chama a atenção o grande investimento em uma equipe de comunicação integrada e dedicada, deixando claro que, para a prefeitura, comunicação não é gasto, mas investimento.
“Quando assumimos, existiam três equipes fragmentadas. Nosso primeiro desafio foi integrar os trabalhos”, recorda. “Quem faz a estratégia de comunicação não é o pessoal da publicidade. A publicidade é só um recurso para o pessoal de comunicação. São empresas que estão à disposição de nossa estratégia”.

Segundo ela, é preciso ocupar todos os espaços possíveis. “Entramos nos territórios para conquistá-los: grupos de redes sociais, por exemplo”. Quanto à publicidade oficial, Recalde conta que a gestão trabalha com todos os jornais da cidade. “Temos uma relação clara com eles: somos clientes, não interferiremos na sua linha editorial e não pediremos nada, mas anunciarei com vocês e teremos a mesma postura que teríamos com um supermercado; se comprar um iogurte vencido, vou denunciar e, se você fizer uma denúncia contra nós, terá de ouvir nossa versão. Se a ética de vocês é comercial, então cobraremos na mesma lógica”.

Engenheiro de formação Robinson Almeida conta que recebeu a missão de construir a Secretaria de Comunicação de Jacques Wagner pois o governador não queria alguém com domínio técnico, mas que tivesse um entendimento profundo da construção política do governo.

“A Bahia é do tamanho da França e precisávamos saber os hábitos de mídia da população”, diz. “Não existe uma única comunicação no estado. Fizemos um amplo diagnóstico sobre consumo de mídia. A partir disso, fizemos uma Conferência Regional de Comunicação, em 2008. Se tem Conferência para Saúde, para Educação, por que não para a Comunicação?”, questiona.

A estrutura do aparelho de Estado foi montada para servir às classes dominantes e reproduz a lógica da dominação. Uma vez lá dentro, o esforço é para inverter essa lógica, pontua Almeida. “O primeiro pressuposto que temos é a comunicação como serviço, de interesse público. O segundo é o da comunicação como direito, que empodere os setores excluídos dos meios de comunicação dominantes. O terceiro pressuposto é o do poder: a comunicação é quem sustenta o projeto político”, lista. “Se você não se comunica, é atropelado e não faz a disputa política”.

Quanto à questão da publicidade, Almeida tem a seguinte opinião: “Numa Secretaria, você tem que entender que você opera com o sistema tradicional de radiodifusão e você tem que usar as rádios e TVs, que são concessões públicas. A forma talvez mais expressa de patrimonialismo nesse país é o entendimento das concessões públicas de rádio e TV como propriedades privadas”.

Se os meios são comerciais, opina Almeida, você vira um grande cliente e ele terá que sentar na mesa com você. “Isso te dá força, empoderamento, que dá força para lutar pela causa pública. Por isso, acredito que a aplicação das verbas publicitárias precisam atender a critérios técnicos, mas também a critérios políticos e institucionais”.

“Erramos ao não alterar a lógica de concentração econômica dos meios, de não encaminhar os resultados da Conferência Nacional de Comunicação de 2009, de não abraçar os meios alternativos”, reflete. “Temos que fazer a autocrítica para continuarmos o enfrentamento à elite”.



Por Felipe Bianchi para o Portal Barão de Itararé

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