Seminário sobre meio ambiente lota auditório em Goiânia
Promovido pela Fundação Mauricio Grabois, o seminário "Desenvolvimento Econômico e Social, Meio Ambiente e Cultura", focado na região Centro-Oeste, superou a expectativa de público e lotou o auditório da Faculdade de Enfermagem e Nutrição (FEN) da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia. Cerca de 150 pessoas participaram dos debates ocorridos no último sábado e domingo (23 e 24).
Publicado 25/04/2010 22:37 | Editado 04/03/2020 16:43

Na tarde de sexta-feira, 23, Aldo Arantes, Secretário Nacional do Meio Ambiente da Fundação Maurício Grabois e do PCdoB fez a abertura do seminário com um balanço das discussões sobre meio ambiente que vem travando no Brasil e internacionalmente.
Recém-chegado de Cochabamba, na Bolívia, onde participou da Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e os Direitos da Mãe Terra, Arantes falou das resoluções da Conferência como o Projeto de Declaração Universal de Direitos da Mãe Terra. Nelas, está a necessidade de os países desenvolvidos, principais responsáveis pelo aquecimento global, assumirem suas responsabilidades históricas e contemporâneas como forma de se solucionar a questão das mudanças climáticas.
De acordo com o conferencista, após vários estudos, pesquisadores chegaram à conclusão de que o aquecimento global é derivado da atuação humana e não da ação natural. “A redução de 2% da emissão de gás carbônico é pouco, a meta deveria ser maior, avaliaram os especialistas. Mesmo assim, houve aumento de 11% na envio de CO2, causando graves problemas à humanidade”, disse, sobre a Conferência.
Para Arantes, o sistema capitalista é o grande causador da crise ambiental e a ruptura do sistema é imprescindível. "O Brasil precisa se desenvolver, criar energia, distribuir renda, tudo isso com a preservação da natureza", colocou. Segundo ele, a população precisa fortalecer a corrente progressista. “O desenvolvimento está na mão do povo. Este é o momento de criarmos plataformas da política mais geral. Um novo sistema de desenvolvimento é a saída”.
Cerrado
Os temas do seminário sobre o Cerrado foram divididos em seis mesas "Cerrado, biodiversidade, clima, desmatamento", com os professores Roberto Malheiros (ITS/PUC-GO), Altair Sales (PUC-GO) e Marcelo Rodrigues Mendonça (UFG – Catalão).
Em sua exposição, o professor Marcelo Mendonça falou sobre a relação de trabalho no Centro-Oeste, apresentou dados da destruição ambiental do cerrado, a precarização do trabalho, a pobreza das áreas cerradeiras e os estereótipos construídos pelo capital.
Segundo o professor, é da natureza do capital vivenciar essa destruição desenfreada da terra e do ser humano. “É por isso que há o mercado competitivo, os carvoeiros, os trabalhadores escravos e o trabalho infantil nas grandes empresas rurais”.
Apontou ainda o professor que “quem controla a água, controla todo o território. A reforma agrária nunca foi tanto necessária”. Para Mendonça, o desenvolvimento no modelo capitalista não pode ocorrer a qualquer custo se não contemplar o povo brasileiro. “Não podemos aceitar o pacote tecnológico e cientifico imposto e muitas vezes aceito. É possível vivermos com o agronegócio, mas com respeito ao povo e ao código florestal”. De acordo com o professor, a saída é o desenvolvimento com diversas formas de renda, com fortalecimento das economias locais. “Cada bioma dever criar o seu próprio projeto de desenvolvimento sustentável”, acrescentou o professor.
O painel "Pantanal e biodiversidade" foi apresentado pela pesquisadora no assunto, professora Solange Ikeda Castrillon (foto) da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Para ela, o Pantanal encontra-se em uma encruzilhada fitogeográfica, ou seja, é a maior planície de inundação contínua do planeta, coberta por vegetação aberta, seis meses alagada, seis meses de seca.
Segundo Solange Ikeda, o Pantanal sofre com a influência dos biomas e a combinação de variados tipos de solos e do pulso de inundação faz com que o Pantanal ostenta um mosaico de ecossistemas terrestres, mas com afinidades com o cerrado.
Para ela, os principais impactos ambientais e ameaças do Pantanal são o desmatamento no planalto e planície, o assoreamento do Rio Taquari, a substituição do modelo tradicional do manejo, entre outras.
“As políticas públicas do Pantanal não são apenas estatais, governamentais, lá precisamos da participação popular. Nós temos problemas com a Lei do Pantanal de 2008 que desconsiderou a planície e planalto, temos problemas também com os grandes latifundiários. Defendemos a resistência dos pantaneiros, dos mais tradicionais que defendem o meio ambiente”, salientou a pesquisadora. Segundo Solange Ikeda, a economia solidária e a rede de educação ambiental são as soluções para o povo do Pantanal.
O presidente do PCdoB em Goiás e vereador de Goiânia, Fábio Tokarski – membro da Comissão Organizadora do evento – também participou do debate. Ele lembrou que Goiânia está entre as cinco cidades brasileiras mais desiguais do mundo, segundo relatório apresentado pela Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com o vereador, essa constatação aponta que há uma imensa concentração de riqueza no Centro-Oeste, e a capital goiana recebe grandes fazendeiros e grandes empresários. “Goiás tem uns dos PIBs que mais cresce, mas esse custo do modelo de desenvolvimento tem um preço. Mais do que custos sociais, o abismo entre ricos e pobres também provoca prejuízos econômicos.”
Tokarski (foto) lembrou ainda da má gestão do governo sobre as grandes empresas que vêm para o estado. Segundo ele, não há estudos ou controle sobre o incentivo fiscal que o governo dá para grandes empresas virem para o estado. “Há negociações em que o ICMS é muito baixo; em outros em que há isenção de 15 anos ou mais, as empresas beneficiadas não reaplicam este favorecimento nos trabalhadores, no social e no meio ambiente”, ressaltou o presidente do PCdoB goiano.
Para Tokarski, o Brasil e o Centro-Oeste têm uma grande riqueza em suas mãos, o manejo adequado, a valorização dos seus frutos, dos animais silvestres são fatores que podem gerar mais renda e mais energia para o povo do que a revolução verde. “Pensar outro projeto de desenvolvimento, com distribuição de renda, equilíbrio ambiental e melhorias para toda a população é a solução”, apontou.
Recursos Hídricos, Pecuária e Meio Ambiente
No sábado pela manhã, o tema do seminário foi "Recursos Hídricos, Pecuária e Meio Ambiente", com os professores Romualdo Pessoa, do IESA-UFG, e Ana Paula Fiorenze, gerente da Superintendência de Recursos Hídricos da Semarh. Para Ana Paula, não há falta de água no planeta, mas sim uma má distribuição geográfica que ocorreu porque não houve uma preocupação em se estabelecer moradias de acordo com a disponibilidade e a quantidade de água naquela região. “Por isso que agora há uma potencial ameaça entre diversas regiões do mundo”, explicou.
Dados apresentados pela diretora da Semarh mostram que 70% da água potável no Brasil está na região amazônica, que abriga apenas 20% da população brasileira. Ainda segundo a pesquisadora, 70% do uso da água mundial é para irrigação, 22 % para a indústria e 8% para uso humano. Em Goiás, 84% da água potável é usada na agricultura, 9% na indústria e apenas 7% para uso humano.

Para o Professor Romualdo Pessoa (foto), a mídia desmistifica estes dados para colocar a população como responsável pelo desperdício da água. Segundo ele, o grande problema da falta de água é o seu uso inadequado. O professor acredita que para controlar a água, o modo de produção capitalista irá agregar valor à água. “A água é um bem público, mas para o mercado é um valor econômico”, assinalou.
Ainda no fim da manhã, o tema tratado foi "Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente", com o engenheiro agrônomo Lino Borges e o estudioso sobre agricultura familiar, Robson Luis de Morais.
Á tarde, o tema "Meio Ambiente Urbano" foi debatido pelo presidente da Agência Municipal do Meio ambiente, AMMA/Goiânia e pelo professor Henrique Labaig (PUC-GO).
"Meio Ambiente e identidade Cultural", origem e diversidade na construção da identidade cultural da população foi exposto pelos conferencistas Eguimar Felício (IESA-GO) e Virgilio Alencar (Pontão/MinC).

Silvio Costa (foto), diretor da Fundação Maurício Grabois em Goiás ficou satisfeito com o Seminário. “Pela primeira vez no estado se discutiu o cerrado e o pantanal de uma forma tão ampla. Pretendemos aprofundar de forma sistemática e articulada a ação do homem no Centro-Oeste".
Segundo ele, serão retiradas propostas "para subsidiar as lutas e os movimentos que giram em torno da perspectiva de desenvolvimento com distribuição de renda, que permita superar a pobreza a miséria, porém sem degradar de forma violenta a natureza. Nos colocarmos nessa perspectiva, porém é preciso dar substância a esse desenvolvimento sustentável e não deixá-la como uma palavra vazia. Este é o intuito do seminário,” garantiu o professor.
De Goiânia,
Eliz Brandão, com fotos de Paula Rincon