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O anjo que morava em mim

Por Clóvis Campêlo*

Angelus novus (Paul Klee)

O anjo que morava em mim
despediu-se e foi embora,
pois tudo tem sua hora
e tudo tem o seu fim.

Ainda o vi vacilante
dobrando a primeira esquina,
montado por sobre a crina
do cavalo rocinante.

Levantava altaneira
a espada da justiça,
a qual cortava linguiça
nos dias que ia à feira.

O anjo que morava em mim,
com toda a sua utopia,
foi tristeza e alegria,
histórias de folhetim.

Fez revoluções inúteis,
construiu muitas quimeras,
transformou gato em panteras;
em verdades, coisas fúteis.

Deixou-me aliviado
de tanta melancolia
pois só esperava o dia
de curtir os meus pecados.

Recife, 2010

(*) O pernambucano é Clóvis Campêlo é poeta, pesquisador e fotógrafo