A escola e o seu papel na difusão da leitura
A escola permanece ao longo do tempo como o lugar onde a maioria das pessoas adquire as principais habilidades em relação ao letramento, leitura e escrita, porém no percurso histórico da aquisição do conhecimento perpassam caminhos diferentes das carteiras escolares.
Por Francis Paula Correa Duarte*, para o Vermelho
Publicado 10/10/2014 16:52
Seja na Antiguidade Grega, a serviço de uma cultura oral e na conservação de textos, ao assumir o viés religioso da Idade Média e seu caráter restritivo e “moralizante”, vincular-se às evoluções históricas e tornar-se símbolo de uma sociedade culta, por meio das bibliotecas privadas da burguesia, ou ainda, como elemento propiciador de informação e crítica na atualidade, a leitura mostrou-se sempre como uma apropriação, invenção e produção de significados, ou seja, o leitor mostra-se como um caçador de terras alheias, conforme afirma Roger Chartier (1998).
Ainda no âmbito religioso, posteriormente a leitura se fez a partir da necessidade de difusão da Bíblia por grupos protestantes e reformistas, em especial Martinho Luthero, que apregoavam a aprendizagem da leitura como habilidade necessária à formação moral de seus seguidores. Desta forma, a leitura de folhetins religiosos semanais e das Escrituras Sagradas passou a fazer parte do cotidiano do lar burguês, de forma individual ou coletiva, em voz alta ou silenciosa, constando das representações imaginárias da classe média, apresentadas em pinturas e fotografias num ambiente de paz doméstica.
Entre séculos XI e XIV, a leitura ganhou espaços organizados, porém silenciosos, houve uma consolidação do comportamento regulado e controlado do leitor e assim, percebe-se que a liberdade leitora jamais é absoluta, seja por limitações oriundas de capacidade, convenções e classes sociais ou imposições que regulassem suas práticas e consequentemente, seu desenvolvimento, o que relegou a leitura a um processo individualista.
Durante muito tempo, as bibliotecas na França pertenceram a instituições ou eram privadas e foi somente em 1790 que se pensou em ofertar os acervos ao povo em geral, surgindo, assim, as primeiras bibliotecas nacionais. Em 1839 houve uma preocupação com a rede de bibliotecas, quando se percebeu que esta usava as subvenções apenas em gastos com pessoal.
As bibliotecas públicas passam a ser lugares de conservação e surgem os primeiros bibliotecários devotados a salvar o patrimônio estritamente material e público, pois era preciso vigiar os leitores que esqueciam de manipular um objeto precioso como o livro com cuidado. A seguir, o leitor foi até considerado um obstáculo ao bom funcionamento da biblioteca em que os funcionários não estavam a serviço do leitor e sim dos livros, cuidando de sua catalogação, manutenção e reparo.
Por conseguinte, compreende-se que a história do leitor teve sua origem na expansão da imprensa e o seu desenvolvimento esteve relacionado a uma ampliação do mercado do livro, ao crescimento da escola e à alfabetização das populações urbanas, bem como ao surgimento da família burguesa. A operacionalização da imprensa, que antes era tarefa do Estado, passou a ser uma atividade empresarial e, portanto, dirigida para o lucro. Tal fato só foi possível graças ao crescimento de uma clientela que dominava a habilidade de ler, em decorrência da obrigatoriedade do ensino.
Ainda no século XVII, houve na sociedade mudanças de estruturas, período em que se instalou o modelo burguês de família unicelular. Desta forma, foi mudada a maneira de enxergar a infância e todas as instituições a ela relacionadas. Marisa Lajolo e Regina Zilberman (1985) garantem que os textos produzidos para as crianças revelam os leitores do mundo burguês de maneira idealizadora para que criassem expectativas e promovessem padrões comportamentais em seus receptores.
A valorização da família era sustentada por uma ideologia que preservava o amor filial, mitificava a maternidade, pregava deveres entre pais e filhos, dando-lhe laços internos fortes, mas separando-a dos grandes grupos a que se agregava anteriormente. Este fato torna a família, miniatura da sociedade idealizada, frágil no aspecto político, porém fator fundamental na constituição da sociedade moderna. Assim, a leitura se consolida no interior deste tipo de família por se constituir numa atividade adequada à privacidade requerida por ela e própria à atividade doméstica.
Conforme as autoras Lajolo e Zilbermam: “O Brasil saiu do arcadismo para o modernismo: surgiu um novo tipo de Estado mais completo e heterogêneo em seus objetivos”. A partir da revolução de 30 foi gerado o populismo, um momento em que foi caracterizado pela violência arbitrária e pela violação dos direitos civis e das liberdades democráticas. Percebe-se, nesse momento, que a literatura tem como função política desalienar o leitor para a conquista da emancipação.
Torna-se perceptível, portanto, que as evoluções históricas e o aumento da produção e reprodução de livros, por Gutemberg (1448), permitiram que um número maior de obras fosse adquirido por um grupo de leitores, os chamados leitores extensivos, que consumiam diversos impressos, mas deixando um questionamento: “Teriam esses leitores realmente um olhar crítico ou apenas faziam uma aglutinação de informações”?
Nesse sentido, o educador Paulo Freire (2001) afirma que a leitura da palavra é precedida da leitura do mundo e mais do que simplesmente decodificar símbolos ou enumerar informações, está uma realização crítica dessa leitura. Efetivamente, ler o mundo mostra-se como uma prática concreta de libertação e construção da história, inserindo o leitor num processo criador, de que ele é também um sujeito.
Tudo parece defender a força da letra que, inscrita no sujeito, é capaz de fazê-lo um dia, escrever o mundo, potencializando-se em distintas forças: o estilo, a escrita e a representação. Ou seja, o homem seria atravessado pela leitura e por consequência, alargariam-se pensamentos e, sobretudo, sua própria identidade e expressão social.
Esse percurso histórico nos leva ainda pelos caminhos do entendimento do texto uma vez que, durante o século XIX, a leitura literal ou mecânica foi condenada e o nascimento de uma crença na necessidade da compreensão como um todo, surgisse pouco a pouco.
É necessário lembrar que a obra literária é um objeto social e para que ela venha existir é preciso que leitor e autor criem um vínculo de ligação. A literatura infantil não é um simples recurso didático, ela é arte, pois é a porta de um mundo autônomo e a leitura literária pode ser utilizada como meio para sensibilizar a consciência, para expandir a capacidade de interesse de analisar o mundo; lidar com o processo evolutivo do mundo, melhorando seu discurso. A literatura entra na discussão do poder, no momento em que esta tem como função controlar o circuito de informações que engodam a sociedade. Porém, a literatura muitas vezes perde seu caráter emancipatório quando esta passa ser vista e utilizada como recurso didático obrigatório.
A leitura realizada com profundidade faz do leitor um sujeito autônomo, cujo domínio da leitura das linguagens, em especial da literatura infantil, permite a comunicação de ideias, a expressão dos sentimentos e o diálogo, necessários à negociação dos significados e à aprendizagem contínua, com isto o mesmo leitor pode estabelecer uma relação eficiente com a escrita. Segundo a análise de Freire (2001):
Para o autor é a escrita de um determinado texto, poesia ou romance que o faz aparecer, não importa se o mesmo ocupa um importante lugar na categoria das Belas Artes, é necessário que apresente uma fascinante e bela aparência, no que se refere à escrita, pois para Barthes, o aumento da escrita faz nascer uma nova literatura, de modo que esta não invente sua própria linguagem, caso isso venha ocorrer estaria se tornando um projeto irrealizável da linguagem.
Enquanto para as classes mais baixas ainda fosse pregado esse ensino “literal”, as autoridades promoviam para os seus, um novo olhar para a questão, o que ainda mostra-se perceptível em alguns discursos atuais: um ensino de qualidade voltado para poucos.
Desta forma, a escola não poderá impor condições aos seus educandos a ler um determinado texto somente para fechar um currículo que é imposto a eles, sem respeitar as individualidades de cada um. O ato de decodificar os signos linguísticos por si só não podem ser considerado como leitura, haja vista que ler vai muito além de decifrar as palavras. Ler é acima de qualquer coisa interpretar e dar sentido ao que está escrito. Conforme o que enfatiza os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1997), a função da escola é assumir o papel de formar leitores, quando esta lhes oferece textos que estejam ligados ao mundo.
Com o advento das novas tecnologias de comunicação, ocorre a democratização do acesso e a possibilidade do homem tornar-se um agente ativo da informação e desta forma completar o ciclo: leitura, interpretação e produção textual espontânea.
Leitura e aprendizagem inauguram o novo século, permeadas por esse elemento tecnológico, não se pode, hoje, ignorar o uso do computador, de tecnologias como a internet, a existência dos celulares – que invadem a vida das pessoas -, sem esquecer as câmaras digitais, dos palms, de webcam, e de tantos outros instrumentos que passam a estar envolvidos no cotidiano de milhares de pessoas em todo o mundo.
As novas tecnologias de comunicação passaram a uma plenitude, principalmente tendo em vista a proliferação do uso de celulares e de computadores, que se tornaram produtos mais acessíveis a uma boa parte da população brasileira, seja pela produção de produtos mais baratos, seja pela criação de locais públicos de acesso a computadores e à internet.
E com o acesso a diversos softwares, e em especial à internet, mudanças podem verificar-se na maneira de leitura e também de aprendizagem das pessoas. Primeiramente no campo da vida privada, a leitura alcança novos textos, dispostos na internet, em que podem ser verificados desde blogs, fotoblogs, e-books, e-mails, lista de discussões, chats, scraps e tantos outros gêneros textuais que se inserem na vida diária de adolescentes e adultos. São, afinal, novas estruturas textuais, com novos elementos, que, se quiserem, podem conter, além de palavras, imagens e sons. Tudo isso implica uma modificação no modo de escrita e no modo de leitura de textos que se encontram na internet, marcados muitas vezes pela agilidade, brevidade e com uso de regras próprias.
Desta forma, a inter-relação da leitura e da formação do leitor, constrói-se a identidade e a interpretação da leitura torna-se uma necessidade e um passo intermediário na busca pela expressão pessoal de suas impressões no mundo e, portanto, a importância está em como se lê, o que se faz de suas leituras e como as transforma em convicções próprias.
Diante desta visão, a escola necessita realizar uma reformulação em seus conceitos em relação à leitura, porque o desejo de formar leitores competentes faz com que os professores lancem aos alunos uma variedade de textos que, às vezes, são incompreendidos pelos mesmos. Conforme Freire “A insistência na quantidade de leituras sem o devido adentramento nos textos a serem compreendidos, e não memorizados, revela uma visão mágica da palavra escrita”.
E assim, o que importa não é a quantidade de textos que muitas vezes são arremessados aos alunos, mas a qualidade da análise e compreensão dos recursos que a leitura pode oferecer ao conhecimento. Para tanto, o que deve ser considerado no processo de formação de futuros leitores é, justamente, a qualidade e o quê de significativo de determinado texto pode acrescentar na vida do leitor.
Jorge Larrosa (1981), quando reflete sobre Nietzsche, revela que ele exige para si mesmo leitores que sejam possuidores de uma rigorosa perfeição, aqueles que procuram desenvolver o ato da leitura de forma profunda, deixando se levar no mundo da leitura de forma serena e tranquila. Segundo Jorge Larrosa (1981) “sabe-se que a arte da leitura é rara nesta época de trabalho e de precipitação, na qual temos que acabar tudo rapidamente”.
Desse modo, os leitores da atualidade, intitulados como leitores modernos, já não criam oportunidades e também não encontram tempo disponível para se mergulharem no mundo da leitura, e, principalmente, se esta apresenta seu final demorado e obscuro. Considera-se que muitos são os leitores que manuseiam os livros quando estes são lhe imposto com a finalidade de desenvolver uma atividade na qual apresente seu término de forma rápida. Portanto, a arte de ler, precisa ser desenvolvida com mais tranquilidade, com disponibilidade de tempo, para deixar de lado todas as inquietações e esperar em troca desta preciosa leitura muito conhecimento.
*É mestranda da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pós-graduada (Especialização) em Saberes e Práticas da Básica em Educação de Jovens e Adultos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (2013)
Referências Bibliográficas
CHARTIER, Roger. A aventura do livro, do leitor, do navegador. São Paulo: Unesp, 1998.
FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler. Em Três Artigos que se Completam. São Paulo. Cortez, 2001.
BRASIL, Secretaria da Educação Fundamental – Parâmetros Curriculares Nacionais: Lingua Portuguesa. Brasilia: MEC/SEF, 1997.
ZILBERMAN Regina & LAJOLO Marisa. A formação da leitura no. Brasil (Editora Ática, 1985).