Dia do Combate à Intolerância Religiosa é marcado por resistência

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, foi instituído em 2007 pela Lei nº 11.635. A data, proposta por um deputado do estado da Bahia, rememora o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana.

Dia do Combate à Intolerância Religiosa é marcado por resistência - Reprodução

A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo, sua casa atacada e pessoas da comunidade foram agredidas. Ela faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto.

Além do caso da sacerdotisa, diversas pessoas são vitimas cotidianamente de perseguições por expressarem sua escolha religiosa: Em junho de 2015 a menina Kailane, com apenas 11 anos, foi agredida com uma pedrada na cabeça quando saia de um culto, no Rio de Janeiro. 

Segundo a avó da criança, que é mãe de santo, todos estavam vestidos de branco e caminhavam para casa, na Vila da Penha, quando dois homens começaram a insultar o grupo. Um deles jogou uma pedra, que bateu num poste e depois atingiu a menina. “O que chamou a atenção foi que eles começaram a levantar a Bíblia e a chamar todo mundo de ‘diabo’, ‘vai para o inferno’, ‘Jesus está voltando’", afirmou a avó da menina, Káthia Marinho, na época do episódio. 

Golpe intensifica ambiente conservador

Angela Guimarães, presidenta da União de Negros pela Igualdade (Unegro) considera que a data pede resistência. "Hoje é mais um dia de luta e celebração, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, infelizmente, cada dia mais presente no cotidiano das pessoas não cristãs no Brasil. Sabemos que na raiz deste fenômeno se encontram o racismo, o colonialismo e a negação da humanidade e também de uma cosmovisão própria a população negra, não eurocêntrica e não subordinada aos princípios ocidentais. Na atual conjuntura de consolidação de golpe no Brasil, além da retirada de Direitos que vêm à galope, também a subordinação do Estado brasileiro à bancada da Bíblia, dos fundamentalistas religiosos é um ataque direto ao Estado Laico consagrado na Constituição de 1988", avalia. 

A presidenta da Unegro identifica um contexto de vulnerabilidade, "os maiores penalizados são membros das religiões de matriz africana e não cristãs em geral. Por isso neste 21 de janeiro o nosso brado continua por mais respeito, por paz e por direito à liberdade religiosa, bem como reconhecimento e políticas públicas aos povos de matriz africana", conclui Angela. 

Números 

Uma pesquisa divulgada em 2016, apontou que o número de denúncias relacionadas à discriminação religiosa aumentou 70% em 2015 no Brasil na comparação com o ano anterior, chegando a 252, o mais elevado patamar registrado desde a criação do Disque Direitos Humanos, o Disque 100, há cinco anos.

O maior número de denúncias foi feito em São Paulo (37), seguindo-se o Rio de Janeiro (36), Minas Gerais (29) e a Bahia (23). Embora haja a impressão geral de que grande parte das vítimas pertence a religiões de matrizes africanas, a Secretaria de Direitos Humanos não apresentou dados destrinchados por religião, demonstrando a intensificação do preconceito e o tamanho do desafio posto para enfrentar a intolerância religiosa no Brasil.