Ciência e conhecimento: a presença das mulheres

Durante um longo espaço de tempo que abrange séculos, milênios até, a história foi escrita por homens que sedimentaram a ideia de que os feitos relevantes na trajetória da humanidade foram realizados por outros homens. Assim, além da luta contra violências de todo tipo, as mulheres também enfrentam o enorme desafio de lutar contra a invisibilidade que é, em si mesma, uma forma de violência contra o direito de existir social e historicamente.

Marie Curie, a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel e primeira pessoa a receber o prêmio por duas vezes.

No  campo científico, essa invisibilidade só começa a ser rompida a partir do século XX, embora existam registros milenares de mulheres que deixaram um legado silencioso de descobertas científicas, tais como Tapputi Belatekallim, considerada a primeira química do mundo e que deixou os primeiros registros de realização de procedimentos  como a destilação de ervas para a obtenção de perfumes e medicamentos. Isto por volta do ano 1.200 a.C. na Mesopotâmia dos rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque. É bem pouco provável que alguém tenha ouvido falar em Tapputi durante a formação escolar, embora a ela seja atribuída a criação de vários instrumentos para a obtenção de compostos e a separação de substâncias. Condenadas ao esquecimento pelo fato de serem mulheres, ou tendo sua memória apagada ou desqualificada, as mulheres que dedicaram suas vidas ao conhecimento nos deixaram um legado que precisa ser resgatado. Mulheres que, por sua inquietação diante do mundo e dos fenômenos da natureza, eram consideradas seres perigosos, pagando, não raro com suas vidas a afronta de se dedicarem à ciência. Foi o caso de Hipátia de Alexandria, matemática, filósofa, astrônoma (360 d.C. – 415 d.C.), assassinada por fundamentalistas no início do cristianismo. Aliás, o fundamentalismo de todas as vertentes, assim como não tolera a ciência, tolera menos ainda que ela seja feita por mulheres. 

Hipátia de Alexandria foi vítima da intolerância machista

Punição e invisibilidade combinaram-se ao longo dos séculos, para impedir que as mulheres  assumissem protagonismo científico. Na idade média, as curas realizadas por Hildegard de Bingen, uma monja beneditina do século XII, com vastos conhecimentos de medicina e botânica, além de musicista, eram considerados milagres e não o fruto de seus estudos e pesquisas. Também no século XII, Trotula de Salerno, uma médica que viveu na Itália, de quem sabemos apenas o codinome, quase desapareceu da história pois seus escritos eram frequentemente apropriados por homens. Considerada pioneira na descrição da fisiologia feminina, apenas no ano de 1930, já no século XX, uma obstetra e feminista canadense, Kate Hurd-Mead realizou estudos provando a existência da médica de Salerno, a autoria de seus escritos e a importância deles para a medicina.   

Mesmo em meio a um cenário adverso, mulheres dedicadas à ciência não faltaram. No século XVIII, Maria Gaetana Agnesi elaborou o primeiro livro de álgebra escrito por uma mulher, apresentando soluções para equações complexas que ainda hoje são usadas. Mas foi no século XIX, quando a revolução industrial já avançava e a ciência substituía a explicação religiosa do mundo, que as mulheres passam a ter  visibilidade no campo científico, embora suas realizações ainda fossem, quando muito, uma simples nota de rodapé na história da ciência. É o caso de Ada Lovelace (1815-1852), que, com suas pesquisas sobre motores a partir da lógica algorítmica, criou um mecanismo que serviu de base para a invenção dos primeiros computadores.  Ada e muitas outras mulheres anônimas abriram portas para que, ao final do século XIX e início do século XX, mais e mais mulheres adentrassem os domínios da ciência, possibilitando o surgimento de expoentes como Marie Curie, reconhecida como um dos grandes nomes da Física moderna.  Suas pesquisas sobre a radioatividade redundaram na descoberta de dois elementos, o polônio e o radio, sendo a primeira mulher a receber um prêmio Nobel e a primeira pessoa a receber duas vezes essa premiação; em Química em 1903 e em 1911, em Física. 

Hoje, em pleno século XXI, talvez já não seja tão presente a conhecida e recorrente prática de atribuir a homens as descobertas científicas realizadas por mulheres, conforme denunciou Matilda Joslyn Gage no seu ensaio “Woman as Inventor” e que por isso ficou conhecida como “efeito Matilda”. Porém, se comparado ao número de homens, o número de mulheres cientistas, embora tenha aumentado significativamente em relação ao número do início do século XX, ainda permanece reduzido. 

Matilda Joslyn Gage denunciou a apropriação por homens de pesquisas científicas realizadas por mulheres

No Brasil, segundo dados da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, embora exista relativo equilíbrio entre o número de homens e mulheres  registrados na base de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, a desigualdade aparece quando áreas de conhecimento são tomadas isoladamente. Nas áreas “tradicionalmente” tidas como masculinas, como, por exemplo, ciências exatas e da terra, (física, química e matemática), a proporção é de 68% para homens e 32% para mulheres. 

A desproporcionalidade na divisão de gênero pode ser encontrada também nos postos de direção das Universidades e nas lideranças de sociedades científicas onde as mulheres são minoria. Das 68 universidades públicas federais apenas 19 (28%) são dirigidas por reitoras.

 Não obstante todas as dificuldades, as mulheres continuam fazendo história. Cientistas brasileiras, mesmo diante do desolador cenário que se desenha para a educação e a ciência no Brasil, com as ofensivas e os drásticos cortes de recursos do atual governo para o setor, continuam produzindo conhecimento de largo impacto social. Exemplo recente foi o sequenciamento do Coronavírus, em estudo feito em tempo recorde pelas cientistas brasileiras Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical – IMT da Universidade de São Paulo – USP e da pós-doutoranda Jaqueline Góes de Jesus da Faculdade de Medicina da USP. Um feito pouco alardeado pela mídia, mas que comprova a capacidade das cientistas e das mulheres. 

Ester Sabino e Jaqueline Goes de Jesus lideraram a pesquisa sobre o genoma do coronavírus

O enfrentamento dos preconceitos que dificultam a presença das mulheres na ciência é de fundamental importância para a ampliação do número de mulheres nesse campo. De qualquer modo, é impossível pensar em igualdade entre homens e mulheres, também no campo científico enquanto forem mantidas condições que, a partir dos papéis sociais estabelecidos para os gêneros, colocam sobre as mulheres a responsabilidade exclusiva da maternidade e do cuidado com familiares. A ruptura com padrões conservadores que visam definir previamente o lugar da mulher na sociedade é condição para que as mulheres desenvolvam plenamente suas potencialidades e possam, de fato, escolher o lugar aonde querem estar.  Sem isso, lamentavelmente, ainda assistiremos a mulheres desistindo de suas carreiras profissionais,  ou produzindo aquém do que poderiam se as condições fossem outras.  Nesse dois aspectos, o enfrentamento dos preconceitos e a ruptura com padrões conservadores, estamos falando da luta pela democracia que no Brasil de hoje está em risco. As mulheres, aliás sempre estivemos na linha de frente dessa luta por entendermos que a democracia é fundamental para a liberdade e para a melhoria das condições de vida e trabalho. Por isso, hoje quando juntamente com a democracia, a educação, a ciência e o conhecimento estão ameaçados, nos mulheres continuaremos na resistência.

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