Frente ampla com toda firmeza

A frente ampla é uma tarefa urgente, inadiável e irredutível. É a única chance de reverter o grave quadro político. Ainda que haja riscos, como tudo na política.

“A ação política se dá no dia a dia, no confronto direto das forças. E nós temos que nos juntar agora com toda firmeza. Nós não podemos estar fazendo agora discriminação ou estabelecendo critérios para entrar na frente. O critério básico para entrar na frente é ser contra Bolsonaro.” Haroldo Lima.

Como o exemplo da Covid-19, é melhor errar por excesso de leitos de UTI do que por falta. No caso da Frente Ampla, não tenho dúvidas quanto ao perigo da ascensão dos, como diz Haroldo Lima, “instintos” fascistizantes do atual governo e do “achatamento” da democracia no Brasil. Por isso temos que ter o máximo de responsabilidade e empenho para salvaguardá-la.

Em 2018, apesar da insistência do PCdoB na construção da frente ampla, parecia-me pura ilusão, mera ficção ou, no mínimo, uma missão extremamente improvável, já que a esquerda em geral, mas particularmente o PT e o PCdoB, se encontravam num isolamento político sem precedentes desde a redemocratização, ante uma conjuntura extremamente desfavorável, que incluía a prisão arbitrária e injusta do presidente Lula para impedi-lo de concorrer às eleições; a unidade das forças de direita, da mídia conservadora, de setores do judiciário e de um Congresso majoritariamente reacionário, além da disseminação de fake news e do envenenamento da classe média contra o PT.

Junte-se a isso a indisposição dos petistas de abrir mão da cabeça de chapa, mantendo Lula candidato até o limite, o que fez dissipar qualquer possibilidade de articulação mais ampla de forças. Numa atitude completamente diferente, o campo da esquerda argentino se uniu e Cristina Kirchner concorreu como vice de Alberto Fernández. Assim, derrotaram Macri. Muito provavelmente, aprenderam com o erro da esquerda brasileira na eleição de 2018.

Foi nessa perspectiva que se deu a aliança entre petistas e comunistas na disputa presidencial de 2018. Uma reedição da aliança histórica que se forjou desde 1989, mais estreita no primeiro turno, porém com maior amplitude no segundo. Contudo, teria sido possível uma alternativa frentista já no primeiro turno, ainda que isso sacrificasse os compromissos estabelecidos há décadas com o partido hegemônico da esquerda frente a ascensão do bolsonarismo? Quais alternativas estariam disponíveis à época? Se assim o fosse, teria evitado a vitória de Bolsonaro? São questões em aberto.

Mas é um fato evidente hoje que o PCdoB reafirma ainda mais o seu protagonismo histórico na construção de frentes amplas contra o autoritarismo e as forças de extrema direita, sempre recorrentes em suas aventuras golpistas. Como Haroldo Lima mesmo disse, certas forças de esquerda são muito novas, não tiveram como apreciar devidamente o passado político que remonta à década de 1930, a exemplo da trajetória do nosso partido e de dirigentes experientes como João Amazonas. Haroldo, que viveu todo o período da ditadura nas décadas de 1960 e 1970 diz que, quando as oposições se fracionaram, a ditadura se fortaleceu e, somente quando houve maior unidade e amplitude entre elas, que a ditadura se enfraqueceu.

O PT parece preferir o risco de enfraquecer ainda mais a democracia pelo fato de não aceitar a formação de uma frente ampla democrática. Vem colocando um óbice aqui e outro ali, evidenciando o temor de perder o protagonismo para partidos com ideais neoliberais no decorrer do processo político, ainda que agora, após a sanha golpista, essas forças se manifestem em favor da democracia. Motivo nobre. No entanto, o PT erra em relevar a correlação de forças políticas, crendo que, por um lado, o bolsonarismo está em decadência e, por outro, bastaria arregimentar as forças do partido, reorganizar as forças sociais, sindicais e demais forças da esquerda, para que se acelere a queda do atual regime e tudo volte a ser como antes. Ledo engano.

Para o PCdoB, a correlação de forças ainda é extremamente desfavorável e não se pode subestimar as forças da ultra-direita. O PT quer que o PCdoB e a esquerda em geral siga a sua orientação que tende ainda mais ao isolamento e à estreiteza política, a despeito de que estamos na beira de um precipício institucional e de uma perigosa irracionalidade generalizada que parece não ter fim na condução dos destinos da nação.

A frente ampla é uma tarefa urgente, inadiável e irredutível. É a única chance de reverter o grave quadro político. Ainda que haja riscos, como tudo na política. Nas eleições de 2018, apesar dos esforços do PCdoB por uma amplitude, a aposta se firmou numa frente de parte do campo da esquerda, que foi derrotada. Precisamos agora de mais ousadia na amplitude para construir uma aliança com todo mundo que se preocupa seriamente em derrotar o bolsonarismo e a escalada fascistizante. Se quisermos impor uma série de condições, na verdade óbices, estaremos subestimando a realidade adversa e num momento em que parte das forças que antes nos combatiam com veemência agora podem ser perfilar conosco na luta contra o mal maior.

Este pode ser o momento da virada democrática ou, então, da radicalização arbitrária e autoritária, a depender ou não da formação de uma frente política ampla e da unidade das forças progressistas, populares e democráticas no Brasil. O PT tem todo o direito de impor suas muitas condições, que o faça, sob pena de continuar no isolamento. O que o PT não tem direito é de querer impor ao PCdoB uma concepção estranha e das mais combatidas na história do nosso partido: o esquerdismo e o infantilismo político.

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Portal Vermelho

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3 comentários para "Frente ampla com toda firmeza"

  1. artzN disse:

    Que notícia! Venham! Vamos compor algo que pare de se defender e recuar, e comece a avançar de verdade! Não precisamos ficar justificando as contradições de parte hegemônica do PT! Só há uma saída: Superar o petismo e se reconciliar com o nosso povo novamente. PCdoB soma muito para isso!

  2. Francisco Galvão disse:

    Muitas palavras para dizer que não aceita condições do PT (aliado histórico), só do Ciro.

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