Crise econômica não para de gerar bilionários e o primeiro trilionário

Como trabalhadores que vivem o inferno no ambiente de trabalho podem lutar contra o homem mais poderoso da face da terra?

Trabalhadores da Amazon no Reino Unido protestam na Black Friday, criticando condições de trabalho exaustivas

Jeff Bezos, dono da Amazon, prepara-se para se tornar o primeiro trilionário do mundo. O extraordinário poder e riqueza que Bezos está acumulando sozinho é resultado de uma profunda precarização trabalhista que avançou assustando o farto mercado de trabalho norte-americano.

O patrimônio líquido do fundador da Amazon cresceu em média 34% nos últimos cinco anos, justamente no período de recessão econômica que imobiliza as economias em todo o planeta, desde 2007. De acordo com uma análise recente, Bezos está a caminho de alcançar o status de trilionário até 2026.

A pandemia, que devastou o emprego em todo o mundo, não mudou nada para o executivo da loja virtual. O fato deste homem continuar acumulando números obscenos em meio à miséria e morte, só reforça a lógica de imoralidade do sistema econômico atual.

Ambiente infernal

As denúncias das condições precarizadas na Amazon são conhecidas há anos. A empresa que emprega quase um milhão de pessoas no mundo todo, é o segundo maior empregador privado nos EUA. Ela se vangloria da maneira como trata seus funcionários — um salário mínimo de 15 dólares por hora, “plano de saúde abrangente”, folga remunerada. De profissionais de tecnologia a trabalhadores de depósito, os funcionários de Jeff Bezos vêm alertando sobre suas condições de trabalho e as práticas da empresa que vão se espalhando pelo mundo.

Nos “centros de atendimento” da Amazon, os funcionários ficam de pé durante toda a jornada de trabalho, procurando e selecionando os produtos que chegam na casa dos clientes. Um trabalhador pode caminhar 20 quilômetros por turno, e não é incomum as pessoas entrarem em colapso ou passarem mal por calor ou exaustão. A empresa “sugere” que os trabalhadores usem o banheiro apenas durante intervalos designados, o que levou alguns a recorrer a garrafas ou usar fraldas durante a jornada de trabalho. Como esses depósitos são enormes — variando entre 37.000 e 93.000 metros quadrados — caminhar até o banheiro acaba tendo uma boa quantidade de “intervalos“, rastreados automaticamente pela Amazon. Passar muito tempo sem cumprir tarefas pode resultar em rescisão, mesmo que esse tempo tenha sido usado apenas para ir ao banheiro. E como muitos trabalhadores são funcionários temporários, na esperança de serem efetivados, enfrentam uma enorme pressão para serem produtivos ao máximo.

Para os trabalhadores de colarinho branco, as condições são menos perigosas fisicamente, mas podem ser igualmente desanimadoras. Um relatório de 2015, publicado no New York Times, cita um ex-funcionário da área de marketing de livros cuja “visão permanente”, escreveu, “era de pessoas chorando no escritório, algo que outros funcionários também descreveram. ‘Você sai de uma sala de reunião e vê um homem adulto cobrindo o rosto’, disse ele. ‘Quase todas as pessoas com quem trabalhei lá, vi chorando pelo menos uma vez em suas mesas”. Outros relataram ter passado por eventos traumáticos como câncer ou aborto espontâneo (ou até mesmo eventos felizes, como o nascimento de filhos) e serem chutados para fora. Um executivo do RH lembra de ter sido forçado a colocar uma mulher que tinha acabado de ter um filho natimorto em um plano de melhoria de desempenho.

Talvez não seja surpreendente que o tempo médio de permanência na Amazon seja apenas de um ano e a rotatividade nos depósitos ultrapasse 100%. Essa agitação constante dificulta a organização — os trabalhadores não ficam tempo suficiente para formar os relacionamentos necessários para construir organizações duradouras, muito menos para ter eleições sindicais. E os trabalhadores da Amazon que se manifestaram sobre suas condições e tentaram se organizar foram vítimas de retaliação e muitas vezes demitidos. No início desta primavera, Chris Smalls, funcionário da Amazon em Nova Iorque, foi posto para fora após organizar uma paralisação em um depósito em Staten Island, protestando contra a falta de pagamento de um adicional de insalubridade e de equipamentos de proteção durante a pandemia da covid-19. A Amazon nega que Smalls tenha sido demitido por causa da mobilização. Os designers de experiência do usuário que se manifestaram contra as condições nos depósitos da Amazon em solidariedade a seus colegas com salários mais baixos também foram encaminhados à porta da rua.

Embora a retaliação pela organização seja ilegal, é difícil de se provar e as consequências são negligenciáveis, por isso permanece desenfreada nos EUA. Quando os trabalhadores veem seus colegas sendo demitidos por se manifestarem, é menos provável que tentem se organizar — especialmente quando o desemprego está alto. É por isso que os chefes fazem o que fazem, e é uma das razões pelas quais Jeff Bezos é o chefe mais rico do mundo.

Apesar dessas adversidades, grupos de trabalhadores da Amazon se uniram, como Amazonians United e Amazon Workers International, e formaram coalizões com outros trabalhadores de salários baixos — reconhecendo que a organização na ponta da produção é a única maneira de recuperar a riqueza e o poder de Bezos. Eles precisarão do apoio dos sindicatos existentes e da esquerda organizada (inclusive conseguindo empregos na própria Amazon). Formar sindicatos ou mesmo lutar por demandas é difícil nas melhores circunstâncias, mas esses trabalhadores enfrentam um dos homens mais poderosos do mundo.

O império de Jeff Bezos se estende muito além da Amazon: ele é dono da rede de supermercados Whole Foods e do Washington Post, assim como muitas outras empresas de varejo online e mídia social. Ele possui investimentos no AirbnbUberGoogle e Business Insider, entre outros. Seu alcance já é enorme, o que significa que sua mão-de-obra também é — e a acumulação da mais-valia desses trabalhadores é o que o tornou tão abominavelmente rico.

Com informações do artigo de Mindy Isser para a revista Jacobin.

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