A história da cruz e seus muitos significados ao longo dos séculos

Os cristãos comemoram o sacrifício de Jesus Cristo, acreditando que isso lhes oferece a promessa de perdão e vida eterna. A cruz às vezes também assumiu significados mais sombrios como um símbolo de perseguição, violência e até racismo.

Brasília - Movimentos sociais colocam cruzes e um caixão no gramado em frente ao Congresso Nacional para protestar contra a reforma da Previdência Social (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

No outono, os católicos e algumas outras igrejas cristãs celebram a festa da Santa Cruz. Com a festa, os cristãos comemoram a vida de Jesus Cristo, especialmente sua morte salvífica na cruz e sua posterior ressurreição, acreditando que isso lhes oferece a promessa de perdão e vida eterna.

A festa tem suas raízes no final da Antiguidade, época em que a cruz se tornou uma parte importante da arte e do culto cristão. A cruz, que já foi uma forma vergonhosa de execução para criminosos, tornou-se um símbolo predominante de Cristo e do Cristianismo.

No entanto, a cruz às vezes também assumiu significados mais sombrios como um símbolo de perseguição, violência e até racismo.

A primeira cruz
Como um estudioso da história e do culto cristão medieval, estudei essa história complicada.

Grafite pagão do segundo século retratando um homem adorando uma figura com cabeça de burro crucificada.

Uma famosa peça de arte nas paredes romanas do início do século III, o “graffito Alexamenos”, retrata duas figuras humanas, com a cabeça de um burro e os braços estendidos em uma cruz em forma de T, com a legenda “Alexamenos adora seu deus”.

O Cristianismo foi proscrito na época no Império Romano e criticado por alguns como uma religião para tolos. A caricatura de “Alexamenos”, oferecer orações a esta figura crucificada era uma forma de representar Cristo com cabeça de burro e ridicularizar seu deus.

Mas para os cristãos, a cruz tinha um significado profundo. Eles entenderam que a morte de Cristo na cruz foi “completada” por Deus o ressuscitar dentre os mortos três dias depois. Esta ressurreição foi um sinal da “vitória” de Cristo sobre o pecado e a morte.

Os crentes podiam compartilhar dessa vitória sendo batizados, perdoados de pecados passados ​​e “renascidos” para uma nova vida na comunidade cristã, a igreja. Os cristãos, então, frequentemente se referiam à cruz de Cristo como a “madeira da vida” e como uma “cruz vitoriosa”.

A verdadeira cruz?
No início do século IV, o Imperador Constantino legalizou o Cristianismo. Ele autorizou a escavação de alguns dos locais sagrados da vida de Cristo no que veio a ser chamado de “Terra Santa”. Na época, fazia parte da província romana da Síria Palestina, delimitada pelo rio Jordão a leste, o Mar Mediterrâneo a oeste e a Síria ao norte.

Por volta do século V, surgiu a lenda de que pedaços de cruzes foram descobertos pela mãe de Constantino, Helena, durante essas escavações. Os crentes disseram que uma cura milagrosa aconteceu quando uma mulher doente foi tocada com uma peça, prova de que era uma seção da verdadeira cruz de Cristo.

Constantino construiu uma grande igreja, a Martyrium, sobre o que se supôs ser a localização do túmulo de Jesus. A data de dedicação daquela igreja em setembro passou a ser celebrada como a festa da “Exaltação da Cruz”.

A suposta “descoberta” de Helena da cruz em si recebeu seu próprio dia de festa em maio: a “invenção da cruz”. Ambas as festas eram celebradas em Roma no século VII.

Uma seção do que se acreditava ser a verdadeira cruz foi guardada e venerada na Sexta-Feira Santa em Jerusalém de meados do século IV até sua conquista por um califa muçulmano no século VII.

Representações posteriores
Numerosas igrejas cristãs foram construídas no Império Romano durante os séculos IV e V. Com o apoio financeiro imperial, esses grandes edifícios foram decorados com mosaicos intrincados representando figuras das escrituras, especialmente de Cristo e dos apóstolos.

A cruz que aparece em mosaico é uma cruz dourada adornada com pedras preciosas redondas ou quadradas, uma representação visual da vitória sobre o pecado e a morte alcançada pela morte de Cristo. Era chamada de “crux gemmata” ou “cruz com gemas”.

Do século VI ao início da Idade Média, as representações artísticas da crucificação tornaram-se mais comuns. Às vezes, Cristo era representado sozinho na cruz, talvez entre os outros dois criminosos crucificados com ele. Mais frequentemente, Cristo na cruz está rodeado em ambos os lados pelas figuras de Maria e do apóstolo São João.

Representação medieval de Cristo na cruz. Thomas Quine, CC BY

A veneração pública da cruz na Sexta-feira Santa tornou-se cada vez mais comum fora da Terra Santa, e esse ritual era observado em Roma no século VIII.

Durante o período medieval, o Cristo crucificado era comumente retratado como uma figura serena. A representação tendeu a mudar ao longo dos séculos, para Cristo como uma vítima torturada e torcida.

Significados diferentes
Durante a Reforma, as igrejas protestantes rejeitaram o uso do crucifixo. Na opinião deles, era uma “invenção” humana, não muito usada na igreja primitiva. Eles alegaram que o crucifixo havia se tornado objeto de veneração católica idólatra e usaram outras versões de uma cruz simples.

Representações diferentes da cruz expressaram conflitos mais profundos dentro do cristianismo ocidental.

Mas, mesmo antes disso, a cruz foi usada de forma divisionista. Durante a Alta Idade Média, a cruz ficou conectada com uma série de guerras religiosas travadas na Europa cristã para libertar a Terra Santa das garras dos governantes muçulmanos.

Aqueles que optassem por ir e lutar usariam uma vestimenta especial, marcada com uma cruz, sobre suas roupas diárias. Eles haviam “tomado a cruz” e passaram a ser chamados de “Cruzados”.

De todas as cruzadas, apenas a primeira, no final do século XI, realmente cumpriu seu objetivo. Esses cruzados conquistaram Jerusalém em uma batalha sangrenta que não poupou mulheres e crianças no esforço de livrar a cidade dos “infiéis”. As Cruzadas também geraram ondas de hostilidade ativa contra os judeus europeus, resultando em surtos de violência contra as comunidades judaicas durante séculos.

Por volta do século 19, o termo “cruzada” passou a se referir mais geralmente a qualquer tipo de luta por uma razão “justa”, seja religiosa ou secular. Naquela época, nos Estados Unidos, o termo era usado para descrever uma série de ativistas religiosos-sociais. Por exemplo, o editor de jornal abolicionista William Lloyd Garrison foi chamado de “Cruzado” em sua luta política para acabar com o mal da escravidão.

Símbolo da agenda pró-brancos
Mais tarde, a cruz também foi literalmente assumida por ativistas que se manifestavam contra os avanços sociais. Por exemplo, a Ku Klux Klan, como parte de sua campanha de terror, costumava queimar cruzes de madeira simples em reuniões ou nos gramados de afro-americanos, judeus ou católicos.

Um monólito listando os nomes, datas e justificativas para o linchamento de afro-americanos fica em frente a uma fotografia de uma cruz Ku Klux Klan em chamas em exibição no Museu dos Direitos Civis do Mississippi em Jackson, Miss. AP Photo / Rogelio V. Solis

Algumas décadas depois, a busca de Adolf Hitler pelo expansionismo alemão e perseguição aos judeus, com base em sua crença na superioridade da “raça ariana”, veio a se cristalizar no sinal da suástica. Originalmente um símbolo religioso da Índia, durante séculos foi usado na iconografia cristã como uma das muitas expressões artísticas da cruz.

Ainda hoje, o jornal do KKK se intitula The Crusader, e vários grupos da supremacia branca usam formas da cruz como um símbolo de sua própria agenda pró-branco em bandeiras, tatuagens e roupas.

A Festa da Santa Cruz enfoca o significado da cruz como um poderoso sinal do amor divino e da salvação para os primeiros cristãos. É trágico que a cruz também tenha sido torcida em um sinal vívido de ódio e intolerância.

Joanne M. Pierce, professora de Estudos Religiosos, Colégio da Santa Cruz

Traduzido por Cezar Xavier

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