Trabalhadores do Google criam sindicato e abalam o Vale do Silício

O recém-formado Sindicato dos Trabalhadores da Alphabet se filiou ao Communications Workers of America e deve aumentar as pressões sobre o Google

Um rompante sindical abala o Vale do Silício, na Califórnia (EUA). O maior polo tecnológico do Planeta – que abriga gigantes como Apple, Facebook e Google – está às voltas com a inédita criação de uma grande entidade representativa de trabalhadores na região. Nesta segunda-feira (4), em artigo publicado no The New York Times, 226 funcionários da Alphabet, controladora do Google, anunciaram a formação de um sindicato para representar nada menos que 140 mil trabalhadores.

A entidade – que se filiou ao sindicato nacional Communications Workers of America (trabalhadores do setor de comunicações dos EUA) – deve aumentar as pressões sobre a empresa. O engenheiro de riscos cibernéticos Alan Morales, um dos idealizadores do Sindicato dos Trabalhadores da Alphabet, espera que o número de associados “cresça aos milhares” agora que a entidade formalizou sua existência publicamente.

Ainda sem poder para renegociar os contratos de trabalho de seus membros – por ser ainda pequeno –, o sindicato planeja pressionar a empresa. Entre outras reivindicações, os sindicalistas do Google cobram que a empresa dê prioridade à ética no desenvolvimento de produtos, leve mais a sério as denúncias de comportamento impróprio no local de trabalho e proteja os direitos dos trabalhadores temporários e contratados – que representam metade da força de trabalho da Alphabet.

“Queremos que este sindicato torne a Alphabet e o mundo lugares melhores e queremos defender nossas condições de trabalho para que isso aconteça”, disse Morales. “Temos consciência de que o Google e outras empresas da internet têm produtos que são muito relevantes em nosso dia a dia e acreditamos que podemos tornar o mundo um lugar melhor com o uso de nosso poder de negociação coletiva.”

A sindicalização é algo extremamente raro nos grandes grupos de tecnologia do Vale do Silício. No entanto, cresce cada vez mais o descontentamento com a forma como as empresas lidam com as preocupações dos funcionários sobre os usos de seus produtos e sobre o tratamento dado a grupos marginalizados no local de trabalho. O recém-formado sindicato informa que é o primeiro desse tipo.

A Alphabet, surpreendida, teve de se pronunciar. “Sempre trabalhamos duro para criar um local de trabalho que dê apoio e seja recompensador para nossa força de trabalho”, disse, em nota, Kara Silverstein, diretora de Pessoal da Alphabet. “É claro que nossos funcionários têm protegido direitos trabalhistas que apoiamos. Mas, como sempre fizemos, continuaremos a nos envolver diretamente com todos os nossos funcionários.”

Os líderes do grupo disseram que vinham fazendo reuniões secretas para discutir as deficiências de seus empregadores há mais de um ano, em uma iniciativa discreta que se encerrou com o anúncio da formação do sindicato. Morales diz que se uniu ao grupo por intermédio de colegas que conheceu em uma passeata anterior sobre problemas enfrentados pelas mulheres – mas explicou que alguns trabalhadores hesitam em aderir por medo de retaliações.

O Google é acusado de desrespeitar os trabalhadores e recorrer a práticas antissindicais. Alguns casos já chegaram ao conhecimento do National Labor Relations Board (conselho nacional de relações trabalhistas), que supervisiona negociações coletivas nos Estados Unidos. Em dezembro, o órgão avaliou que a Alphabet provavelmente violou a lei trabalhista ao monitorar e depois demitir dois funcionários que criticaram publicamente a empresa e incentivou os trabalhadores a se organizarem.

“Esta é uma empresa que tem um histórico de trabalhadores que se manifestam quando a empresa não se mostra à altura de seus valores. Mas o que descobrimos nos últimos dois anos é que o ciclo normal de petições e cobertura da imprensa não é mais suficiente”, disse a engenheira de software do Google Auni Ahsan, que é membro do conselho executivo do sindicato.

“A empresa não estava mais ouvindo. Então achamos que era realmente importante nos reunirmos e organizarmos este sindicato, para que pudéssemos ter uma estrutura sustentável e construir um movimento para ganhar força em nosso local de trabalho”, agregou a engenheira.

A tensão entre a Alphabet e parte de sua força de trabalho já era grande. Funcionários organizaram vários protestos e paralisações nos últimos anos, entre elas uma que levou a empresa a cancelar um contrato com o Departamento de Defesa dos EUA em 2018. Os líderes sindicais dizem que ainda não receberam uma resposta formal da Alphabet.

Com informações do Financial Times, via Valor Econômico

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