Thiago de Mello, 95 anos: duas críticas de Otto Maria Carpeaux

“Ainda e sempre o torturam seus problemas pessoais – mas que seria uma poesia que não girasse perpetuamente em torno dos mistérios do amor e da morte?”, escreve Carpeaux sobre Thiago de Mello

O poeta amazonense Thiago de Mello completou 95 anos nesta terça-feira (30). Para celebrar a data, o Prosa, Poesia e Arte, seção cultural do Portal Vermelho, publica, a cada dia, poemas de sua autoria, entrevistas com o autor ou ensaios sobre sua obra.

Um crítico literário em especial, o austríaco naturalizado brasileiro Otto Maria Carpeaux (1900-1978), dedicou muitos textos a Thiago de Mello. Abaixo, destacamos duas dessas críticas. “O companheiro Thiago de Mello”, aqui reproduzido parcialmente, foi escrito em 1966 por Carpeaux para a edição conjunta de Faz Escuro mas eu Canto e A Canção do Amor Armado. O texto “Thiago de Mello, poeta” também é de 1966. Confira!

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O companheiro Thiago de Mello

Por Otto Maria Carpeaux

Thiago de Mello voltou do Chile para entrar, com a cabeça, com o coração e com os punhos, na luta brasileira destes nossos dias. Ainda, a angústia, esse anjo negro do poeta Thiago de Mello, inspirava esse canto, envolvendo-o entre suas asas negras: Amor e Morte. Mas já o poeta tinha encontrado a saída, justamente quando ela parecia fechada para seu povo. A perda da liberdade abrira-lhe os olhos para a perda maior da própria vida, para a miséria do pobre, para a ignomínia de uma estatística: da mortalidade infantil. Inspirado pela desgraça geral, o individualista Thiago de Mello lançou em Faz escuro mas eu canto seu grito de rebeldia. Numa paisagem noturna deu-nos ele um exemplo luminoso. O relógio angustioso de sua poesia bateu as últimas horas de escuridão e vislumbramos num horizonte incerto os primeiros sinais da aurora.

As poesias de A canção do amor armado são mais recentes, e boa parte delas foi como que escrita ontem, para o dia de hoje. Mas esperamos que seja para sempre. Pois no centro desse grupo de poesias novas encontra-se Horóscopo, o maior poema que Thiago de Mello escreveu até agora. Os vaticínios e as advertências para os que nasceram sob as doze diferentes constelações do Zodíaco também valem para os que nascerão depois de nós. São de um lirismo rico, de uma abundância metafórica, de metáforas surpreendentes e no entanto evidentes que fazem pensar na grande metaphysical poetry inglesa. São, às vezes, de uma ironia sutil ou de um sarcasmo cáustico, como se o poeta quisesse zombar das suas e das nossas pequenas preocupações, lembrando-nos a luta maior que se desenrola no fundo e da qual somos, com ele, os combatentes. Pois o rebelde, que Thiago de Mello já foi, agora nos vaticina uma constelação nova: agora, é conscientemente revolucionário.

Uma velha experiência nos adverte: não nos aproximar demais, pessoalmente, dos poetas e escritores que admiramos. É quase certa a desilusão, porque botaram tudo nos seus versos, nas suas linhas, e na vida só ficou um homem inacessivelmente seco. Mas não é este o caso de Thiago de Mello. Sua personalidade é tão rica que podia dar tudo em seus versos – e ainda fica um homem de muitas facetas e um amigo de inumerável coração. Thiago de Mello é como sua poesia: fulminante como suas imagens, firme como seus ritmos, melodioso como sua música. Em um dos versos de Horóscopo ele fala mesmo de música, convidando-nos a tocar um concerto de Bach, “de preferência com fagote ou com fuzil”. Nessas palavras reconhecemos Thiago de Mello. Estendemos a ele as mãos: – Companheiro!

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THIAGO DE MELLO, POETA

Por Otto Maria Carpeaux

FAZ ESCURO MAS EU CANTO lembra-nos os dias, já um pouco remotos, em que Thiago de Mello irrompeu na paisagem da poesia brasileira como uma força elementar: um vento rude, sacudindo as velhas árvores da literatura acadêmica, entusiasmando os maiores representantes e os críticos do modernismo e inspirando nova confiança aos jovens.

Foi depois de 1945. Parnasianismo e Simbolismo, que tinham no Brasil e sous la coupole sobrevivido a todas as tempestades do Tempo, já não existiam mais. O Modernismo ou antes os modernistas de diversas tendências já tinham culminado em alguns grandes poetas, cuja arte parecia, aos mais novos, impossível continuar sem cair na rotina do epigonismo. A geração seguinte estava disposta, acreditava-se, a voltar ao estudo e ao culto de problemas formais. Atrás de versos polidos procurava-se esconder as emoções mais fortes e a participação na vida. Enfim uma paisagem idílica.

Nesse idílio ressoou, de repente, a voz de Thiago de Mello. Foi o primeiro grande poeta que o Amazonas deu ao Brasil: terra nova, criando uma poesia nova. Do escuro das selvas tropicais veio um raio de luz que nos restabeleceu a visão do mundo, os contornos verdadeiros das coisas e das almas.

Uma personalidade indomável; um grande individualista que tinha o direito de falar de si próprio e das suas próprias emoções porque manifestava sentimentos representativos.

Silêncio e Palavra, Narciso Cego, A Lenda da Rosa, Vento Geral foram grandes livros de poesia. Tiveram o sucesso merecido. Thiago de Mello, o homem amazônico, adaptou-se a custo na vida da grande cidade. Desincumbiu-se de importantes tarefas da administração cultural. Com sua cabeleira fabulosa aparecia nos centros de contato da vida literária como um leão domesticado. Mas quem o conhecia de perto, sabia melhor: nesse coração ardente continuavam as fiamme antiche, e as chispas desse fogo voltaram a reunir-se para a chama das Odes que o poeta Thiago de Mello nos ofereceu, como promessas de um poema maior capaz de reacender, um dia, nossas esperanças maiores e nossas maiores esperanças.

Nesse tempo, Thiago de Mello esteve longe de nós. Tinha ido à Bolívia e ao Chile para semear ali o interesse pela cultura brasileira e o amor à poesia brasileira. Passaram-se anos. Thiago deve ter amadurecido muito. Voltou aogra. E tomou logo as atitudes de altiva independência que o engrandecem como homem e como poeta.

O poeta de sempre aparece nos versos de FAZ ESCURO MAS EU CANTO. Ainda e sempre o torturam seus problemas pessoais – mas que seria uma poesia que não girasse perpetuamente em torno dos mistérios do amor e da morte? Não é este o lugar para tentar uma análise da poesia de Thiago de Mello nem para citar-lhe versos dos mais característicos, mas não resisto à tentação de transcrever, a seu respeito, duas linhas de um irmão seu em poesia, do guatemalteco Luis Cardozo y Aragon:

“Porque el amor y la muerte son las alas de mi vida que es como un ángel expulsado perpetuamente”.

Porque ese Cardozo y Aragon, poeta do amor e da morte como Thiago de Mello, é um participante exilado de sua pátria pela ditadura que a potência estrangeira ali instalou.

É este o maior milagre da poesia: justamente quando ela parece mais concentrada no coração do poeta e mais fechada, enclausurada, em sua alma, é ela como o relógio que dá as horas da vida coletiva, anunciando, no meio da noite, o novo dia que virá.

Thiago de Mello é um homem aberto aos anseios coletivos do povo brasileiro. É e sempre será uma voz que canta, por mais impenetrável que pareça a escuridão da hora que atravessamos. Há anos irrompeu ele como uma força elementar na paisagem idílica da literatura brasileira de então. Hoje, esse homem das selvas amazônicas nos reaparece como um partisan, abrindo uma brecha na selva da violência que ameaça engolir-nos. Abre uma clareira.

FAZ ESCURO MAS EU CANTO. Freud comparou o sonho a uma voz de criança que canta no escuro porque sente medo. O Canto no Escuro, de Thiago de Mello, ao contrário, nos inspira coragem. Sua poesia também é relógio: dá a hora do galo que anuncia a aurora.

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