Thiago de Mello, 95 anos: um breve ensaio de Manuel Bandeira

“Atenção, poeta! Fique fiel a si mesmo. Fiel ao seu ofício de amar”, recomendou Bandeira a Thiago de Mello

O poeta amazonense Thiago de Mello completa 95 anos nesta terça-feira (30). Para celebrar a data, o Prosa, Poesia e Arte, seção cultural do Portal Vermelho, publica, a cada dia, poemas de sua autoria, entrevistas com o autor ou ensaios sobre sua obra. É do poeta pernambucano Manuel Bandeira, por exemplo, o pequeno ensaio abaixo, que saudou o lançamento da antologia Vento Geral. O texto foi publicado em 1960 na Folha de S.Paulo. Confira.

Os poetas Manuel Bandeira e Thiago de Mello

VENTO GERAL

Por Manuel Bandeira

A editora José Olympio acaba de lançar o mais bonito volume de sua coleção de poesia coma edição do Vento Geral, de Thiago de Mello (a capa é um poema concreto). O poeta agora vai ficar em pé nas estantes e decentemente vestido para a posteridade.

Assim posto, é possível que perca os complexos de cambaio e defunto, a que devemos, aliás, algumas das toadas mais fortes e saborosas de nossa poesia. Atenção, poeta! Fique fiel a si mesmo. Fiel ao seu ofício de amar – e amando, entreter / o que tenho de mais meu / e mais de amargo: este jeito / cambaio e triste de ser.

Quando ao seu jeito de ser defunto, não há nada que mudar. Em quatro poemas (“O morto”, “Salatiel”, “O defunto” e “Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório”) você provou aos admiradores do grande poema do mesmo nome, obra de Pedro Nava, que o tema é inesgotável, quando, bem entendido, haja no poeta força bastante para a estranha vocação de defunto.

O defunto do Nava era amargo, sinistro, cominativo, imprudente: o de Thiago é um defunto conformado, a cuja “dura e doce dor de existir se misturavam muitas auroras, muitos azuis, defunto bem consciente de que o importante na vida, digamos o saldo da vida, é a lágrima fraterna derramada com beleza”.

De Thiago escrevi uma vez que é grande poeta, um dos grandes da sua geração e de qualquer geração. Relendo essas minhas palavras, transcritas na orelha deste volume, refleti comigo: terei exagerado? Mas logo depois me tranquilizei lendo as de Gilberto Freyre: elas dão-lhe um lugar de exceção entre os melhores poetas do Brasil ao reconhecer na poesia do mestre de Vento Geral versos “que chegam a ser pouco brasileiros pela suas densidade e concentração”.

A leitura dos poemas posteriores à Lenda da Rosa, em especial as Toadas de Cambaio e as Ponderações, me confirmou na verdade dos nossos juízos. Reencontrei em todos esses poemas o mesmo personalíssimo caboclo pluvial, fluvial e aluvial dos livros anteriores, com todos os seus toques e tiques (seu curioso processo de matizar a expressão por meio de 186 prefixos negativos: dizer, por exemplo, “desalegrias” em vez de “tristezas”, o que implica que são tristezas de quem já teve alegrias).

Thiago, meu velho. Estou sentindo a dor de sabê-lo longe / de nosso convívio, longe / de nossa ternura, longe / de nossas andacás, longe / de nossa conversa, longe, / longe, longe, muito longe.

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